domingo, 25 de dezembro de 2011

Inteira




Hoje é comemorado o aniversário de Jesus, um cara que amou muito e nos ensinou sobre o verdadeiro amor. Se foi hoje, se foi como nos contaram, se isso , se aquilo, nada interessa, acredite você ou não. Transformou nossa capacidade de amar, nosso jeito de amar, e colocou muito desse amor em seus ensinamentos. Está lá: " em sua origem, o homem só tem instintos; quando mais avançado e corrompido, só tem sensações; quando instruído e depurado, tem sentimentos.
E o ponto delicado do sentimento é o amor".
Mas o que é amar? E a quem amar? Como sentimento nobre que é, não é fácil definir. Mais fácil, bem mais fácil sentir. Quando você se desprende, quando você se doa sem nem esperar em troca. Diferente, muito diferente da paixão, fogo ardente, forte, mas que se vai, apaga ( dizem os cientistas que duram dois anos...)  ou , se transformadora, se transforma e vira amor. Ou , pelo lado ruim  - e tudo tem dois lados na vida  - em possessão, aquela pessoa que você tem que ter por perto, mesmo que infeliz, que a faça infeliz, ela e você, pois o que vai volta, ação, reação, lei da física.
Cuidar dos outros, amar aos outros, dar força aos outros, não desamparar, isso aprendemos desde bem pequenos. Desde o primeiro brinquedo, a primeira bolacha na mão. Repartir, compartilhar, cuidar, zelar, apoiar, amar o outro. Mas o tempo tem me ensinado, e talvez da pior forma, que a gente cuide de quem tem que cuidar, sim, mas sem esquecer de cuidar da gente mesmo. Somos nosso maior tesouro, nossa maior força, nosso amor maior. Lição difícil , complicada, porque sempre nos ensinaram ao contrário. Despojar-se. Doar-se. Mas com o tempo a gente vê que precisa estar forte para fazer forte, estar feliz para fazer feliz...amar-se para ser amada...
Perguntaram se eu amo alguém. Amo. Muito. Todos nós amamos alguém. Todos nós amamos "alguéns", amores diferentes, mas amores. Em diferentes épocas, mas amores. De formas diferentes, mas amores. E amar é um verbo que não tem tempo, nem credo. Só existe feito presente e na primeira pessoa: eu amo. Uma vez amado, fica. Faz morada e nos transforma. Não acredita? Pense um pouco, principalmente se você é pai ou mãe...ou até se tem um bichinho de estimação. Nada mudou em sua vida depois que um pequeno ser, esperado ou não, parido ou presenteado, entrou em seu coração? É o tal de amor incondicional - e o próprio nome diz, sem impor condições, sem "se", sem esperar nada, sem nem pensar, amor que se doa, e só. Fácil de entender não é. Mas que se vem, não se tem como segurar: sente-se. Temporal. Tsunami. Entra. Revira. Fica. E como nos modifica. Traz as alegrias e as tristezas  - sim, posto que é um sentimento, não estático - que lhe são inerentes. É da natureza dele, do amor, para nos fazer crescer. Doa a quem doer.
E tem um amor maior, mas preterido, esquecido, guardado a muitas chaves ( sete é pouco, muito pouco) : amar a si mesmo. Não é fácil. E tem lá a sua lógica. E está lá, escrito muitos anos atrás: "amar aos outros como a ti mesmo". Pronto. Dito. Marcado. E  a gente não lê. Ou se lê, não entende. Ou se entende, não aceita, não deixa entrar. Se não me amo, como vou amar alguém? Se não me respeito, se não me conheço, se não me dou valor, como vou respeitar, conhecer, valorizar, respeitar o outro? E como serei amada, valorizada, respeitada? Tenho aprendido a amar a mim mesma, coisa que só o passar dos anos nos traz - se traz. Vem feito tratamento homeopático, conta gotas. Difícil, sim, muito, já que vai contra nossos "princípios", nossas primeiras lições das primeiras cartilhas, contra todas os ditos aprendizados que tivemos na vida.  E garanto, melhor amor não há!  A gente se sente outro, único, dono do próprio nariz - e coração,  e peito, pernas, cabeça e tudo o mais - , além da própria'lma.
Eu estou aprendendo a me amar. E você, ama a quem? "

"Amar a si mesmo é o começo de um romance
que vai durar a vida inteira."
Oscar Wilde (1854-1900)


Amar alguém só pode fazer bem
Não há como fazer mal a ninguém
Mesmo quando existe um outro alguém
Mesmo quando isso não convém
Amar alguém e outro alguém também
É coisa que acontece sem razão
Embora soma, causa e divisão
Amar alguém só pode fazer bem
Amar alguém só pode fazer bem
Amar alguém

Trecho da música "Amar alguém", com letra de Arnaldo Antunes, Dadi e Marisa Monte,
que a canta com muito amor...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz!



 
E é Natal de novo...
Sim, aquela data que você esquece, mas é quando se comemora o nascimento do menino Jesus. Lembra? Manjedoura , estrela guia, três reis magos, José, Maria...esses nomes te dizem algo? Ah, claro, mas é o tal de Papai Noel que entrega presentes. Sim, vem com as renas. Sim, que deixa os  presentes sob a árvore previamente enfeitada - e que fica guardada até o ano que vem, ou vira nada. O bom velhinho, lembra? Aquele que come o lanchinho que a gente deixa, bolo e leite.
Pois é, é Natal. É amanhã. E você já deve até ter esquecido de seu significado enquanto se amontoava no shopping a cata de algo diferente - ou o mesmo, sem nem lembrar. Ou na longa fila do supermercado. Amanhã é dia de correria, faz isso, faz aquilo, sai para comprar o que esqueceu. Arruma tudo, corre para se arrumar, recebe as pessoas, ou é recebido. Ai vem  a ceia, as entregas , os abraços, a noite acaba e volta tudo ao normal outra vez. E você acorda já pensando na festa de ano novo - onde vai ser, o que vai comer, beber, como comemorar, que roupa usar.
Bom se o sentimento dessa data durasse um pouco mais...
Não, Freud não explica. Minha infância teve natais estranhos. Meu pai detestava - detesta. Ao invés de ver suas crianças  - cinco! - ali ansiosas e esperançosas, como pede a data, voltava no tempo e se sentia pobre. E se emburrava, talvez sua forma de chamar a atenção. Minha mãe era o contrário: enfeitava a casa, colocava os quadros (pintados por ela) do Noel nas paredes da casa, aprontava tudo no mais pleno segredo, enquanto eu morria de medo do tal cara que entregava os presentes nem sempre os pedidos, mas valia, tudo vale.  Fiz o mesmo com meu filho até onde deu. Até quando tudo ao redor conspirava contra. Doía vê-lo triste na casa da avó paterna vendo os primos pegarem seus presentes,  ali mesmo na sala, antes da hora. Ele, mesmo sendo o neto mais velho, ganhava no método tradicional. E era sempre imperdível ver sua carinha de alegria logo cedo, madrugando e correndo para verificar, ainda de pijama. Sim, corre mãe, o velhinho tinha vindo entregar. E , pai, como ele me achou, e tão longe de casa? E vó, como ele veio até aqui? E como ele entrou, vô? Olha mãe, ele comeu o bolo que a gente deixou! E isso, essa magia da mobilidade e da explicação rasa do inexistente durou até onde deu, até onde deixaram. E estava nela a festa, a surpresa, a fantasia. Depois  disso, não teve mais graça. Era escolher, comprar, ganhar, comer, beber e acabar. Perdeu a graça. Perdeu o verdadeiro espírito do Natal, que o nome, em sí,  já diz muito, já diz tudo...
Enfim, amanhã é Natal. Não, não estou triste, nem decepcionada, muito pelo contrário. Já desejei tudo de bom para quem encontrei pelo caminho. Esse vai ser o primeiro - espero que não último - que vou realmente pensar no seu valor, no seu significado. Quem sabe canto parabéns e ajudo o menino a apagar sua vela de mais uma data? Quem sabe dessa vez o sentimento dure mais? Estou esperançosa  disso, feito aquela criança que fui, suada e medrosa sob o edredon, a noite inteira a esperar
que o Natal, enfim, amanhecesse...

"Oxalá pudéssemos meter o espírito de Natal em jarros
e abrir um jarro em cada mês do ano".
Harlan Miller

Dorme, menino, dorme, quem sabe o Papai Noel vem?


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Obrigada?


(*) Desculpe! O estilo de vida que você pediu está fora de estoque.
Street art  em Londres, de Banksy, artista famoso por dezenas de grafites provocativos vistos em algumas das principais cidades do planeta.


Final de ano a gente sempre está estressado. Os dias "acabando", como se fosse o anúncio do fim dos tempos, e uma lista interminável de tarefas a serem acabadas, assuntos finalizados, de coisas que se tem que fazer, coisas que se quer fazer, poucas que se quer de verdade. Arrumar a "casa" - seja ela, a casa,  o escritório, nossa casa mesmo, ou nós mesmos - arrumação mais necessária (imprescindível?). Um jogo de sentimentos, muitas vezes contrastantes, opostos até. De um lado amor , carinho, agradecimento, quando lembramos das pessoas  - ou momentos  - que fizeram diferença na nossa vida durante todo o ano. Do outro, por querer agradá-las, ou nos agradar de alguma forma, direta ou não, uma correria desmensurada que faz, muitas vezes, sermos até grosseiros com os que estão por perto, conhecidos ou não. O querer virando ter que. Carinho com uns, doideira com outros. Um empurra empurra de gente, de listas e de sentimentos. E os dias vão passando, as listas terminando meio que na marra, a gente se sentindo por um lado satisfeito e por outro, arrasado.Sempre falta algo, nem que isso seja só uma sensação chata, na boca do estômago. Não, não demos conta nem do recado. Não, não resolvemos as coisa internas, as mágoas, as desavenças. Os medos. Os descontentamentos. Não perdoamos como diz a oração. E  lá se vai mais um ano de um abraço fraco, não verdadeiro. A falta do olhar honesto. Os cumprimentos automáticos. Falta uma verdadeira comemoração natalina. Falta o verdadeiro espírito do Natal. Os presentes serão dados e agradecidos, mas não se saberá se veio do coração ou da educação. A ceia será devorada e até elogiada, mas será só mais uma...o dia depois nos traz os restos.
Eu vou passar o Natal sozinha. Não, não tenham pena. Não por escolha, mas por uma série de fatores juntos, amontoados. Num primeiro momento, entristeci. Achei-me castigada. A gente se acostuma a se deixar levar pela data, correrias, jantares, e-mails, cartões, lembranças, congratulações muitas vezes por vias obrigatórias, nem sempre queridas - e nessa palavra, queridas, também dois sentidos: de querer e de ser querida. Depois até achei que esse seria um presente ideal de Natal para mim mesma. Eu  e eu , necessitada como nunca de um momento só meu, de silêncio, de entendimento sobre mim mesma, de revisão, como deveria ser todo Natal. Um nascer, um renascer. Comemorando depois, só depois, as coisas alcançadas internamente. E para isso terei o Ano Novo, aniversário de meu pai, familia toda reunida. E eu ao lado de meu amor maior, meu filho. E como já temos planos!
Mas, voltando ao Natal, me deu vontade de jogar tudo para o alto. E vou, na medida do possivel. Ligar - sim, usarei o telefone! - para as pessoas mais chegadas, mas não na data..antes, ou quem sabe depois...como um fato normal. Quem sabe mandarei cartas - sim, daquelas escritas, que o carteiro entrega. Ou quem sabe até cartões, mas meus, não da papelaria mais próxima. Ou atravessarei a rua para abraçar a vizinha necessitada - não de pão, nem de panetone, mas de carinho.
É, meu Natal será diferente. Porque não tenho presa. Porque quero levá-lo em meu coração até o próximo Natal. Assim, posso comemorá-lo sempre que eu assim quiser...e se eu quiser.

"O Natal não é uma data... É um estado da mente"
Mary Ellen Chase, educadora americana (1887/1973)


domingo, 18 de dezembro de 2011

Se me fosse dado...


Ah...Domingo...
Dia do sol. Dia de louvar ao Senhor. Dia de descansar. Clarice acha que domingo é um dia oco, Quintana acha que é um dia chato - e dos chatos, como todo dia no céu. Uma mesmice. Tem gente que nem vive o domingo...já acorda lembrando  que amanhã é segunda feira, dia semanal do mal humor, da preguiça garfieldiniana, da lerdeza de ação e de pensamento. Tem gente que aproveita tanto a sexta e/ou o sábado que domingo é dia de ressaca. Dia de culpas, pelo feito ontem e o não feito. Dia de esquecer o mal dito, mal feito, mal amado. Tem quem ame, tem quem odeie, já acordando de mal com ele. Tem quem o despreze, escondendo sua cara - e corpo - numa cama. Ou fixando seus olhos numa tela de TV, quem sabe matando avatares num jogo de videogame. Tem gente que faz nada, na esperança que ele passse sem passar.
Eu? Se dependesse de mim, seria ótimo. Se fosse só meu,  levantaria com o sol para lhe dar bom dia. Teria um belo passeio - pelas ruas, numa praia, quem sabe numa feira de artesanato, vendo coisas e pessoas, ganhando as horas. Quem sabe um café com jornal na padaria da esquina - sem  página policial ou classificados - a não ser que fosse para rir. Ou um sorvete novo, direto na lingua. Levaria meus olhos vivazes e, então, felizes, para um delicioso deixar levar. Levaria minha boca para saborear sabores que gosto, descobrir sabores desconhecidos, quem sabe um novo beijo? Ah, e junto com eles, levaria meu melhor sorriso, esse, especial de domingo, radiante e calmo, com uma pitadinha de curiosidade em despertar o sorriso dos outros. Sorriso que atrai sorriso, seja lá de quem for, da criança no colo da mãe ao grisalho que ficou interessado. Ouvir boa música, na praça ou na sala de casa. Brincar no parque como quem não quer nada, alegre gira-gira. Ler um bom livro, ou pedaços de muitos  e sorrir por dentro por tê-los, enfim, encontrado. Comida? Pouca. Frutas? Todas, de todas as cores. Bebida? Muita. As mais puras, para matar uma possível sede. Por que sede, mesmo, eu teria do dia. De mim. Em  me deixar ser. Em ser como eu sou e gosto -
e nem sempre se tem um dia para isso....Ah, são tantos os desejos -  azuis , amarelos, verdes, quem sabe vermelhos - para um domingo que, feliz,  até brincaria com meu poeta preferido, Mário, o Quintana:

Se me fosse dado um (dia) domingo, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...


sábado, 17 de dezembro de 2011

D'alma




Hoje  a discussão - melhor dizer coversa super amigável -  era sobre acreditar em alma gêmea. Ou não. Era o tema de programa de televisão, mas resolvi lançar a pergunta em rede social: "você acredita em alma gêmea?". E foi longe.
Um tipo de alma gêmea comentado  são pessoas - mais de uma, possivelmente -  com que você tem muita afinidade. Sabe como é? Falar junto  a mesma coisa. Falar com os olhos e o outro entender. Ou até cair na gargalhada, tamanha sincronia. Como se vibrassem na mesma sintonia, falou uma delas. Ligadas no mesmo canal.
Mas, e a tão sonhada alma gêmea, a famosa metade da laranja, o queijo com goiabada, aquela pessoa que  você bate o olho e sente que é "a" pessoa?  Que tudo flui. Que a gente se encaixa. Que olha de igual par igual. Que se gosta do cheiro, da temperatura da pele, do gosto da boca. E depois vai se descobrindo cada coisinha, encaixada no devido lugar. E se ri das descobertas. Se acha  graça das manias. E que a gente não consegue desgrudar.
Mas não seria paixão?  Sim, começa com paixão, essa coisa que nos atrai. Imã. Mas se for verdadeiro, honesto, a gente sente vontade de cuidar, aparar arestas, regar todo dia, alimentar, matar a sede. Um ocupar-se do outro antes mesmo que da gente - e sem pensar . Feito impulso. Movimento natural. Não, não é isolar-se do mundo. Nem achar que somente os dois bastam. Nem que se precise menosprezar um para que o outro se sobressaia, nem anular um para que o outro cresça. Que se cale para que o outro tenha voz. Não. É andar lado a lado  - não na frente,  nem atrás -  cada um mantendo a sua identidade, lembrando que gêmeos é só no nome... É um apoiar o outro,  apostar no outro, fortalecer o outro, vibrar com as conquistas individuais como se fossem suas. E mais ainda se conjuntas. Comemorar cada data, cada dia, posto que isso é um presente. Cuidar. Acalentar. Fazer coisas que nuca se fez antes - nem ao menos passou pela cabeça ( geralmente aquilo que você jura que nunca vai fazer). Ai, sim, se isso fluir de modo leve, sem nem pensar, acredite: você está ao lado de sua alma gêmea. Nem precisa mais apostar na Mega Sena: você ganhou o prêmio acumulado...só não foi sozinho. Ainda bem.
Pode ser hoje, pode ter sido e você deixou escapar, pode ser que seja amanhã, quem sabe em outra vida. Mas se ela existe e você sintonizar, aparece. Cedo, ou um pouco mais tarde. Porque nunca é tarde para amar. Gêmeos, sim, mas não indênticos, e nascidos do mesmo amor.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Presente




Estou pasma, boquiaberta, como quem descobre algo ao mesmo tempo já esperado e inusitado, inexplicável até. Como quem acha uma caixa enterrada, baú lotado de tesouro. Nasci no mesmo dia que minha musa inspiradora, mestre de todos os dias, mestre de todas as palavras, Clarice Lispector. Antes de sabê-lo, contentava-me com a brincadeira de minha mãe. De que nasci no dia do palhaço, aquele sujeito que da boca para fora e para o mundo está sempre alegre, mesmo que meio morto por dentro. Que faz o outro rir, mesmo enquanto chora.
Mas Clarice, ah, Clarice, ela me inspira. Seus contrastes me inspiram. Seus medos encorajados. Seu choro alegre e sua risada triste. A menina que anda de salto e a mulher que corre descalça.
Uma mulher que se entrega e se reserva ao mesmo tempo. Que fala e cala. Que ama e gela. Que nos joga a realidade da vida na cara, nua  ou bem travestida, necessária ou arbitrária. Uma realidade inventada. Como sonho. Como quero.
Clarice. Poeta, jornalista, escritora. Sagitariana. Fêmea e mãe. Fogo e água. Amarga doçura. Real e bem criada, pura fantasia. Crua, feito carne viva, pronta para arder ao menor toque. Ou ao ponto, se achar que deve. Leve como o vento. Ou muralha intransponível, dura, oca como são os seus domingos. Mel e sal. Romântica na noite, cética no dia. Liberta e escrava. Sou. Sempre fui. E posso me esconder nessa ou naquela personagem, nesse ou naquele defeito, um de tantos que , como disse ela, podem me derrubar ao menor descuido. Posso esconder essa ou aquela verdade, atrás do possível impossível. Acho que a melhor definição para Clarice é mulher. Sem tirar nem pôr. E sem nada a esconder. A não ser o que se quer. E para isso eu uso o meu sorriso. E ela o olhar penetrante.
Porque o que a gente não gosta mesmo é de mesmice...

"O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções."
Clarice Lispector

domingo, 4 de dezembro de 2011

Descoberta


"é só mistério, não tem segredo..."(*)

É, não, não tem jeito. O que toda mulher espera  - e quem sabe os homens também, mesmo que do seu jeito - é ter alguém para amar. Está certo, não estou falando de amor pela mãe, pelo pai, irmãos, amigas de infância ( mesmo que conhecidas, já que amizade tem lá seu tempo). Nem amor pelos cães ou gatos, aqueles, de quatro patas. Falo de um gato, sim, mas  um que anda sobre duas patas, ou pernas, aquelas que a gente admira, e muito. Apesar das semelhanças que se gosta, de seu olhar atrevido, seu arranhar de leve, seus gemidos, dependendo da hora ( risos).
Mas, voltando às vacas magras  ou gatos gordos - e ao texto, antes que ele fuja feito gato assustado,  escaldado, a gente nunca parece completa sem "ele". Nos contos ele vem de cavalo branco, beija a princesa que, enfim, desperta para a vida. Ou a tira do castigo do castelo - e de suas longas tranças. Tira também o efeito do veneno  - ou toma o seu, tamanha perda. A gente sempre espera cruzar com ele na próxima esquina, no próximo clique, falando modernamente. No meu caso, em específico, na próxima palavra bem dita. Ou  a gente se distrai do assunto, preeenchendo esse vazio interno com outras tantas coisas boas, mas não ótimas, como comida. Ou livros. Ou estudos. Ou filhos, que sempre nos ocupam muito, mas cada dia menos. Quem sabe carreira. Ou, máximo de meu sonho, preencher esse vazio comigo mesma, meus sonhos e anseios , com meus textos guardados na cabeça e no coração, que são sempre muitos e me deixariam ocupadíssima 48 horas por dia até o final de meus dias.
E ai, quando já me achava aferida a minha ferida, eis que surge a pergunta fatal:
- Em quem você pensa logo ao acordar, antes mesmo de abrir os olhos e saber-se viva?
Odiei a pergunta porque odiei admitir a resposta. E me vejo aqui, dentro de uma canoa frágil, quem sabe furada, em meio a um mar revolto de  problemas, decisões, resoluções, dúvidas, ansiedades de arrancar unhas e...pensando no outro. Absurdo. Estupidez, você diria - e eu também. Estupidez, sim, porque descubro com o tempo - e para isso já vale a pena cada dia a menos de vida, trocados por sabedoria, que eu sou meu principal. Que sou eu que tenho que sobressair. Devo ser egoísta, sim, contra todos os ensinamentos de pai e mãe,  todas as orações feitas antes de dormir e frente a tantos santos e ensinamentos do colégio de freiras e suas saias bordeaux plissadas. Devo ser sábia e trocar minhas tantas culpas de não cuidar deles, os outros, antes de mim e me amar "por primeiro". E por um simples fato: se eu não me amar, ninguém vai. Se eu não me cuidar, não cuidarei de outrem. Se eu não me fortalecer, não serei  porto de descanso para nenhuma embarcação, por menor que seja. Minhas cordas precisam estar fortes, meu pier muito bem estruturado, meu chegar um chegar manso e calmo, em bom canal que os traga até mim. Sem medo, nem deles e nem de mim.
É...precisei de quase cinquenta anos de minha vida bem vivida para aprender a pedir direito. A rezar por mim, interceder por mim junto aos céus. A me ver direito - e  deve ser por isso que a visão vai ficando fraca, posto que se precisa cada vez mais olhar para dentro. A esquecer as coisas que me detonam e fortalecer  - muito - a minha base. E terei passado por todas e tantas tempestades da vida sem arranhões - ou pelo menos poucos reparos, coisa pouca. Só assim estarei pronta para quando o "grande barco" quiser atracar...

"Vem, cara, me repara
Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular
Em alguns instantes
Sou pequenina e também gigante
Vem, cara, se declara
O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder
Olha minha cara
É só mistério, não tem segredo
Vem cá, não tenha medo
A água é potável
Daqui você pode beber
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular"
Parte da música Infinito Particular, "letrada" e cantada por Marisa Monte (*)