domingo, 16 de outubro de 2011

Second round



É nas horas que a vida mais me provoca que me vêm os melhores pensamentos - ou seriam bem os que não quero ver? Pensava em todas as coisas da vida a qual me dediquei e não tive resposta. Ou se tive, não a esperada. Ou até tive, e achei ter encontrado o caminho perfeito, até ele azedar, assim, do nada. E me peguei pensando se eu que erro ou se a vida é  para ser assim, um borrão, nunca passado a limpo, nunca 'perfeito", dentro do que acredito em perfeição?
Hoje me dei conta que um papel amassado, por mais que se queira, não volta a se indireitar. Pode até não perder o seu sentido, mas as marcas estão lá. Não tem ferro que dê jeito. O que se vive não tem borracha que apague. Não é mais como os desenhos coloridos da infância que, bastava um pouco de criatividade, e uma coisa se transformava em outra, rapidamente, como são nossas vontades nessa época. Nem como as primeiras composições  - como se  chamavam as redações quando eu era pequena - escritas a lápis: bastava uma borracha passada com carinho e lá se podia escrever outras verdades, contar outras histórias, sem ter medo de errar.  Depois , cresci, em tamanho e forma, talvez não por dentro, e meu cuidado era com a caneta - quase um eterno. Uma borracha, molhada de saliva, dava conta do erro, mas deixava marcas indesejáveis, até que até isso a tecnologia resolveu: são mil formas as de arrumar a escrita, a palavra mal dita ou não encaixada.  Hoje uso o computador , e é tão fácil ver os erros, consertá-los - fora os tantos que a própria máquina me avisa, alinhavando em vermelho o que devo consertar. Fica a meu critério, mas mesmo que eu teime, lá vem ela me lembrar.
Bom se a vida fosse assim. Mas já foi dito, tantas e tantas vezes, que a palavra dita - ou escrita - como a flecha lançada e a oportunidade perdida - essa, muitas vezes, de se ficar quieto e repensar - não têm volta. Se tivesse, volta ou como refazer, poderíamos arriscar sem medo. Pegar caminhos já não mais sem volta. Deletar textos mal escritos. Engolir com a saliva do arrependimento as palavras malditas.  Correr atrás de nosso sonhos sem medo de errar. E dar nosso coração  - e com ele nossa vida, o que somos , nosso melhor - a quem bem quiséssemos. E se não desse certo, era voltar atrás, escrever de outra fora, outra cor, outra roupagem - ou a mesma, mas de nova forma, idealizada. Rever conceitos, rever o feito, refazer, repensar, reeditar. Reviver, sem deixar rastros do mal. "Passar uma borracha", como se fala por ai. Mas as marcas, tanto no papel como nos dias, ah, difícil não se notar. Até para os peritos em fazer da vida, alheia, brincadeira. Do coração alheio, laboratório. Da vida alheia, experimento. Se der deu, se não der, tanto faz, parto para outra. Bom se eu tivesse essa capacidade. Seria bem melhor acordar e não ter tanta angústia no ar.


"Saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra,
uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se".
Martha Medeiros

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