terça-feira, 1 de novembro de 2011

Chico


Ontem foi dia de Haloween. E de Saci Pererê, para não deixar o país tropical de lado. Também foi proclamado como o Dia D, de Drummond, o Carlos, o poeta, como falo e falei, ou melhor, escrevi. Depois de 109 anos, leva de presente um dia. Homenagem que fazemos aos tantos poetas, escritores e artistas mortos que, durante a vida, penaram por aqui,e  depois de mortos, viram santos. "São", enfim.
E falando em santos, hoje a coisa muda, vira Dia - de - Todos - os- Santos, todos eles, os que amamos e os que temos medo. É dia de mártires, que são tantos. E entre tantos santos e mártires, o meu Francisco, o Santo, de Assis. Protetor dos animais, por quem sou apaixonada e tenho vários espalhados pela casa, a me proteger - ou eu a eles. Porque? Não sei. Deve ser uma destas paixões inexplicáveis e eternas. Ou paixão por toda a sua dedicação, desprendimento, simplicidade em vida.
E aniversário de outro Francisco, não santo, ainda bem. Também uma paixão. Um "quirido" como dizem por aqui. Um Francisco como o pai, que nasceu no Dia dos Mortos, amanhã, mas por força da mãe que, como toda mãe, sempre nos quer bem, levou no papel o dia de hoje. Porque criança não nasce em dia de mortos. Porque não se canta nada, nem parábens, e nem muito menos se comemora outro ano de vida, enquanto tantos choram seus mortos. E dai para frente, Chico nasceu hoje. Hoje um homem de mil nomes, entre apelidos dados e assimilados, uns herdados outros que ele mesmo se deu, inventados feito personagens, essas tantas que temos e não temos coragem de assumir.  Uma pessoa ímpar no mundo assim, como diz Drummond.
Fico imaginando quantas e quantas vezes ele, o Francisco de hoje, contou sobre sua verdadeira data de aniversário. Quase um ritual, como aqueles que, como eu, tem que soletrar seu nome ou sobrenome: ele "soletra" sua história. E, bom contador que é, amante das histórias, faz dela conto, se não de fadas, coisa de gente sonhadora como eu, de reis, de um rei, um lutador. E, fato, é inusitado, pairando, para mim, que adoro histórias de vida bem vivida, entre romântico e engraçado. E dou razão à mãe, delicada e calma como é. Imagino seus olhos assustados ao saber que ia parir. "Logo hoje", deve ter pensado, vendo o entra e sai dos cemitérios, as músicas fúnebres das rádios. E nesse pensar longe, já todo futuro do pequeno definido. Chama o "Chicão",  o pai, e fala da sua decisão. Não tem porque o menino levar esse senão da vida. Não ter porque não comemorar o seu único dia do ano. E assim se fez: todo dia primeiro do mês de novembro, bolo e festa; no outro dia  se chora os mortos, hoje não. Ou pelo menos até o Chico, filho, ter idade suficiente para decidir se cantam ou não, se comemora ou não. Ele tem razão: depois de um certo tempo a gente cansa da  velha musiquinha... ( deviam arranjar outra). Cansa dos parabéns. Das mesmas felicitações, dos mesmos cartões, dos envelopes de políticos, da boa saúde, do bom desejo, do sucesso, do dinheiro, das tantaboas  intenções. E ele sempre pensando, na hora do "parabéns" que seu dia é outro. Que seu dia era amanhã. Como um segredo bem guardado, que depois virou contar. Que faz dele um homem ímpar.
Mas amanhã, Francisco, é dia de choro, e não de alegria. É dia de melancolia, não de festejo. Melhor ficar com o hoje, um dia seu. Hoje, sim,  hoje é Dia de Francisco, um dia especial, tal qual seu dono, e amanhã não se fala mais nisso.
Amanhã , ah, amanhã é outro dia...
E me aproprio de uma frase de Drummond e brinco:

Quando nascestes, Francisco, veio um anjo torto
desses que vivem na sombra e disse:
 "Vai, Chico, ser querido na vida!"

Tomara que amanhã chova, como gostas...

Nenhum comentário:

Postar um comentário