quarta-feira, 30 de novembro de 2011

inCertezas


 
A frase estava lá, em fundo vermelho, como a me chamar,feito imã:

"Nunca desista de alguém que você não consegue passar um dia sem pensar"
Não sei de quem,  e nessa altura da noite e da gastura de querer escrever - e me entender, quem sabe tirar isso de mim - nem importa.
Amor, sim, aprendi com a vida, você dá por que quer. É ali que você se revela por inteiro. É ali que você é o seu melhor, dá o seu melhor. Que você se doa. É um sentimento que pede verdade. Não tem como burlar o amor. Nem como fingir sentir. Porque ele está nos seus olhos, no seu corpo, no seu sorriso que cola no rosto. No semblante de quem está desligado na vida, cabeça voando. E está, posto que sua cabeça está lá, em outro espaço, onde o outro está. É, amor é isso, um desprender-se. O outro toma o seu lugar. O outro toma um vulto que nem dá para imaginar. O outro ganha uma importância que devia ser sua - ou pelo menos também sua. Não, isso não é egoísmo, isso é sensatez. É parar para pensar. Eu tenho que estar bem comigo mesma para depois estar bem para o outro. Eu tenho que estar forte para  só depois, fortalecer o outro. Fácil falar, eu bem sei. Mas para me entender, para entender qualquer situação, aprendi a me afastar. Sair de cena, nem que seja por uns minutos. Ver de longe a situação, feito quem vê de fora - e por isso, melhor. Sair da redoma de proteção que se criou sobre o amor. De ver o outro como perfeito - e não humano, como ele é - e como nós somos. Da redoma confortável de se achar que é, enfim, para sempre, milagroso, planetário, fazendo de nós , amantes, cartomantes, vendo a vida através de uma bola de cristal onde só há felicidade. Ledo engano. A paixão é assim, sonhadora, posto que é pouca, fogo que tem hora para apagar. O amor é humano. É, sim, racional. Falha. Erra. Ofende, até. Humilha. Carinho vira esmola.Preocupação vira controle.Isso se for só você a dar o primeiro passo, só você a tentar consertar, só você a se ver errado. Só você imperfeito, só você infantil, só você ciumento. Só você gente e passível de erros, e o outro um herói , santo imaculado. É quando o amor vira doença, ferida que sangra sem parar...
Mas se for verdadeiro, desses que nem se vê o tempo passar - já que não passa como o tempo, tem outro tiquetaquear, desses que cola na pele e não sai mais, ah, nesse pode apostar. Porque vem dos dois. Por que vem igual. Porque é uma soma, o meu eu com o outro eu. Passível de erros, sim, mas que se dá conta e corre para consertar. Porque se quer, porque os dois querem.
Porque o mundo conspira. Porque, assim,  só assim, vale  a pena tentar.
E eu, que achava o pensamento de Clarice duro em relação ao amor, longe do meu romantismo nada calculado, volto para reler e tentar me encontrar:

"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado:
pensava que, somando as compreensões, eu amava.
Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.
Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil".

E é, Clarice, acredite, desde que se queira de fato!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Embrulhadinha



"A gaveta da alegria
já está cheia
de ficar vazia"
Alice Ruiz



Dizem que dia cinco de Outubro é o Dia do Palhaço. Mas eu prefiro a segunda data, dita por minha mãe, 10 de Dezembro. Coincidentemente ou não, dia em que nasci, Dia de Joyce. E revendo em minha mente as imagens do filme "O palhaço", de Selton Melo, lindo ( o filme e o ator, que é também diretor e dono da história) que assisti arrepiada outro dia, tamanha empatia, entendo essa figura como ninguém. A alguns irrita, outros, ainda, assusta, e tem ainda a turma do deboche. E serve até de xingamento, que eu mesma , vez por outra, uso, mesmo em voz baixa, para nomear um sem noção qualquer. Mas  é, por si só, uma figura que veio ao mundo fazer o mundo rir.
Dele ou da situação.
Vejo-me meio como uma palhaça ( nem sei se essa palavra tem feminino, mas me aproprio). Não, nada de inferioridade nisso, pois não riem de mim, suponho - ou espero. E se riem, tanto faz, não me atinge. E sim das coisas que falo, que posto em minhas redes sociais, como me exponho em meus textos. Do meu jeito de ser, otimista  até demais. Brincalhona por natureza. Simples, como acho que devo ser. Cumprimentando até desconhecidos, fazendo amigos onde quer que eu vá. Alegrando até cachorros por onde eu passar. E sabendo escutar, quando me é pedido. Ou que sinto, puro instinto
Mas que temos  uma coisa em comum, imagino - e me corrijam se eu estiver errada, eu e/ou a figura do palhaço. São - somos - tristes, na verdade. Ou pelo menos não tão alegres como supõem os mais ingênuos, como quem é personagem o tempo todo. Lembro bem da mudança de postura do palhaço vivido pelo ator fora do picadeiro, lugar onde era - ou é -  um astro, mesmo que meio ao avesso. Onde se vê como o centro das atenções. Como "o " cara. Como o dono da festa. Fora do seu campo é outro. Fora da luz de cena, é um comum. A festa é outra, os convidados poucos, e nem sempre se consegue manter a pose alegre o tempo todo.  Nem se fazer da vida uma grande picardia, posto que não é.
Mas sinto, em mim, que um sorriso na cara muda tudo. Que uma palavra otimista muda o mundo - nem que seja o mundinho parco de cada um de nós. Que uma brincadeira de bom gosto aqui e acolá pode, sim , melhorar quem está perto. Como disse o Chico , desta vez o Xavier, "deixa sempre um pouco de alegria por onde passas". Ou  Cora Coralina, que nos ensina a tirar pedras e plantar flores pelo caminho, nada melhor há. E este melhorar segue adiante , feito um vírus do bem, quando o outro chega, cliente, filho, amigo ou amor. E assim sucessivamente, feito um grande dominó de se amar. Podem testar, não dá erro. Ninguém resiste a um sorriso. Ninguém resiste ao brilho de um olhar. Ninguém resiste a um jeito mais leve de levar a vida, mesmo que por dentro esteja triste ou deprimida. Ou simplesmente nem tão de bem com a vida. Nem todo mundo é, nem todo dia é bom. nada ´-e perfeito, não existe o tão procurado mar de rosas - e mesmo nele,  e nelas,  devem existir espinhos. Mas ninguém responde  mal a uma frase bem dita. Nem a um bom dia dito de boca cheia. Nem a  um beijo na testa, pura benção. Nem a uma cena bonita. Nem a  uma mesa bem posta, comida feita na hora e com gosto, surpresa servida na cama, café recém passado quando se vê que o outro está cansado, mas tem que continuar. Nem a uma massagem nas costas para aliviar ou um jeito de carinhar. Nem é cego a um andar alegre, como quem dança na rua. Ou você já viu alguém sair de mal humor de uma comédia? Se viu, interna. Deve ser por pura inveja.
Mas  penso que mesmo em toda alegria tem uma pitadinha de tristeza. Como bem diz Millôr Fernandes, que deve ser outro que pode estar triste enquanto escreve para nos encantar:

"Toda alegria é assim: já vem embrulhada numa tristezinha de papel fino".


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Esperando



Hoje falava de Caio Fernando Abreu, paixão da vez. Não o homem, mas suas palavras, essas velhas conhecidas minhas, serpentes encantadoras de mulheres românticas e sensíveis, como eu. Ou simplesmente Caio. Que, conforme confessei, "amo, mas dói...a gente, muitas vezes, não quer ver a verdade...e ele nos "despe", despudoradamente!" Caio me deixa nua a ponto de ficar ruborizada...carne viva de me ser.
 Quem é Caio?  Quem é esse homem capaz de me deixar sem palavras? Bem dosada e feliz a descrição que achei , "o escritor gaúcho que faleceu há 15 anos, vítima de complicações decorrentes da AIDS, nunca esteve tão vivo. Seu sucesso parece tão vasto quanto sua obra. Ator, astrólogo, jornalista, roteirista, lavador de pratos, viajante, jardineiro, dramaturgo, hippie, mas acima de tudo um escritor, como ele mesmo definiu. Caio foi um pouco de todos os personagens de seus livros".
Para mim um amigo, daqueles "chatos", cutucantes, apontador do dedo indicador, que me faz sangrar , não o sangue vermelho verdadeiro, mas o sangue doído e doido do que é real. A verdade dói quando não se aceita. Quando se contorna para não saber. Talvez porque saiba que é assim a vida, esse sangra e seca, esse endurecer até virar casca, até se curar - se é que tem cura.  Ou se cutucar  a ferida até sangrar de novo...Talvez porque tenha conhecido as dores do amor - talvez  um amor já morto, mas ainda não enterrado, embalsamado por nós. Endeusado. Amores para quem se ergue um altar, e se venera, e se ilude. Que se reza, para quem se acende velas, se faz promessa. Porque se sabe único, ou se sonha ser - ou ter sido. Como se a gente mantivesse ali acesa uma chama, com medo de apagar. Será que vale a pena? Ah, Fernando -  desta vez o Pessoa -  nem me venha com essa de que tudo vale a pena, só porque sabes que a alma de quem ama nunca é pequena!
Será até quando esse sofrido esperar?
Mas Caio não é só dor. Nem só ferida. Eu, mulher faceira e otimista, ponho meu melhor vestido e fico com a frase para mim mais esperançosa, teimosa que sou:

"Quero mais, quero o que ainda não veio."

  Caio, o de Abreu, agora tão meu...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Trava



"O problema é a espera.
Esperamos das pessoas, das coisas, dos fatos, de nós mesmos... "
Caio F. Abreu

Caio Abreu parece ter tirado de mim uma grande descoberta. E brinquei com ele, deixando esconder de mim verdades, feito criança que se sabe errada, mas não dá o braço a torcer. Como quem fala com ele, assim, cara a cara, olho no olho (quem me dera ter a permissão de tão iluminado momento...).
- Esperar de deixar o tempo passar, ficando parada onde se está?
Ou um esperar romântico,  de ter esperança?
Esperar, inerte, seca, pés travados e coração a mil, não gosto, mas aprendo. A vida tem me ensinado da pior forma, eu que sou elétrica por natureza. Tenho tido a forte impressão de estar constantemente sendo arguida, passando por testes, aqueles tão sonhados, e por isso tão desesperadores, definidores de uma vida. Como o pai sentado na sala de espera da maternidade. Ou a mãe, sobre saúde do filho. Ou ainda o jovem tentando ler seu nome na lista da faculdade.
Sinto essa ansiedade a cada dia que passa. Procuro meu nome incessantemente na lista dos felizes. Meu momento é assim perturbador. E desvio meu olhar para não enlouquecer - ou travar de vez. Escrevo, rio e faço rir, deleito-me com coisa pouca, admiro coisas boas para ver se afago o coração. Leio poesias como quem  procura a cura, ponho no papel meus sonhos da vez. Porque tenho aprendido com a vida que quanto mais se espera, mais o tempo trava, o relógio pára, mais perguntas sem resposta, mais peso no passar das horas. Quanto mais corro atrás, mais a coisa se afasta. Então, resolvi me afastar eu, sentar e ficar à espera, mesmo que do nada. Porque não depende só de mim. Porque o outro tem que querer. Porque o outro tem que ser.
Talvez Caio tenha razão. Talvez a gente espere demais da vida, dos outros, do outro. Pior: talvez a gente espere demais da gente mesmo, feito pai atroz. Talvez seja mesmo tudo ilusão. Talvez eu me cobre demais para ser feliz, como uma obrigação, não presente. Não uma resposta ao meu jeito de ser e de agir. Talvez seja hora de acordar e ver que preciso muito pouco para ser feliz. Que preciso esperar menos. Que preciso de mim mesma. Que preciso me fortalecer, me conhecer e reconhecer, se for o momento certo. Preciso me aceitar como sou. E aparar as arestas. Acertar meus ponteiros, fazer o meu eu girar. E o que depender do mundo, esse vasto mundo, melhor sentar. Se não veio hoje, quem sabe amanhã. Mas como já me disse um amigo, desses que se confia desde sempre, tudo na santa paz. Sem luta. Sem mágoas. Sem leva  e traz. Só assim o universo conspira a nosso favor: na base da bandeira branca, não do ardor. Quem sabe assim a porta tão esperada se abre, enfim?

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Asas


Tenho vivido dias estranhos, ao mesmo tempo cheios de expectativas e de muita espera. Eu sonhadora que sou, sou ótima em expectativas, mas não sou boa em esperas. Nunca fui. Mas, dizem, sempre há tempo de se aprender, e estou, pelo menos, tentando. Dessa lição, uma, séria: tudo vem a seu tempo. E tudo tem dois lados, um bom e um que achamos ruim, mas podemos, com o tempo ver que também ele era bom. Ou até que ele era o lado bom da história. O lado bom de tudo isso é a minha espiritualidade, em alta. desde as beijocas na careca do meu Francisco, o santo, até os bons pensamentos pelos meus queridos - e nem tanto - antes de dormir. Sim, melhor arma não há: pensar bem sobre tudo e todos. Os que queremos perto e os que queremos longe. Aceitar que só me vem o que é meu, e só o peso que posso suportar. Medo, tenho, e dai? Medo , aprendo, é bom, faz você pensar não duas, mas várias vezes antes de pular - antes de escrever, antes de falar, de provocar, de querer saber. Antes de meter os pés pelas mãos...
Então, aprendo do meu jeito. Colei no meu lap, esse meu eterno companheiro que me dá acesso ao mundo e á mim mesma, posto que me escrevo, um recado: "você não viu nada". Uma frase simples, poucas palavras, mas que me dizem muito. E várias coisas ao mesmo tempo, coisas das palavras. Não vi nada no sentido de não catar cabelo em ovo, como dizem. E eu completei, brejeiramente, outro dia, com " quem cata cabelo em ovo, faz trança", verdade que me veio do nada - ou do tudo. Se a gente procurar, acha. E , muitas vezes, é melhor não achar. Quem acha não tem certeza. E  a não certeza faz de nós sofredores e sofredoras por antecipação. Faz crescerem não só cabelo em ovo, como alimenta os micos do sotão, dá vida longa a monstros e fantasmas. Quem sabe a Saci Pererê, o bicho de sete cabeças e todo o imenso repertório de seres estranhos do folclore brasileiro. E isso faz com que eu pense, sim, e reflita, sim, mas cada coisa  a  seu tempo, pedindo " ajuda aos universitários", esses loucos todos que moram dentro de mim - e nem sempre me ajudam. E enquanto eles não chegam a um único veridito, a uma única verdade, sigo levando. Não feito balão solto ao vento, sem eira nem beira, louco para estourar, mas feito pipa que, como descobri outro dia, sobe com o vento contrário, sabe a hora de se puxar para subir. Ou pelo menos chegar onde quer chegar. Vira asas.
Bom saber que tudo o que a gente vive um dia, enfim, cedo ou tarde, passa, vira lembrança. Vira lição. Vira piada , boa ou de mal gosto. Vira memória a ser esquecida ou contada. Quem sabe um dia eu desabafe minha vida toda bem vivida em forma de palavras impressas sobre um papel, um papel reciclado, com eu estarei, outra.

"Porque a vida segue. Mas o que foi bonito fica com toda a força.
Mesmo que a gente tente apagar com outras coisas bonitas ou leves,
certos momentos nem o tempo apaga..."
Caio Fernando Abreu

E é desses momentos que a vida não apaga que a gente vive. Nem que seja de lembranças...
Quem sabe vira tatoo?

domingo, 20 de novembro de 2011

Espera





"Até onde posso vou deixando o melhor de mim...
Se alguém não viu...não me sentiu com o coração..."
Clarice Lispector

No meu convívio diário com tantas mulheres, por vezes quase um confessionário virtual, vejo muitas de nós sofrendo por amor. Amor não correspondido, não entendido, não compartilhado. Amor incompleto, insatisfeito, desamor. Um desabafo aqui, outro ali, e vamos sentindo a dor de uma ou de outra, mesmo  sem saber os detalhes. E vejo nisso tudo muita coisa em comum: somos mal amadas - ou, pelo menos, nos fazem sentir assim..
E digo mais - até assumo : acima de tudo, por nós mesmas. Isso deve vir de pequena, ou da tradição maldita que nos fez dependentes - e não só financeiramente, como nos gostam de ter. Dependentes de afeto, de carinho, de reconhecimento. Dependentes de amar. De amor. De se dar. Eu, assumo, publicamente, sem medo de ser feliz ou de me julgarem: podem me crucificar,  não sei ser sozinha.
Mas não me sinto sozinha. Noto nos recados,  na forma como gostam do que posto, ou se preocupam comigo, ou  ainda como se identificam com meus textos - mesmo os mais insanos. Sofrem - sofremos?-  por amores mal entendidos, mal correspondidos, mal compreendidos, não assumidos. Sofremos por amores de vai e vem. Assumimos que amamos, mas isso parece ser, na grande maioria das vezes, uma coisa só nossa, mulheres. Sofremos por amores não achados - ou achados e não correspondidos, por amores mal amados, mal retribuidos, muitos de uma via só. Sinto homens indecisos. Com medo de assumir que nos amam. E  mulheres muito apaixonadas esperando serem vistas como são, amadas como amam - ou como sonham ser. Esperando, sempre algo mais - ou seria o mínimo? Porque é tão dificil? O que cada um procura no outro? Porque mendigamos? Porque estamos sempre à espera como quem não tem outro rumo a tomar? Porque mantemos uma relação que não nos alimenta a alma?
Pois eu vos digo: esperamos companheirismo. Igualdade, não no sentido mal entendido de ser homem, mas a de receber na mesma moeda que doamos. De esperar que nos aparem quando nos jogarmos nesse abismo escuro que é o amor. Esperamos definições de sentimentos, lucidez de pensamento, interesse - por nós e por eles mesmos. Que se saiba o que quer. Que saiba se nos quer. E que assuma isso. Porque é tão difícil? Que nos ame por inteiro, o bem e o mau. Que seja transparente sem magoar. Que seja misterioso só na hora de encantar. Que nos faça rir mais do que chorar. A gente quer é somar e não dividir. Que sinta que fazemos a diferença. Porque o que a gente quer é alguém do lado e não na frente ou atrás. Queremos alguém que nos pegue pela mão, mas para caminhar. Que sinta orgulho de ali estar. Que queira o mesmo que nós: amar por completo, ser um homem completo.
E, principalmente, sem jogo, sem  apostas altas,  a não ser a simples aposta de ser feliz. Sem deixar solto, nem sufocar. Sem armadilhas, a não ser a de nos fazer render aos encantos. Sem silêncios dolorosos que nos fazem pensar o que queremos, e isso nem sempre - quase nunca! - é bom. Silêncio é bom tão somente quando os olhos falam...
Clarice estava certa...queremos alguém que nos veja com o coração!

E depois ainda dizem que as mulheres é que são incompreensíveis...

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Tesouro



Hoje pensava nisso, enquanto ria sozinha em frente ao espelho, eu comigo mesma, e  deixava escapar sorrateiro, aquele sorrisinho indecifrável, como quem deixa a alegria  escapulir devagar. Um dos melhores presentes que alguém pode ganhar da vida é um amigo de verdade, seja ele homem ou mulher. Aquele que a gente corre para contar uma novidade, alegre ou triste. Em quem a gente pode confiar um segredo sem nem se preocupar. E muitas vezes nem se precisa de palavras: ele sabe. Alguém para quem a gente pede ajuda ou conselho - e escuta. Ou ajuda, sem que se peça. Que torce por nós como para o time de futebol. Que lê o interminável texto que acabamos de escrever  - e com gosto - só para nos entender mais, ou se achar. Que nos abraça quando choramos e nos deixa fazer o mesmo. E nos faz ver que somos belos como somos, sem tirar nem por. Que se pode contar para o que vier, e o que não vier, e sem medo de errar. Que nos deixa virar criança outra vez. Que se pode falar abertamente, como quem conversa com a gente mesmo. Com quem a gente pode se abrir porque não vai nos cobrar. Que a gente está sempre querendo ver bem, porque ele sempre pensa assim também. Que se elogia coisas que ele nem imagina - ou mesmo detesta - como a cor do cabelo ou as rugas na face - e ele custa a acreditar. Que ri quando a gente erra no sal, e faz disso piada para um dia todo - uma vida, se lembrar. Que faz a gente rir das nossas próprias manias, que aos outros incomoda - e a ele não.  Que faz palhaçadas na nossa frente que nunca faria na frente de outro qualquer - nem os ditos "mais íntimos". Que faz palhaçada até na hora que não se pode, porque para ele tudo pode. Que respeita o nosso choro na  cena brega do cinema - e até acha bonitinho. Que acha graça da gargalhada escancarada que se dá, aquela que todo mundo olha torto, e gargalha junto, só para acompanhar. Que nos dá a última garfada do que quer que seja só para se livrar da nossa cara de pidão. Ou enfia logo na boca só para ver a nossa cara de decepção, pois se diverte. Que vê nossos defeitos, mas disfarça, sabe de nosso vícios e nem chama a atenção. Que respeita a nós até mais que a eles mesmos. Que nos admira até mais do que  se admira. Que faria qualquer coisa para nos ver melhores e com nosso melhor sorriso colado na boca.
Um tesouro. Quem tem alguém assim do lado - ou longe -  tem um tesouro. Desses que os piratas vivem à procura e nunca encontram, de tão raros , uns disfarçados de amor. Destes que as pessoas menos crédulas nem acreditam - e desconfiam de quem diz ter. E eu estou feliz , muito feliz, em poder dizer que tenho. E que amo ter! E que sou muito grata a isso!
E, enfim, entender e poder dizer , feito Clarice:

"Mas você - eu não posso, nem quero explicar - eu agradeço".
 


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Ventania



"Diante dos ventos contrários, aproveite para voar.
Uma pipa sobe contra e não a favor do vento".

Não sei de quem é essa frase, mas bateu em mim e grudou. Subir usando o vento do contra. Voar mesmo se o vento não ajudar. Meu horóscopo do dia - que leio, como se fosse conselho de amigo, que a gente escuta, mas nem sempre leva a sério ( deveria?)  já dizia que é tempo de esperar. Que estou no processo de inferno astral, aqueles dias em que a vida meio que pára para nos dar fôlego novo lá na frente e a gente reclama que não tá legal. Buenas, sigo, antes que me enverede  -  e me perca - pelos caminhos do futuro e não do presente, mesmo que mal embalado. E a fita da pipa de parta e eu me veja sem volta...
Estou - e faz um bom tempo, mais no sentido de longo de que gostoso - num processo de mudanças em mim. Não mudanças no sentido de quem está perdida, e sim de quem se achou e quer acertar o passo - ou o vôo. Mudanças de ordem pessoal, emocional, profissional  e tantos outros "als" que têm vindo por ai. Quem sabe sabe espiritual, material, sabe-se se lá o que vem pela frente quando a gente assume o que quer, o bem e o mal. Mesmo achando que a coisa está lenta, comemoro toda e qualquer ação de minha parte. Todo e qualquer movimento, mesmo por dentro, não reparado. E principalmente  as mais humildes, as que me reconheço errando e voltando atrás. Em que me vejo amando e abro a guarda , reconheço e abraço a causa. Luto, sim, mas com armas benéficas e incapazes de ferir. Como se o voar a favor fosse, em certos momentos, uma forma de voar contra, acumular forças para enfrentar os ventos rompantes que virão - e não tenho dúvida nenhuma que virão. Um ver de longe, como quem procura realmente entender. Achar caminhos, quem sabe saídas, as velhas e boas estratégicas. E esse reforço em mim tem me deixado preparada. Esse aparentemente descuido é tão somente para deixar a coisa fluir, a vida passar e levar as brumas para que eu veja meu futuro melhor. Aliás, cá entre nós, o futuro nem existe: quando se vê realmente é porque já virou presente. Antes,  é só um observar de astros, uma soma de sonhos, um se deixar levar.
Volto a me imaginar como uma grande pipa - suficiente para ter força e mínima para não ter peso. E colorida, como quero minha vida.Vivendo entre o esperar o vento certo e cortá-lo para enfrentar. Sem trapaças, só manobras. E assim, entre contra e favor, subir, dançar, puxar e soltar, galgar espaços, crescer, chegar lá. Um lá que nem sei bem onde é, mas tenho certeza de que vou gostar. 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Nua



Quando eu falo em meus textos que tenho fome de vida, não é para mim metáfora, é verdade. Sou daquelas que se joga precipício abaixo, corajosa, sem asas e sem saber o que vai encontrar. E se vai encontrar. Pode ser que eu continue quebrando a cara, quem sabe encontrando a morte de mim mesma, tantas e tantas vezes, mas não desisto. Consertando a cara, cuidando das feridas, quem sabe. Porque não sei ser outra a não ser eu mesma. Descaradamente assim, verdadeira  e nua. Inteira, sem meias palavras, nem meias verdades, porque meus olhos, para quem sabe ler, tudo falam. Feito os olhos de piscina de Clarice. Transparentes. Aguadamente límpidos. E que seja o que Deus quiser.
A vida, parece, pelo menos para mim, não ter meio termo. Ou é um marasmo confortável do passar de horas, do chato tiquetaquear  sempre igual, de longas esperas que as coisas melhorem, que as coisas aconteçam, como quem fica à espera de algo, de um telefonema, uma carta, o tocar da campainha da porta e o amor entrar. O sim ao invés do não - ou pior, do talvez. Da vida dita perfeita e simples,  passante, feito riacho doce em dia de plena seca. Só vai.
 Ou o mesmo riacho quando recebe a chuva na sua nascente, e vem, transborda. Eu conheci os dois lados. Ou vários. mas navego nos extremos. Quando me deixei levar pelo confortável mundinho , longe de ser de cão, do come - dorme, do aceita tudo, adoeci, por dentro e por fora. Morria aos poucos e nem sentia. Secava. A vida é assim mesmo, eu me dizia. Reclamando de que? eu me perguntava. Foi ai que ela, a vida, teve pena e me cutucou. E acordei, quase na entrada da UTI. Inchei de tanto mal me amar. Como se eu fosse a esponja dos dias, pegando para mim tudo o que tinha do lado de fora do meu mundo. Como se todas as culpas  caíssem sobre a minha cabeça por pensar diferente, por não me deixar empurrar. Por não me contentar com migalhas. E por pouco, muito pouco, não me deixei jogar fora. Não me deixei esquecer dentro de uma casa qualquer, lavando uma roupa qualquer, vivendo uma vida qualquer, vendo a minha passar feito capítulos da nova - e sempre igual e chata - novela.
E já fui aos oitenta - ou mais, feito Ferrari. Também me deixei levar pela tempestade louca da paixão pelo viver, pelo vivenciar sem medo, esse tsunami de emoções - e seus arco-iris bons. E fui, me deixei ir, até onde deu. Arremecei-me no abismo de olhos fechados ( seria medo de abrir?) e braços abertos, corajosa que sou. E fui feliz, muito feliz. E "faria tudo de novo outra vez", como diz a música, "se preciso fosse, meu amor". Como dizem por ai, muita história para contar: meus netos irão gostar.
De fato, não conheço o quarenta e quatro, o meio termo, a média boa, comedida e exata. O boletim sempre azul, a vida sem sobressaltos. Do sorriso "durex" e exato, feito propaganda de margarina - ou sabão em pó. Do cartão de honra ao mérito, reluzente e dourado,  talvez por ter recebido em troca que não passava de uma obrigação. Sinceramente, prefiro o risco, a apsota alta. Prefiro sentir o murro em ponta de faca,  e ver o sangue ali, vertente e vermelho, que coagulado pelo marasmo de não ceder, estancado pelo nada.
Oito ou oitenta? Quem sabe, um dia, o 44, no sei. Quem sabe quando eu cansar de andar nessa montanha russa dos meus dias, eu sossegue. Nem que seja bem velhinha, sentadinha, de mãos dadas com o amor, enfim, encontrado. Quanto eu parar de tentar correr atrás e deixar a vida me levar - e me achar - desde que o caminho certo que me faça pelo menos um pouco - ou muito? - feliz.

Certo estava Pessoa, o Fernando:

"Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
'Navegar é preciso; viver não é preciso'.
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo"

Que me queime quem não concordar!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Crescendo



Esse pensamento tomou conta de mim toda, dos pés á cabeça, hoje  a mil. Dia 11 de 11 de 2011. Para mim seria um dia de decisões - ou quase. De novos rumos, de resoluções, de crescimento - e  não para os lados. Dava até a soma do oito, da afetivação, da justiça e do acontecer. E bastou um não e tudo se foi por água abaixo. Toda a minha esperança, toda a minha força voltada para o assunto, toda  a minha energia focada foi pelo ralo - ou porta a fora. Ou ficou lá fora, sem pressa de entrar.
11 de 11 de 2011. Dizem que o dia é bom para meditação, para se repensar a vida. Para se espiritualizar. Eu descobri que estou no dia 11  de 11 de 2011 faz tempo, todo dia, e isso, pensar, repensar, se calar para me ouvir, virou rotina, virou mania. Cansa. Esperar cansa. Melhor sentar. Ou deitar. Eu queria pensar diferente. Aprender a levar a vida como dá. Ver no destino algo de bom, sem tanto medo de errar. Ver como o melhor da vida o que  a gente não espera, não o que a gente sonha e tenta, incessantemente, realizar. A felicidade no momento de descuido,  como já dizia Guimarães Rosa.  Esperar nada é, a meu ver - e pelo menos hoje, agora , amanhã já não sei -  o melhor a se fazer. Assim, o que vier é lucro. Não se pre - ocupar com as coisas, deixar que as coisas venham, aconteçam  fluam, e ai, sim, tentar resolver - ou absorver, ou desitir, tanto faz, mas finalizar de alguma força. Fechar ciclos, dar um fim na história, fechar  o livro de mistérios da vida. Ou, quem sabe, começar outra , página nova e limpa, e com esse começar tudo outra vez? Ou não. Seria tão mais saudável. A vida seria tão mais tranquila. Chego a ter inveja das pessoas que não têm sobressaltos, que fazem exatamente a mesma coisa todo dia, o mesmo acordar, o mesmo café, as mesmas atividades, os mesmos horários, os mesmos bons dias, pessoas, comidas, idas e vindas, cronometradas pelos afazeres, a mesma monotonia. Não sei se eu conseguiria, mas deve ser bom. Saber, de certo modo, o que vem depois. Ou pelo menos, mais calmo, sem tanto entra e sai, sem tanto vai e vem.
Vou testar viver de outro modo. Parar de bater a mesma tecla. Andar mais devagar, pensar menos. Culpar-me menos , me acariciar mais. Criticar-me menos, tentar amar-me mais. Tentar fechar um ciclo, ou abrí-lo de novo, mas novo. Estar num outro lugar com outras pessoas - mesmo sendo ambos conhecidos e amados - e tentar ver como me sinto. Ver as coisas com outros olhos menos viciados - e menos distantes. Mais decididos, mas não menos apaixonados. Outras alternativas, outras  tentativas de ludibriar  - e , quem sabe, lubrificar - meu cérebro. Dá medo, sim, mas um medo calculado. Serei eu a decidir as coisas. Serei eu a tomar as rédeas, inclusive as minhas. A achar  um jeito mais confortável  de me levar. A me deixar puxar pela mão, os invés de puxar...vamos ver no que dá!

E pensar como disse Osho:

"Onde você estiver, é sempre o início.
É por isso que a vida é tão bela, tão jovem, tão virgem.
Algo que você deveria sempre manter
– e esta é a única obrigação – é ser feliz"

Prometo tentar! E esperar brotar no canto da boca o tal sorrisinho indecifrável...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Gastança


Essa semana está sendo importante para mim. Posso dizer, assim, de boca cheia, que é, sim, uma semana de decisões. Decisões sobre o presente e sobre o futuro. E ai eu paro para pensar - e nesse pensar, muito - de como é minha'lma, talvez muito diferente de muita gente.
Minha'lma é estranhamente minha, feito digital.  Tenho um jeito só meu de me pensar, de pensar sobre a vida, sobre o hoje e sobre o amanhã. E isso, por vezes, assusta. Agora, por exemplo, numa semana que poderia se dizer definitiva, presente e futuro tem disputado palmo a palmo um espaço maior dentro de mim. Briga feia, e eu no meio. E eu, ao contrário do que se podia pensar, resolvi abrir meu peito para o hoje, tentando tirar essa névoa que tentam colocar sobre o meu amanhã, esse cara chamado futuro que por vezes nos faz tremer. Ou fazer escolhas de um jeito como se tudo fosse acontecer feito uma tabela pré - programada, feito matemática, onde dois mais dois dá um resultado sempre igual, destes que se aprende desde cedo. A vida não é assim, racional. Não se tem como programar, não efetivamente. Claro, em termos materiais, temos até como pensar nisso, cobrir tabelas, mas nunca se sabe até quando e se isso vai nos ajudar - ou se foi, no final de tudo uma grande besteira. Mas em termos de escolhas de vida,  de sentimentos, de relacionamentos, e principalmente do coração, ah, não se tem como adiantar. De nada adianta programar-se, tentar prever, pôr amor em rendimento. Não tem bolsa de valores, nem aplicações de pequeno , médio ou longo prazo. Amor é o tipo de investimento que que quanto mais se poupa, menos se tem. E investir nele pode ser bem solitário. Nunca se sabe até onde o outro vai, até onde o outro ama, até onde o outro corresponde, até onde vale. Porque amar é assim, um sentimento que se tem e pronto, não tem como medir. É assim como carinho, afetos, cuidados em geral. Coisas que você investe, sim, dá, doa, e espera, sempre, mesmo que intimamente, que dê o retorno esperado. Senão empate, mas que chegue perto, que nos sustente. Que nos faça mais completo, que nos faça inteiros, que nos deixe mais felizes...Hoje, quem dera até amanhã.
É, pensando bem, certo está o Carpinejar:
"liberdade na vida é um amor para se prender..."

domingo, 6 de novembro de 2011

Dominguando...



O domingo não deveria ser dividido em tique-taques das horas...
Domingo deveria ser contato em suspiros...
Suspiros pela palavra bem escrita e bem lida, suspiros pelo canto dos passarinhos,
o vai-e vem das águas,  o passar calmo do dia...
...Domingo deveria chover...

Assim comecei meu dia, pensando. Porque tanta gente famosa ou desconhecida detesta o domingo? Clarice o diz oco, dia de perder a infância. Quintana o diz chato, feito o céu.  Martha diz que tem que ter sol, senão não há. A mim, parece adiantarem a segunda, sofrer por antecipação, fazer do dia um longo e terno esperar - ou uma desforra, um vale -tudo. Eu , do contra, amo, principalmente se não tiver "nada " para fazer. E nesse "nada" tanto, e a gente nem se dá conta, o real viver, vivenciar. Mas não foi sempre assim. meu pai me ensinou que domingo era dia de estar longe, de sair, de movimentar, e isso me pesou por longos anos. Dia de praia, estrada ou campo, nunca de ficar onde se está, porque ficar era tédio.
Minha calmaria domingueira , essa boa companheira, aprendi com o amor, esse que me trouxe inteira de volta, que me redescobriu. O amor não tem pressa, vive devagar, tem lá ele o seu tempo.  O amor não tem relógio, não tem pressa, nem precisão.Tem preguiça de sair lá fora se aqui dentro é bom de passarinhar. Domingo é dia de se ser por inteiro. De se ser sem se importar. Ler o livro que me espera ao lado da cama, quieto, desde a segunda , quando larguei-o ali. Escutar as músicas na "vitrola", botar os cds para tocar, dançar sem vergonha. Comer sem hora, rir sem motivo, sonecar se quiser e quando dá. Dia de deixar o carro na garagem em merecido descanso, sair para passear, assim, de mãos dadas com o mundo. Um passear de lesa, descobrindo ruas novas, catando folhas, observando as janelas que nunca se vê e ficar pensando quem vive lá. Domingo, para mim, essa que me sou hoje,  é dia de vadiagem, uma vadiagem  boa e sem culpa, um viver sem pressa de acabar. Ficar na cama até mais tarde, não prá dormir, mas para se enrroscar. Domingo é dia de fazer o que se gosta e que a semana não dá lugar. Domingo é dia de ser, mas sem atropelar. Domingo é dia de se amar. Bom para quem não tem filhos (risos).

"Segunda de mera ilusão,
Terça, felicidade,
Quatro dias solidão,
Domingo pede saudade".
Janet Zimmermann

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Cigana



"Alguém dentro de mim mente para me proteger".

Fabricio Carpinejar tem razão. Ando brincando, falando que vou largar tudo e abrir uma barraquinha de ver o futuro. Se bola de cristal ou cartas, quem sabe runas, ainda não sei. A única coisa boa disso tudo é que eu iria ficar linda de lenço na cabeça, belo vestido rodado, lindo decote e mil colares.
Mas voltando ao assunto, antes que eu despenque para o lado bom da coisa, tenho adivinhado coisas. Ruins para mim, claro, se eu ver pelo lado B, de burrice. Se eu ver pelo lado A, de atenção, bom se eu usasse esse meu dom "adivinho" e seguisse meus próprios conselhos. Intuição é boa amiga, sempre, nós é que teimamos e fazemo-nos de cegos e surdos. Verdadeiros tapados, como se diz por ai.
Enfim, nem preciso de barraquinha, penso. Nem ao menos mudar de profissão, ou acrescentar mais uma na minha já vasta lista. É só ver que a vida anda muito óbvia, repetitiva, meio - ou bastante? - clara. Como esses filmes que a gente já consegue prever o final. Ou novelas em que, no último capítulo, só tem beijo, porque os maus já se deram mal no capítulo anterior. Fácil prever. Porque a gente não pensa na nossa vida como novela, por vezes do tipo mexicana, como gostamos de brincar? É tudo tão claro, tão certo, e temos a infantil ideia de que, sim, temos força para mudar. Que, sim, desta vez vai se diferente. Que, sim, o coração sabe o que faz. E mentimos para nós mesmos. Ou nos deixamos enganar por nós mesmos. Diz Carpinejar que é para nos proteger. Mas a gente já sabe que mentira tem perna curta...algumas curtas até demais.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Chico


Ontem foi dia de Haloween. E de Saci Pererê, para não deixar o país tropical de lado. Também foi proclamado como o Dia D, de Drummond, o Carlos, o poeta, como falo e falei, ou melhor, escrevi. Depois de 109 anos, leva de presente um dia. Homenagem que fazemos aos tantos poetas, escritores e artistas mortos que, durante a vida, penaram por aqui,e  depois de mortos, viram santos. "São", enfim.
E falando em santos, hoje a coisa muda, vira Dia - de - Todos - os- Santos, todos eles, os que amamos e os que temos medo. É dia de mártires, que são tantos. E entre tantos santos e mártires, o meu Francisco, o Santo, de Assis. Protetor dos animais, por quem sou apaixonada e tenho vários espalhados pela casa, a me proteger - ou eu a eles. Porque? Não sei. Deve ser uma destas paixões inexplicáveis e eternas. Ou paixão por toda a sua dedicação, desprendimento, simplicidade em vida.
E aniversário de outro Francisco, não santo, ainda bem. Também uma paixão. Um "quirido" como dizem por aqui. Um Francisco como o pai, que nasceu no Dia dos Mortos, amanhã, mas por força da mãe que, como toda mãe, sempre nos quer bem, levou no papel o dia de hoje. Porque criança não nasce em dia de mortos. Porque não se canta nada, nem parábens, e nem muito menos se comemora outro ano de vida, enquanto tantos choram seus mortos. E dai para frente, Chico nasceu hoje. Hoje um homem de mil nomes, entre apelidos dados e assimilados, uns herdados outros que ele mesmo se deu, inventados feito personagens, essas tantas que temos e não temos coragem de assumir.  Uma pessoa ímpar no mundo assim, como diz Drummond.
Fico imaginando quantas e quantas vezes ele, o Francisco de hoje, contou sobre sua verdadeira data de aniversário. Quase um ritual, como aqueles que, como eu, tem que soletrar seu nome ou sobrenome: ele "soletra" sua história. E, bom contador que é, amante das histórias, faz dela conto, se não de fadas, coisa de gente sonhadora como eu, de reis, de um rei, um lutador. E, fato, é inusitado, pairando, para mim, que adoro histórias de vida bem vivida, entre romântico e engraçado. E dou razão à mãe, delicada e calma como é. Imagino seus olhos assustados ao saber que ia parir. "Logo hoje", deve ter pensado, vendo o entra e sai dos cemitérios, as músicas fúnebres das rádios. E nesse pensar longe, já todo futuro do pequeno definido. Chama o "Chicão",  o pai, e fala da sua decisão. Não tem porque o menino levar esse senão da vida. Não ter porque não comemorar o seu único dia do ano. E assim se fez: todo dia primeiro do mês de novembro, bolo e festa; no outro dia  se chora os mortos, hoje não. Ou pelo menos até o Chico, filho, ter idade suficiente para decidir se cantam ou não, se comemora ou não. Ele tem razão: depois de um certo tempo a gente cansa da  velha musiquinha... ( deviam arranjar outra). Cansa dos parabéns. Das mesmas felicitações, dos mesmos cartões, dos envelopes de políticos, da boa saúde, do bom desejo, do sucesso, do dinheiro, das tantaboas  intenções. E ele sempre pensando, na hora do "parabéns" que seu dia é outro. Que seu dia era amanhã. Como um segredo bem guardado, que depois virou contar. Que faz dele um homem ímpar.
Mas amanhã, Francisco, é dia de choro, e não de alegria. É dia de melancolia, não de festejo. Melhor ficar com o hoje, um dia seu. Hoje, sim,  hoje é Dia de Francisco, um dia especial, tal qual seu dono, e amanhã não se fala mais nisso.
Amanhã , ah, amanhã é outro dia...
E me aproprio de uma frase de Drummond e brinco:

Quando nascestes, Francisco, veio um anjo torto
desses que vivem na sombra e disse:
 "Vai, Chico, ser querido na vida!"

Tomara que amanhã chova, como gostas...