segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Presente




Estou pasma, boquiaberta, como quem descobre algo ao mesmo tempo já esperado e inusitado, inexplicável até. Como quem acha uma caixa enterrada, baú lotado de tesouro. Nasci no mesmo dia que minha musa inspiradora, mestre de todos os dias, mestre de todas as palavras, Clarice Lispector. Antes de sabê-lo, contentava-me com a brincadeira de minha mãe. De que nasci no dia do palhaço, aquele sujeito que da boca para fora e para o mundo está sempre alegre, mesmo que meio morto por dentro. Que faz o outro rir, mesmo enquanto chora.
Mas Clarice, ah, Clarice, ela me inspira. Seus contrastes me inspiram. Seus medos encorajados. Seu choro alegre e sua risada triste. A menina que anda de salto e a mulher que corre descalça.
Uma mulher que se entrega e se reserva ao mesmo tempo. Que fala e cala. Que ama e gela. Que nos joga a realidade da vida na cara, nua  ou bem travestida, necessária ou arbitrária. Uma realidade inventada. Como sonho. Como quero.
Clarice. Poeta, jornalista, escritora. Sagitariana. Fêmea e mãe. Fogo e água. Amarga doçura. Real e bem criada, pura fantasia. Crua, feito carne viva, pronta para arder ao menor toque. Ou ao ponto, se achar que deve. Leve como o vento. Ou muralha intransponível, dura, oca como são os seus domingos. Mel e sal. Romântica na noite, cética no dia. Liberta e escrava. Sou. Sempre fui. E posso me esconder nessa ou naquela personagem, nesse ou naquele defeito, um de tantos que , como disse ela, podem me derrubar ao menor descuido. Posso esconder essa ou aquela verdade, atrás do possível impossível. Acho que a melhor definição para Clarice é mulher. Sem tirar nem pôr. E sem nada a esconder. A não ser o que se quer. E para isso eu uso o meu sorriso. E ela o olhar penetrante.
Porque o que a gente não gosta mesmo é de mesmice...

"O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções."
Clarice Lispector

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