quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sombras


Da caminhada de hoje, enquanto passeava de mãos dadas com o sol, lindo, meu fazedor de serotonina, um pensamento: cortamos as árvores porque soltam folhas, e "sujam" os dias, e depois procuramos inutilmente a confortável sombra delas.
Sim, cortar árvores. É uma verdade por aqui, já vi muito. Por conta da mania de limpeza, da tradição de uma cidade dita "limpa" - nesse limpo, muita água para rolar - , muita gente se livra das árvores. Ou porque suas fortes raízes estão quebrando as calçadas, ou porque a não perenes soltam suas folhas  - quem sabe flores! - e deixam a tal "limpeza" a desejar. Não se vê os belos tapetes, os quadros prefeitos da natureza, o colorido maravilhoso de  seus pedaços soltos, aquarela esvoaçante. Os amarelos, os rosas, os mais variados tons de marrom, nada isso parece fazer festa. São temidas, varridas, literalmente e insistentemente, enchendo os sacos de lixo. E para o lixo vão.
Minha cabeça foi longe, como sempre, bem além de minhas passadas firmes e ligeiras. Enquanto andava, tentando escolher as calçadas mais marcadas e as ruas mais minhas, veio o pensamento:  somos assim com nossa vida. Plantamos árvores, às vezes pequena semente, muda frágil,. Então cuidamos, vigiamos, sustentamos como dá, regamos, afofamos a terra, olhamos com cuidado todos os dias até ter certeza de que, sim, a raiz pegou, o broto já surge, a nova folha virá. E quando ela toma vulto, quando perdemos o controle, quando dá bela sombra com suas lindas folhas, quem sabe frutos e quem sabe flores, as tão desejadas, cortamos, porque atrapalha. Porque não há controle. Porque suja. Porque não é a perfeição tão desejada, sonhada, esperada. Idealizada, enfim. Sim, dá trabalho zelar, manter, qualquer coisa, de uma porta a um carro, ainda mais um ser vivo e vivaz. Queremos um mundo "limpo" e perfeito. Calçadas lisas, sem defeito.  Quem sabe passar uma vap para esterilizar. Mas é na imperfeição, na folha que cai, na flor que brota e faz tapete, que está toda a beleza? Não está na sombra nosso conforto, nossa tão procurada benção?
Cai a ficha - ou a folha: estão  nos "defeitos" das coisas  os melhores presentes, as maiores belezas, os melhores sonhos. Nossos melhores sossegos. Nosso melhor perfume, a mais suave aragem. As flores que enfeitam vasos. Nossas sombras confortáveis estão nas gargalhadas do nada, nas comidas enjambradas - mas com carinho, no dormir abraçado, mesmo que de mal jeito. Está no ficar acordado para falar bobagens ou conversa franca, nas brincadeiras em hora não esperada. Na fome no meio da madrugada,  no dançar no meio da sala mesmo sem música, no vestido velho que nos deixa um charme, mesmo puído. Na calça de abrigo que deixa o outro leve. No chinelo que deixa o outro simples. No perfume bom do banho recém - tomado, na piada só para fazer o outro rir, na força que se dá para fazê-lo sentir-se melhor. No acolher do pranto, no carinho na desejada., no incentivo na hora certa. No prato feito com carinho, no pão quentinho trazido para agradar, no sorvete na cama -  
e de colherada. Na guerra,sim, mas de travesseiros ou almofadas.
São tantas as folhas, tantas as flores...No fazer-se de surdo só para o outro repetir a frase, no escutar a poesia há muito decorada, mas sem chance de sair. No ajudar quando o outro precisa, nem que seja para lembrar como se escreve tal palavra.  No brincar com seus textos, fazendo-os nossos. Ou quem sabe uma ideia que vem do nada? No café recém - passado levado na cama, no acordar o outro com jeito de quem ama, no amar sem nem esperar ser amado, mas ser. No esperar o tempo dele, diferente do seu. No compreendê-lo, por que diferente de mim. Um  protegendo o outro da chuva e do frio.
 É, a natureza dá lá as suas lições. Enquanto nos preocuparmos com as folhas no chão, a primavera - e quem sabe o verão - passa e nem sombra da gente ser , outra vez, feliz.
Certa estava Quintana, o Mário:

"A felicidade é um sentimento simples; você pode encontrá-la e deixá-la ir embora,
 por não perceber a sua simplicidade".

2 comentários:

  1. Passei e achei esse presente. Se é o que todos queremos, essa "sombra" refrescante, porque preferimos o deserto?
    Perfeito! Como sempre!
    Luis

    ResponderExcluir
  2. "Os três grandes sons essenciais na natureza são o som da chuva, o som da primavera em uma floresta e o som do oceano na praia" (Henry Beston). Querida Joyce, não poderia começar a comentar seu post, sem antes colocar essa frase, que adoro, assim como a NATUREZA...Emocionante, toda sua maneira de "colocar" o quanto somos irresponsáveis com a nossa própria "sobrevivência", ou seja, queremos a natureza e nós mesmos, por causa da nossas falhas humanas que provêm, muitas vezes, da impaciência a destruímos...Como é difícil entender o ser humano! Uma hora diz uma coisa, e logo depois já pensa diferente...E, se entrarmos nessa de nos guiar pelo pensamento alheio, ficamos ainda mais confusas. O que podemos é: mudar, renovar, reinventar...seguir uma linha tênue, procurando entender as atitudes contraditórias dessas pessoas e quem sabe possamos transformar...modificar o "percurso" e onde realmente elas pretendem chegar, com tamanha DESTRUIÇÃO SEM FIM...Porque, se passarmos a vida inteira somente a "observar" (o que não é o seu caso), poucas serão as histórias que teremos para contar aos nossos filhos, netos, bisnetos..." Querida, Joyce, impressionante, a maneira como você encara a vida faz toda a diferença...É como se nenhum problema pode deter sua força e vontade de superá-lo (é assim que eu interpreto vc em seus textos...rsrsrs...), como que para você: o fato é que os desafios caminham junto com as possibilidades, e se fechar os olhos para isso dificilmente viverá o prazer da vitória!! Parabéns, como sempre, muito sucesso e prosperidade!! Bjs no seu coração

    ResponderExcluir