quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Embrulhadinha



"A gaveta da alegria
já está cheia
de ficar vazia"
Alice Ruiz



Dizem que dia cinco de Outubro é o Dia do Palhaço. Mas eu prefiro a segunda data, dita por minha mãe, 10 de Dezembro. Coincidentemente ou não, dia em que nasci, Dia de Joyce. E revendo em minha mente as imagens do filme "O palhaço", de Selton Melo, lindo ( o filme e o ator, que é também diretor e dono da história) que assisti arrepiada outro dia, tamanha empatia, entendo essa figura como ninguém. A alguns irrita, outros, ainda, assusta, e tem ainda a turma do deboche. E serve até de xingamento, que eu mesma , vez por outra, uso, mesmo em voz baixa, para nomear um sem noção qualquer. Mas  é, por si só, uma figura que veio ao mundo fazer o mundo rir.
Dele ou da situação.
Vejo-me meio como uma palhaça ( nem sei se essa palavra tem feminino, mas me aproprio). Não, nada de inferioridade nisso, pois não riem de mim, suponho - ou espero. E se riem, tanto faz, não me atinge. E sim das coisas que falo, que posto em minhas redes sociais, como me exponho em meus textos. Do meu jeito de ser, otimista  até demais. Brincalhona por natureza. Simples, como acho que devo ser. Cumprimentando até desconhecidos, fazendo amigos onde quer que eu vá. Alegrando até cachorros por onde eu passar. E sabendo escutar, quando me é pedido. Ou que sinto, puro instinto
Mas que temos  uma coisa em comum, imagino - e me corrijam se eu estiver errada, eu e/ou a figura do palhaço. São - somos - tristes, na verdade. Ou pelo menos não tão alegres como supõem os mais ingênuos, como quem é personagem o tempo todo. Lembro bem da mudança de postura do palhaço vivido pelo ator fora do picadeiro, lugar onde era - ou é -  um astro, mesmo que meio ao avesso. Onde se vê como o centro das atenções. Como "o " cara. Como o dono da festa. Fora do seu campo é outro. Fora da luz de cena, é um comum. A festa é outra, os convidados poucos, e nem sempre se consegue manter a pose alegre o tempo todo.  Nem se fazer da vida uma grande picardia, posto que não é.
Mas sinto, em mim, que um sorriso na cara muda tudo. Que uma palavra otimista muda o mundo - nem que seja o mundinho parco de cada um de nós. Que uma brincadeira de bom gosto aqui e acolá pode, sim , melhorar quem está perto. Como disse o Chico , desta vez o Xavier, "deixa sempre um pouco de alegria por onde passas". Ou  Cora Coralina, que nos ensina a tirar pedras e plantar flores pelo caminho, nada melhor há. E este melhorar segue adiante , feito um vírus do bem, quando o outro chega, cliente, filho, amigo ou amor. E assim sucessivamente, feito um grande dominó de se amar. Podem testar, não dá erro. Ninguém resiste a um sorriso. Ninguém resiste ao brilho de um olhar. Ninguém resiste a um jeito mais leve de levar a vida, mesmo que por dentro esteja triste ou deprimida. Ou simplesmente nem tão de bem com a vida. Nem todo mundo é, nem todo dia é bom. nada ´-e perfeito, não existe o tão procurado mar de rosas - e mesmo nele,  e nelas,  devem existir espinhos. Mas ninguém responde  mal a uma frase bem dita. Nem a um bom dia dito de boca cheia. Nem a  um beijo na testa, pura benção. Nem a uma cena bonita. Nem a  uma mesa bem posta, comida feita na hora e com gosto, surpresa servida na cama, café recém passado quando se vê que o outro está cansado, mas tem que continuar. Nem a uma massagem nas costas para aliviar ou um jeito de carinhar. Nem é cego a um andar alegre, como quem dança na rua. Ou você já viu alguém sair de mal humor de uma comédia? Se viu, interna. Deve ser por pura inveja.
Mas  penso que mesmo em toda alegria tem uma pitadinha de tristeza. Como bem diz Millôr Fernandes, que deve ser outro que pode estar triste enquanto escreve para nos encantar:

"Toda alegria é assim: já vem embrulhada numa tristezinha de papel fino".


Um comentário:

  1. Sua gaveta de alegrias deveria estar sempre abarrotada, explodindo.
    Porque é o que você merece, tudo,tudo, pela mulher linda e completa que você é!

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