sábado, 29 de dezembro de 2012

Nova





É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade


E eis que chega ao fim mais um ano...E nesse silêncio matinal, onde tão somente escuto a chuva e os passarinhos ( esses sempre de bom humor!), acordei já "pensando na vida". E na cura que esse pensar me traz.
Ano bom. O ano passado foi de catarse. Sim, foi essa palavra que me veio hoje, antes mesmo de acordar por inteiro. Matei minha curiosidade e fui atrás - não em forma de mergulho, como deveria, mas nessa correira de  mudanças pela qual passo, já me serve em momento. Catarse vem do grego ,"kátharsis", muito usada no drama, na medicina e , enfim, na psicanálise. Significa "purificação", "evacuação" ou "purgação". E não é coisa nova, invenção do mundo de hoje.  Para Aristóteles, a catarse é uma "purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama". Conforme ele, passar da "felicidade" para a "infelicidade", assim, sem aviso prévio. Aqui paro e não sei se é essa a minha palavra: nunca soube ao certo o que é felicidade. Nem ao menos saberia dizer se o que tive - ou tinha - era a tal. Gosto mais da "definição" sob a ótica da psicologia: " catarse é o experimentar da liberdade em relação a alguma situação opressora, tanto as psicológicas quanto as quotidianas, através de uma resolução que se apresente de forma eficaz o suficiente para que tal ocorra.". Ponto.
Não sei se é essa a palavra, e nem sei se deveria a ter. Quero para mim o sentimento. Estou renascendo. Das cinzas, você diria. Não, não cheguei a ser queimada em praça pública. Só resolvi pegar outro rumo, sair do leito de rio de me deixar levar para onde eu não queria. Se foi bom? Bom, digamos que o a viagem não foi lá muito confortável, apesar de ter tido lindas paisagens. E até porque descobri, ainda no caminho, que, não, não era esse o tal que eu queria pegar para mim. Não era o leito em si: eu queria era o mar. E descobri que  existem leitos diferentes , caminhos desiguais para se chegar ao mesmo mar. E que chegar ao mar ainda não é o fim da linha: há de se adaptar,  se misturar, virar água salobra. Ou descobrir, simplesmente, que se pode conviver com o mar sem deixar  de ser rio. Ser o que se quer ser, sem esquecer de  nossa essência. Fazer parte do grande mar, conviver com o mar, viver o mar em sua plenitude, sim, mas sem deixar de manter em nós as gotas do que somos. 
Tomo mais um gole do meu café, já morno, e repenso. Não comecei hoje a me despedir do que não queria para mim. Levei um ano todo. na verdade, muitos - como quem guarda tralhas desnecessárias só por pura preguiça ( ou medo?) de rever-se. Vejo que minha "catarse" demorou mais do que o necessário. Mas teve dramas tão leves se comparados ao que alcancei em termos de me conhecer que até acho graça. Meu rio vem mais cheio, mais pleno, mais cheio de vida e , apesar de  tudo, mais leve. Deve ser assim que se deve chegar ao mar: sem enfrentamento, puro encontrar...
E eis que estou eu aqui, quase em frente da porta de um novo ano que se apresenta realmente novo....novo trabalho, nova cidade, nova casa, novo jeito de viver...novo amor - por mim e pelo presente. "Empacotando " minha vida depois de tantos e tantos anos. Ou deveria falar  "desempacotando minha vida depois de tantos e tantos anos?" . Lembro que nos tempos de estudante fiz isso tantas e tantas vezes e nem sentia. Tinha pouco. Era pouco. Hoje, minha bagagem é bem maior, por fora e por dentro. Sou mais. Hoje, minha gavetas são muitas, as dos armários e a da vida. As lembranças, tantas. Esvaziá-las - com carinho, sim, mas sem medo - limpá-las e pôr de volta tão somente o que realmente interessa, ah,  não tem preço. A cada pensamento que fica de fora, melhoro por dentro. A cada pensamento que limpo e guardo de volta, vai mais carinho. Nas  gavetas de fora, só o que me cabe. Nas internas...também! 


Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo 
até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, 
se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? 
passa telegramas?) 


Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 



Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade



quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Asseada



Muitos dias sem escrever. E como sei que isso faz diferença. Escrever , para mim, é conhecer-me mais de perto, como quem se olha em espelho de aumento. Muitas vezes assusta, posto que nem sempre queremos nos ver. Mas com o tempo  a gente aprende que até os inimigos a gente deve conhecer bem, questão de estratégia. E como eu mesma acho que os nossos piores inimigos, os mais difíceis de combater, aqueles vistos como indestrutíveis, horrendos, moram dentro de nós mesmos, melhor entrar em campo e combater. Ou pelo menos perder a batalha da vez, mas não a guerra. 
Mas voltando ao ponto que me trouxe aqui. Melhor dizer os pontos. O ponto final da coisa, enfim, acabada  - se é que isso existe. Parece que sempre temos pendências, mesmo que exageradas, meso que cavadas por nós mesmos, como os "ex" - ex namorados, ex-maridos, ex-patrões. Acho mesmo que uma pessoa que entra em nossa vida, por bem ou por mal, vira ex algo. Como se vivêssemos em eterno ponto e vírgula, enchendo nossas gavetas da memória com fatos bem ou mal escondidos - e que vem à tona quando menos se espera, menos se quer. 
Ponto final. O script da vida está lá. A imagem mais ou menos nítida, tanto faz. The end. A gente dá adeus - ou a Deus, ela passa e vai. Fica na gaveta da memória, daquelas que a gente abre, mexe, recorda e fecha, sem dó. Não é como o ponto e virgula, onde a gente até tenta mudar de assunto, de visão, mas ele está lá, para onde nosso olhar interno volta a qualquer hora, sem nem ser chamado, sem nem titubear. A mente mente, faz de conta que se despede, mas só faz de conta, brinca de se esconder. A gaveta se escancara ao menor aviso, a gente revê  - e revive -  tudo. Uma virgula que faz a diferença. Uma virgula que faz do ponto  - e de nós - um bobo. Não, não é como os três pontinhos...esses, sim, levam a vida longe...um recordar sem fim. Mas bom, feito sonhos que se gosta de sonhar...
Lembro de um texto que escrevi, sobre as gavetas internas. Uma, a das boas lembranças, gosto muito de retirar fato por fato, relembrar com carinho cada uma delas. Gosto de me imaginar limpando-a com carinho, forrando -a com papel florido e perfumado, puro carinho. E guardar tudo de novo, tirando alguma que já não me cabe mais, Outras, nem tão boas, mas da gaveta do passado remoto - ou até das coisas sem muito valor em mim, revejo e jogo fora o que dá para jogar. Passou, feito chuva de verão, ou vento forte, derrubando qualquer coisa, mas não minha estrutura, nem meu coração. E tem lá uma gaveta donde quero me livrar de tudo, tento, remexo, e só me dói. E ao invés de me livrar, teimo e devolvo, de qualquer jeito, sem nem muito olhar. Fecho a gaveta, que volta  e meia, bem sei, vou remexer para me incomodar. Devem ser aqui que ficam as memórias em ponto e virgula. Como se eu  quisesse por um ponto final, mas meu coração resolve escorregar a mão e juntar um talvez, sem nem me peguntar. Lembro, então, de um exercício que fiz, de imaginar tais cenas descoloridas, sem graça, fora do ar e , enfim, desligar.
Ponto final. Mostra algo resolvido, por bem ou por mal. Mas resolvido. Certo. E ponto. Fim. E como é bom esvaziar gavetas, limpar -se por dentro, jogar fora entulhos, escombros, incertezas, e enchê-las de coisas boas, memórias delicadas, imagens coloridas, coisas que nos fazem bem...bom demais! 
Ou , quem sabe, lavar-se por dentro, como diz Caio Abreu:

"Ah, se pudesse abrir a cabeçatirar tudo para fora
arrumar direitinho como quem arruma uma gaveta
Ou tomar um banho de chuveiro por dentro." 

sábado, 8 de dezembro de 2012

Limpa




Falam muito em inferno astral, aqueles dias com cara de TPM que se tem antes do aniversário. Eu definiria como "Tantos Pensamentos Meus" ou "DRI", "Discutindo a Relação Internamente", "eu, comigo mesma". Estou. É o tipico momento que falo de conversas internas. Calada por fora, muito falante por dentro. Como se eu reunisse todas as Joyces que sou e que tenho dentro de mim numa Assembleia Geral de Final de Ano. Não, não me refiro à sua, nem a  de outrem, mas à minha, posto que nosso verdadeiro Ano Novo começa no nosso aniversário. E o meu não tarda nada a chegar. E dele não tenho medo. É só um número.Tenho medo é de me continuar. Os famosos " mesmos caminhos". 
Estou com aquele cansaço  emocional que nos ronda lá pelo dia 31 de dezembro. Um dia que a gente corre feito doido para deixar tudo pronto para a "grande virada", imposta pelo mundo, mas queria mesmo era se calar, olhar para trás, ver o que fez, o que deixou de fazer e, pior, ver tudo o que tinha se prometido no ano anterior e que não deu conta. Ou nem lembrou. Dia 31 é dia de promessas vãs., como quem se declara depois do amor, ainda deitado na cama quente. Pega-se a lista de pretensões para o Ano Novo e vê-se que não há muito o que riscar. Ou nem se entende o porque de cada um dos itens tidos como importantes  364 dias antes. A lista está ali, repetindo coisas de anos anteriores, e mais uma vez não riscamos muita coisa. Nosso check-list nos dá a real situação: fomos repetitivos. Novos rios sobre mesmo leito. Batemos na mesma tecla das coisas, já rota. Quem sabe um dia ela quebra.
Você deve estar pensando agora: "mas ela parece, sempre, tão feliz, tão para cima". E ai está o ponto chave: tentar ser. Bem diferente de fazer o outro mais feliz, tarefa muito mais fácil. E pautamos, muitas vezes, nossa felicidade na felicidade do outro. Se o mundo ao redor está mais feliz, eu estarei também. Funciona, sim, nem que seja por um breve tempo. Mas eu falo da verdadeira felicidade que é a de ser feliz consigo mesmo. Ser feliz por dentro. Ser e não só fazer, verbos bem diferentes. Outro dia já fiz um texto sobre isso, sobre " o que faz você feliz". E hoje me pergunto " o que ME faz feliz". O que quero para mim. E tenho medo da resposta.
Um bom começo para se redescobrir é fazer uma faxina interna. Tirar as coisas das gavetas superlotadas dos dias, onde deixamos nossos pensamentos mais íntimos muito bem guardados, e ver um por um, com cuidado. Separar o que serve para guardá-lo de novo. E o que não nos serve mais, ah, descartar sem dó, nem piedade. Sem nem olhar para trás. Mas um descarte com atenção, sem desprezo porque se estavam ali era por algum motivo. Alguma razão. Porque nos pertenceram certa vez e tiveram lá a sua importância. Delete, sim, mas com respeito, tirando disso belo aprendizado. Senão,  de nada serviu, de nada servirá. E ao que nos tem, ainda, serventia, tratemos de arrumar delicadamente, na gaveta agora vazia e perfumada. E cuidar para que não mofem por falta de uso ou pelas traças de se deixar levar.

Hoje a conversa é por dentro. Limpo minhas gavetas todas para deixar espaço para as coisas novas, que e façam realmente feliz comigo mesma. Calo-me por fora para me ouvir por dentro, dialogar, por os pontos nos is,  fazer as pazes. Quem sabe me escuto e mudo, pelo menos um pouco, 
antes de fazer novas promessas para o meu Ano Novo?

Ser feliz
O melhor lugar é ser feliz
O melhor é ser feliz
Mas
Onde estou
Não importa tanto aonde vou
O melhor é ter amor

Caetano Veloso




quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Um brinde!



Faz mais de mês que não me escrevo, que não ponho nesse mundo, que é o "papel", o meu mundo interno, inteiro. Ando calada. Mas só por fora. Dentro, sou um poço sem fundo de pensamentos incessantes  e  desconexos,uma micelânia de dar dó,  do tipo "tudojuntomisturado". Não, não me calo para me ouvir, posto que já ando farta de mim, mas porque as joyces internas travam tão enfadonha briga que opto por  me afastar, na ilusão de que se calem e me deixem, enfim, respirar. 
Mas hoje, em meio a um almoço cotidiano feito às pressas, onde juntei - coisa rara nesses últimos dias, dadas as correrias insanas da época - meu filho, eu e nossa " nova família - veio o texto, inteirinho. Tudo normal, corridinho, até a ideia de levantar os copos e brindar, como fazemos sempre que nos reunimos. 
Foi quando me dei conta e minha joyce interior se calou para refletir...
Brindar. Esperamos datas especias para brindar, para usar os melhores vestidos, o perfume mais caro, as joias guardadas nas caixas de ontem. Deixamos para o amanhã para viver as coisas boas, nem sem saber se haverá amanhã. Isso me ensinou o Amor, que sempre brinda quando está comigo - até com a caneca de café. Não porque esteja acostumado, mas porque  a vida, segundo ele, tem dado tantos presentes que sempre parece dia especial. E é. A vida, que já lhe bateu tanto, tem dado presentes, quem sabe em embrulhinhos tão simples que a gente nem se dá conta. Nem agradece. Nem valoriza. Não vê, não sente.
Passei aqui, corridinho, e calando minha voz interior para levantar um brinde. A que? À Vida! Que veio hoje me visitar.Que tem vindo me visitar outra vez, quando eu já a pensava seca. Que me trouxe um filho que deveria ser comemorado todos os dias - e o faço, em pleno beijo ao acordar, no "boa noite" antes de dormir. Que trouxe um amor que me faz pensar que , sim, ela é boa. Que me trouxe amigos, muitos. Uns que abraço ao atravessar a rua, coisa  rara em mim ( e que prometo fazer mais). Outros tantos que se dizem por ai serem virtuais , mas que moram em mim. Habitam meu dia a dia, alegram minhas horas e me fazem pensar que, sim!,  vale  muito a pena brindar! Todo dia, toda hora, por dentro e por fora. 
Brindar estar viva. Brindar ser mais eu outra vez. Brindar esse caminho longo, mas muito bem vivido,
 de me ser por inteira. 
Certo está Oscar Wilde e seu pensamento que fez ninho em mim :

"Viver é a coisa mais rara do mundo. 
A maioria das pessoas apenas existe"

Eu vivo. E brindo por isso!
Tim , tim!

domingo, 4 de novembro de 2012

Cheia


Rita Lee tem razão - e com ela todos os homens da face da terra: as mulheres, ou melhor dizer, nós mulheres, somos, mesmo, seres estranhos. Esquisitos, diz a letra da música. Somos, sim, mas não pelo fato de sangrar apenas ( senão as "estranices" um dia terminariam..), nem pelas alterações mensais que são piadas o tempo todo. 
O maior problema de uma mulher é que ela se acha perfeita. Ou, pior dizendo: que tudo tem que ser ou estar perfeito. Tudo que ela toca, tudo que ela faz, tudo que ela fala. Tudo que ela sente, tudo que ela ama. Seu corpo tem que ser perfeito, até seu hálito. Quer exalar perfume de flor, ao mesmo tempo que quer fazer o melhor almoço do dia. Quer parecer sempre linda, mesmo que acabe de limpar a casa. Quem não faz, pensa assim e por pensar - se  - ou saber-se -  imperfeita, nem tenta. Quer ser uma intelectual daquelas, mesmo que discretamente, mas sem deixar de ser leve, fácil, entregue. Intelectualmente burra, sabe como é? Só para agradar.Se não for, se não acontecer, ela é imperfeita, duas letrinhas sutis a  mais e tudo muda.

Eu me sinto assim, e isso é  de um peso enorme. Seria bom me pesar logo ao levantar e ao final do dia, antes de tirar o acúmulo das culpas do dia após o jantar. Ou antes de deitar - e ali mais uma culpa por não estar disposta. Ou ainda caraminholando uma porcaria qualquer que o amado falou sem nem pensar ( eles não pensam, ponha isso na sua cabeça!) ainda no raiar do sol. Ou porque deitou sem dizer boa noite. Ou o filho que não vai bem na escola, ou no amor. Pela falta de disposição até de encontrar as amigas, por puro cansaço. Ou visitar os pais e a tia.  Ou fazer uma comida diferente. Ou ter paciência para escutar uma confidência. Ou, quem sabe, fazer a unha? Ou ser como se quer ser, nem que seja por um minuto? Porque não somos mais leves? Porque não somos mais livres? Porque esse jeito pesado de pensar implantado em nossa pele desde cedo? Porque nossa felicidade é tão dependente? Porque não podemos ser mais nós mesmas para variar? Porque tantos porquês?
E assim a vida segue. A gente fazendo tempestade em gota d'água, tsunami ao mexer do açúcar no copo de água doce para acalmar. Tentando entender o que não deu certo (  e possivelmente se culpando disso), porque chove ( seremos deusas?), porque o outro está quieto ou até sorrindo. Porque o filho sofre, porque a mãe sente saudades, porque o pai cobra presença, porque  a casa não está tão limpa, porque o amor pede licença para descansar. Porque faltou leite. Porquê? Porque todo mundo tem sua vida. Menos nós , mulheres, que nos colocamos no lugar de Deus para que os outros vivam bem...esquecendo até nós... porque?
Sem nem saber que seríamos bem mais amadas não por fazermos coisas, mas se nos amássemos mais...

Vem, Ana vem
Mochilinha de porquês

Que eu não sei responder

Vem, tanta gente vem

Mochilinha de porquês
Que eu não sei responder
Se eu tivesse a língua doce
Te cobria de poesia

Ai eu ressuscitaria
Aquele sol que nos queimou um dia

Mochilinha de porquês, Ceumar

sábado, 20 de outubro de 2012

Chave



Cada vez que eu desanimo
Eu envelheço um pouco
Às vezes tenho dez anos e viajo feito louco
Planetas, cometas, satélites
Nada me segura
Tenho o mundo a meus pés
E nas mãos só ternura

Ceumar, Planeta Coração



O tema de hoje me veio depois da caminhada matinal, sol leve na cabeça e na alma: equilíbrio.
Ontem foi um dia difícil. Não, nada aconteceu de ruim, nem ao menso de diferente. Não por fora, pelo menos. Algo dentro de mim veio a cavalo, metendo patas até onde não devia. E por saber-me "mansa", com o freio puxado quando se trata de criticar os outros ( e bem ao contrário para me autocriticar , sentia arrepios ao segurar dentro de mim tanto pensamento grotesco, punidor de outros. Verdades, eu sei, mas de que adianta cutucar feridas alheias se ferirão a mim?
Antes de dormir, pedi ajuda. Não para compreender os fatos, mas os porquês. E pela manhã, logo ao despertar - o espirito, porque o corpo demorou, talvez  ainda pesado com o desconforto passado - a palavra que me veio foi essa. Equilíbrio. Nem chão, nem céu. Nem muito doce, nem azeda. Nem muita gente, nem solidão. Nem falatório, nem silêncio. Nem muito o outro  e nada eu. Nem muito eu, e sozinha. Como saber dosar o molho no macarrão - mas sabendo que cada um gosta de um jeito. E conviver é bem isso: dosar o molho e a porção de quem se serve. Conviver -  viver com - , é saber entender que não estamos sozinhos. E se estivéssemos, ah, seria muito mais fácil, mas chato demais. Estar sozinho é bom, muitas vezes, até para se repensar as coisas, rever-se sem dó mas com muita piedade sobre nós mesmos. Mas ser sozinho é solidão. É não ser. Porque quem está na chuva, é para se molhar  se esbaldar, brincar nas poças d'agua que aparecem no caminho, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, tomaremos um bom banho quente, quem sabe uma sopa para aquecer a alma., revigorar por dentro e por fora.
Tenhamos, pois, equilíbrio. Saber dosar entre a visão integral das coisas e a visão exagerada das coisas. Focar, mas sem deixar de ver  - e sentir! -  o que nos cerca. Equilíbrio para ser como se quer ser, mas sem ferir o outro. Equilíbrio para saber dosar entre a critica que afunda e a que faz crescer. 
Equilíbrio. Deve ser o que procuro, a chave certa de  tesouros escondidos  numa arca enterrada na areia da praia. Melhorar o mundo a minha volta, sim, mas começando por mim. Que eu tenha olhos de ternura e palavras de compaixão. Até comigo mesma...


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Dúvida...



O que faz você feliz?
Essa frase de uma propaganda sei lá do que volta  e meia passeia em minha mente e salta para fora. Ou para dentro, já que os pensamentos são assim mesmo: vem! Sem a menor cerimônia, sem pedir licença, mal educadas que são. Não batem à porta pedindo um pouquinho de qualquer coisa, açúcar para adoçar a vida.
Mas voltando à frase, ou dúvida, antes que me perca no caminho das ideias...
O que faz você feliz?
A mim, pouca coisa. Um abraço bem apertado me afaga, descansa a mente. Um olhar profundo e bem intencionado. Um café com leite bem quente e adocicado. Um sonho coberto de açúcar e canela. Um filme que me prende, uma música que me solta. Um livro que me interroga, uma visão que me atente. O beijo do amado, nem precisa ser muito "caliente". Sai do ar. Andar em frente. Cantarolar de passarinhos chamando a noite. Vento fresco de repente. Mensagenzinha " eu te amo". E-mail " te adoro". Comida bem feita. Sol de final de tarde, amarelo por favor. Risada da boa, gargalhada sem controle. Rede de deitar, peixe que cai na rede. Render-me.
O que faz você feliz?
Poema sem rima, mas inteligente. Conversar com gente que me entende. Passear de mão dadas. Beijo não esperado, namoro fora de hora. Chá de qualquer hora  -  nem precisa ser das cinco. Mais um pouco de risada. Soneca de sábado a tarde. Lençol limpinho, cheiro de criança. Edredom macio escondendo namoro.
Veja que o que me faz feliz é um balaio de gato. Ou de cão aninhado. Ou de filhote qualquer, desde que peludo. Pouco de tudo e muito de nada. Banho de mar quando a água é quente, andar á beira mar quando a água é morna. Banho gelado depois de muito sol. Colo de mãe. Colo de namorado. Dormir sem esperar. Acordar e te ver. Saber amando e ser.
O que faz você feliz?
Saber-me assim...simples...

"Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade."
Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Dia santo


Amanhã é Dia das Crianças. E da santa padroeira. 
Criança. Ainda habita em mim a menina que dançava com seus pés sobre os pés do pai. Que falava que a mãe tinha pintado o olho, cada vez - e foram muitas! - que elogiavam a cor de seus olhos. Que se orgulhava de ter "puxado" a mãe. Que achava o pai enorme e forte, e a mãe elegantérrima. Ainda mora em mim a menina arquiteta que acompanhava a curiosidade do pai, sempre critico, a visitar casas em construção. E que desenhava plantas de casas na areia da praia e lá brincava. E que depois montou outra debaixo da escada e lá ficou, juntando à casinha bem decorada os engenhos de conviver.
Ainda sou a menina que demorou para aprender a andar de bicicleta. E caiu da pontezinha bem dentro do rio onde devia só se banhar. Mas que começou cedo a escrever poemas, antes mesmo do beabá. E falando em beabá, sou a menina que chorava para ir à escola porque a professora era "burra", não sabia que be mais a dava ba...de batata, de bacia, de bacana...mas que depois  ganhava cartões escrito em dourado: "Honra ao Mérito". Que via nas revistas femininas um mundo, mas também um mundo no quintal de casa. Que pendurava rincos de princesa, a flor, na própria orelha não furada, só para se  sentir como tal, quem sabe. Que amava os altos altos de minha mãe e nem imaginava que eles povoariam seu armário de adulta. Menina que demorou para abandonar as bonecas e brincar de verdade.Talvez porque já soubesse desde então que essa menina nunca a deixaria para trás. E que demorou para entender o que era o  tum tum tum diferente do coração ao ver de perto o menino que veio morar na casa da frente.
Criança é isso: ver uma grande aventura logo depois da esquina da casa. Ver coisa boa até onde não tem. Fantasiar onde não há. Fazer do dia a dia uma grande viagem. Mas saber que o porto seguro estará lá na volta. 
Amanhã é Dia das Crianças. E de Nossa Senhora, a que apareceu, trazendo esperança. Desejo a todos, meninos e meninas, que seja um dia "santo". Onde não haja maldade. Nem desarmonia. Muito menos desamor. Um dia de paz, de alegria, de sossego de coração, de reforço da alma, de sorriso franco , de palavras doces, e doce toque de mão, como quem convida para brincar...
Amanhã desejo que você não esqueça de seu olhar mais curioso pela vida. Desejo, principalmente  que você deseje ser feliz, assim, sem motivo, como quem começa a rir do nada. Ser feliz só por amanhã. Por um dia, que seja. Por um momento, que venha.  Enquanto toca uma música, enquanto canta um pássaro, enquanto pousa no seu ombro uma joaninha...O que já é um bom começo...assim, sem motivo...

"Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade". 
Carlos Drummond de Andrade







quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Declaração



"Tão bom morrer de amor e continuar vivendo..."
Mário Quintana

Acordo mais cedo e olho o homem que está ao meu lado. Como fica com cara de menino enquanto dorme, penso, sorrisinho na cara feliz, ainda resquício de mais um final de semana  do tipo "bommuitobom". E me pego pensando o que muita mulher já parou para pensar um dia - e muitas vezes ainda vai pensar nisso, nas horas boas , em que se agradece silenciosamente o presente da vida, e nas outras tantas e tantas horas em que a gente mais queria que eles sumissem de nossas vistas e levassem embora o que sentimos por eles: 
o que vi nele?
Não se parece com o "príncipe" que sonhei um dia, ainda menina, mas me fez ver a real importância disso - dos sonhos encantados,  quase nenhuma!  É meio bruto nos gestos todos, e pisa o chão com uma firmeza tamanha que reflete a seriedade com que leva a vida - mas sem perder o bom e sempre necessário humor. Me abraça como quem cuida, me dá a mão como quem quer de verdade - não por fazer, o que me dá firmeza de pensar. Não fala romântico como se sonha, mas com uma doçura que me desmonta. E firme como espero - e preciso -  usando de palavras tanto para me acalmar, quanto para me fazer  ver a realidade que nos cerca, o mundo como ele é. E tem uma ternura que me tira do limbo com um único olhar, um olhar fundo de mar que me dá colo, abrigo, me dá a mão  e me puxa de um jeito que me sinto viva de novo.
E o que é melhor: gosta de mim como sou. Ri de meu lado menina, admira meu lado mulher. Elogia quando deve ser, e aconselha  - e puxa minha orelha! -  quando preciso de um alerta. Mas, depois afaga, mão na minha nuca, beijo na minha testa, carinho no meu rosto, olhar profundo dizendo: "está tudo bem". Adora minha gargalhada espontaneamente exagerada - tanto, que faz que ela venha a tona com toda força sempre que é hora, sempre que dá. E sempre dá.
Quando acorda, lembro dos tantos porquês, já no bom dia dito com a alma, com cara de que me gosta de me ver assim cedo, ainda desgrenhada, ninho de pássaros dos sonhos entre meus cachos. Adoro esse homem que me gosta como sou e como estou. Que me deixa ser por inteira. Mais que isso: que me quer por inteiro, sem tirar nem por, mesmo nos dias em que o sol de dentro teima em não vir. Então, me enamoro ainda mais dele ali no silêncio da manhã, namoro ao som de passarinhos lá fora e dentro de mim... antes que o "trovão" de querer viver acorde e a vida chame de volta para mais um capitulo dessa deliciosa aventura que é viver ao lado dele!
Que seja, então!


sábado, 29 de setembro de 2012

Banho




Minha essência é mudar.
Não me basta ser rio
se posso ser mar.

Fábio Rocha
Sou uma apaixonada por poemas. E deve ser "defeito de fábrica". Minha mãe, nos dia sem que se permitia ser invadida pelo sol da vida,  cantarolava canções  que ficaram, até hoje, passeando dentro de mim ( e ressuscitam, volta  e meia, sem nem avisar). E poemas. Textos. Sabia muitos, escrevia poucos, declamava em festas. E era nesses momentos que eu a via como lua cheia, plena luz. Eu entrei no campo das palavras que se combinavam ainda nova. Meus primeiros poemas, então passados a limpo em caderninho  pequeno que tenho até hoje, mostravam um certo trejeito. Não sei se para escrever, mas , pelo menos, para me apaixonar por palavras. 
Palavras me curam. Elevam minha'lma. Escrevo para me entender, aceitar, conviver com meus medos e minha as vitórias, meus erros e acertos. E, parte interessante, escrevo mais - pelo menos assim era até agora - quando estou triste. Ou introspectiva, porque estar triste não faz muito parte de meu calendário das horas, menina que  sou. O que me dá um certo alívio de não estar escrevendo a contento -  se não meu, dos que me leem. Estou melhor, pelo menos comigo. Porque o mundo recebia de mim meu eu passado e limpo, ou escamoteado, nem sempre o verdadeiro, as máscaras que usamos para parecermos "normais". E hoje, mais perto da plenitude de me ser, sinto que me entrego verdadeira ao dia. E às pessoas que, por ventura, caminharem ao meu lado. 
Mas, voltando ao poema Marítimo, sinto em mim essa gana de ser mais, de ser mar.  Já fui mar, ou achava que era, até um tsunami vir sem avisar - ou pelo menos que eu tenha percebido - , e virei um riozinho fraco, resquício do que eu pensava ser, arrasto de horas, seguindo o caminho ditado pelo mundo. E quantas  e quantas vezes parei de seguir meu rumo, talvez até por não sabê-lo. Ou, mais provável, por saber-me seguindo um leito que não era meu. E quantas e quantas vezes parei de correr, virando água insalubre, sem vida. E quantas e quantas vezes me deixei secar.
Não sei qual foi o divisor de águas, e nem sei se isso importa agora, mas aqui estou, mar outra vez. Se não um mar completo, límpido e profundo como quero ser, certa estou de que esse é o caminho certo. Que esse leito em que me encontro, depois da tanta espera, de tanto caminho truncado, vai me levar até ele - como são feitos os verdadeiros caminhos dos rios. Certa estou, desta vez, ao olhar para os olhos  de mar do amor e ver nele a certeza de minha escolha, do leito certo. De que esse é a minha sina, destino, sorte, seja lá o que for, escrito nas estrelas ou vindo de outras vidas. E, chegando lá, plena. A menina que escreveu sobre o mar ainda aos seis anos de idade, letra e pessoa a se firmarem pelo mundo, ainda vive em mim. Ela me sustenta, me põe no caminho leve das coisas,  me pega pela mão para me fazer ver as coisas  boas da vida,  o lado bom das coisas, a beleza que há em tudo que o mundo tem para me dar, belo mergulho. Eu?  Nado com ela ao sabor da maré, como quem brinca, sabendo quem cedo ou cedo, aporto no meu lugar...

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Leve



Tantos dias sem "me" escrever, sem me curar. E sabe porque? Porque ando tão bem "sarada" - como se dizia quando era pequena ( sarar de uma doença ), com um sorriso tão largo na cara, que o máximo que pode me dar é rasgar o rosto por puro excesso de alegria. 
Mas enquanto tomava um tão sonhado banho de mar nesse final de semana, e olhando aquele marzão de Deus, pensei que o amor, quando maduro, mais parece belo banho de mar. Daqueles em que a água está morna e calma, com uma marolinha só para o embalar. Onde o tom é de um verde apaixonante, feito os olhos do amor. Onde existe profundidade, sim, muita,  mas a limpidez deixa ver o fundo de areias brancas, estrelas do mar. Um banho sob o sol dourado de final de tarde de verão, o céu mais azul que o anil.  Onde a gente se deixa levar pela maré, mas sem deixar de ficar atenta a qualquer mudança do vento, a qualquer alteração de correnteza. Pois nunca se sossega no amar. Não por medo de perdê-lo, pois sou das que vive tudo o que vem, e com coragem, mas porque pede rega diária, delicados cuidados, um ver o mar antes de adentrar - e mesmo assim, passível de mudanças. 
Acho mesmo que assim deve ser o amor - pelo menos que eu queira. Um amor sereno, sem os rompantes da paixão cega. Um amor que me sossegue, que me seja colo. Que pegue fogo só na hora certa. Que discuta, sim, pois somos humanos e diferentes, mas que termine em bela conversa,em entendimento, em crescimento. E que seja bom para os dois: que eu apoie e seja apoiada, que eu anime e seja animada,  que eu conforte e seja confortada, que eu cuide e seja. Que na hora da batalha, um ajude o outro, se não em palavras, em gestos. E que na hora do descanso, um seja rede de deitar do outro, coisa que recebe e abraça. Que de dia seja bom dia e destreza, e de noite colo e afago. Porque amar tem que ser banho de mar, sossego de marola, e não tempestade em alto mar. Mas se ela vier, que se encare, que não se fuga e que se saiba lidar...que se pense junto, se reme  junto até os pés, enfim, tocarem a areia da praia outra vez, sãos e salvos. 
Eu...? eu quero mais é que o mar do amor me leve, leve...

Já disse certa vez o poeta Carlos Drummond de Andrade:
O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. 
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. 
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

E eu digo: o amor é grande e cabe num breve banho de mar...

domingo, 2 de setembro de 2012

Tranquila



Muito se lê sobre o amor, por vezes em tom poético, por vezes em tom de dor, visto como poético pelo poetas, mas nada poético diante da vida. Amores que se sofre por eles e se acha normal. Amores platonicamente sofridos. Ou nada platônicos, os piores , onde a gente se acha  - ou se faz de nós isso, sem nem pensar - a última das pessoas e o outro, o dito amado, o centro das atenções – e da visão, e da paixão e da própria vida. Pois bem desse segundo, que já senti, quero distância.
Hoje beirando mais a casa dos 50 ( pelo menos é o que diz minha carteira de identidade e não meu olhar de  curiosa frente a vida e nem minha risada de menina travessa) do que outras tantas casas que já passei e  vivi da melhor forma ( ou da forma que me deixei existir) , sinto –me na flor da idade – se não a de corpo, da qual não tenho nada a reclamar, mas a de alma. Vejo o amor de forma vivida e vívida, clara, sentida, em cada momento de meu dia, estando eu ao lado dele ou não. Um amor que eu poderia chamar de maduro, feito fruta no ponto de ser saboreada na sua plenitude.  Um amor que não espera muito, mas vê muito em cada pequena coisa do dia. Um amor sem rompantes – a não ser um ou outro para apimentar – mas um levar leve, sim, mas sem ser sem gosto, sem graça. Um amor que valoriza todos os momentos que se está junto, só porque se está junto. Um amor que confia porque não tem nada a perder, e que se sabe nesse nada, muita coisa.

Beirando a minha mansão dos 50, me vejo plena. Uma mansão sem muitos cômodos, mas todos muito cômodos, confortáveis. Sem lugar para tralhas, as tão alimentadas mágoas e ressentimentos, o tão arredio ciúme, a má companhia do arrependimento e da dúvida.  As tão alimentadas censuras, os malditos preconceitos. Os infames julgamentos  - como se fôssemos perfeitos – e a mania de achar que tudo tem que ser perfeito e não a contento ( que vem de contentar-se, estar contente). Que tudo tem que ser novelesco, e não realidade bem vivida. Que tudo tem que ser meio Janete Clair  - ou quem sabe Nelson Rodrigues - e não novelinha saudável “das seis”, romance bom de cabeceira.
Amar é dormir e acordar do lado, só por querer estar ali. Andar de mãos dadas não por hábito, mas porque se quer. Rir junto das bobeiras do outro, e chorar junto das tristezas e emoções da vida, tantas. É palpitar de leve, querendo o bem e não a razão. É abraçar para dizer “ estou aqui” quando se sente que só isso basta. Dizer tudo sem precisar de palavras. Dizer te amo sem dizer te amo. Amar por atos e fatos, glórias ou fracassos, não por sonhar-se o outro feito príncipe, guerreiro, salvador da pátria do que sonhamos ser e ter. Mas sim, homem real, normal,  em carne, osso e  coração. Às vezes menino, às vezes sábio.  Que dá colo, mas também pede. E, estar junto, não por precisar e sim por bem querer...

"Quando se aprende a amar,o mundo passa a ser seu"
Renato Russo

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Amando...





Amar só se aprende amando. Escrevi porque acredito. Isso é fato. 
E só se aprende treinando, amando, amando amando a cada dia mais. 

Mas não como coisas comuns, como andar de bicicleta. Ou fazer arroz. Ou quem sabe boa caligrafia, coisa que também amo, lembrando dos cadernos para tal  - e dos tantos e tantos treinos, que nunca deveríamos ter deixado de lado. Porque para cada amor - e tomara achemos, um dia, o último - um jeito novo de amar. Porque amar pressupõe duas pessoas diferentes, mas interessadas e dispostas, cada uma pensando do seu jeito, sendo do seu jeito, mas se aninhando com a outra, achando pontos em comum, entrelaçando-se sempre que dá...entendendo os pontos que não são comuns, fortalecendo os que são...e vendo no que dá!
Amar é isso. Verbo intransitivo em constante ação, pois só se ama vivendo o amor, vivenciando o amor. Mas eu me interesso aqui pelo amar somente num tempo: presente. Se amei, bom, aprendi. Se vou amar, e até quando eu vou , bom, isso é lá com o tempo, já tenho eu muitas preocupações. Meu interesse, repito, é pelo hoje, meu presente, belo embrulho. Quem sabe amanhã, ou semana que vem? Bom sonhar - verbo sempre no futuro -  posto que sonhar é imaginar,  portanto, longe -  com um amor que dure. E melhor ainda sonhar com esse amor como último, sonho de tantos. 
Morrer de amor? Lindo, sim, mas não, não quero morrer, nem de verdade, nem de amor. Quero é estar bem viva para vivê-lo da melhor forma, da forma que quero para mim. Não, não quero amor eterno, quero amor que se eternize a cada momento - do olhar atento antes do beijo à risada que relaxa. Quero se eternize a todo eu te amo que me sai e que me entra. Não, não quero amor sofrido, isso eu deixo para os poetas: o meu quero querido, leve e divertido. Complexo, mas leve. Nem platônico, saído de um livro: quero que ele mesmo seja um livro de páginas em branco em que se faça colorido. E que eu sorria a cada final de dia, a cada página querida, como quem admira belo desenho. 

Quero amor verdadeiro. Pode ter discussão, sim, pois sou humana e não personagem, mas que termine em beijo, depois de saturada a coisa a contento e com bom senso. Quero amor verdadeiro. Que me complete não porque me falte algo, mas que me complete porque me melhora, me acrescenta. E que isso seja via de mão dupla. Porque não quero um super herói, mas um simples homem, que tenha de superlativo só o que me sente e que em faz sentir.

Por isso que eu digo: amar só se aprende amando...simples assim...
( eu disse simples?)



"Faça o que for necessário para ser feliz. 
Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, 
você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. 
Ela transmite paz e não sentimentos fortes, 
que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. 
Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade "

Mário Quintana, sempre certeiro...sempre honesto...

sábado, 18 de agosto de 2012

Meninice



 Muitas vezes já me intitulei menina em meus textos por ai, e não falo isso por falsidade ou maldade. Nem criancice, nome tão cheio de "ces". Creio piamente ( e sabe-se lá de onde vem essa horrorosa palavra) - ou melhor dizer ingenuamente - que  a sou. 
No alto ( ou baixo?) de meus quase meio século de vida -- entre bem vivido  e mal vivido, mas nunca neutro - ainda me vejo menina que tem muito a aprender. Disso vivo. Deve ser por isso esse nunca silencio dentro de mim, nem quando durmo ( ando conversando comigo mesma, as muitas que sou, em sonhos...). Sou aquela mesma menina - cabelos tão brancos quanto a pele e olhos da mãe - que passeava de mãos dadas com o pai invadindo obras ( para depois desenhar plantas na areia da praia e brincar) . Ou que dançava com meus pés sobre os dele, mistura de magia, diversão e confiança.  Ou que  falava sozinha com suas bonecas na casinha montada debaixo da escada, escuro para os outros, claridade para mim. 

Sou menina ainda. Tenho tantos sonhos em mim, tanta esperança, que por vez acho que ainda sou - mesmo! - aquela menina que falava sozinha brincando com ela mesma, na claridade da rua ou na escuridão da escada.

Vivo como se a vida fosse uma eterna aventura de sonhar... me jogo ao mundo como quem se joga ao chamado do pai, como quem atravessa  a rua de mão dada com a mãe. Como se muita gente fosse meu pai, muita gente fosse minha mãe. Como se o mundo fosse meu tutor. Como se devesse crer, sempre, mas sempre com um pezinho de estepe como me ensinaram certa vez. 
O mundo de adolescente me fez ver a verdade do mundo  fora do patio de minha casa. Um mundo sem a sombra de meu pé de goiaba, sem cachorro latindo no portão ao menor sinal de perigo. Um mundo que me veio sem aviso, nem cerimônia, do tipo "vai!". E eu fui, malinha na mão, como quem confia na própria sorte traçada - que hoje chamo de anjo da guarda, para quem rezo feito criança pedinte toda noite. Fui, confiando em sem lá quem, meus pais confiando no que me deram, DNA e base. E descobrindo que o mundo real não tinha tanto sonho, mas mesmo assim eu os fazia.
Na vida, tenho teimosia de menina mimada. Corro atrás até de perigo. E uma alegria de viver que irrita aos velhos de coração. No amor, tenho em mim confiança de menina em cabeça de mulher, alma alegre em corpo maduro, uma mistura que por vezes assusta por diferença de ser, polaridades múltiplas, nada enfadonhas. Vejo no amado a luz do dia, a parte a ser traçada. E é essa mistura já pelo outro desenhada, de razão e emoção, de sensibilidade e raciocínio, tudo muito bem dosado com intuição, que me faço valer. Cada centavo ou cada beijo. E  a cada dia um mesmo, mas renovado, jeito de me ser... distraída...




O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distração vivermos assim. Com tanta sorte. 


Miguel Esteves Cardoso

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Viva




Hoje levei um susto: faz quase um mês que não me escrevo. Que não me curo. Não me adoço. Na verdade, tem acontecido tanta coisa em minha vida nos últimos dias , em poucos deles, que me firo, me machuco e me curo ao vivo, remendando com pensamentos minha dúvidas, sem precisar de muitas palavras. Ou, sim, de muitas, mas internas,essas nunca caladas. Fico em silêncio sempre que meus mundos  berram dentro de mim.
Tenho descoberto que essa camada que se usa de ser forte tem lá suas vantagens e suas desvantagens, como em tudo - ou quase - da vida. Tem um lado bom e um lado ruim, como eu sempre digo que tudo tem. Muito bom às vezes poder se ser por inteira. Poder ser humana. Poder ser, sem passar pelo crivo de ser taxada de nada. De se rotular, como tenho medo. Viro mulher quando amo. Por vezes menina, dada a insegurança de não se achar sendo na mesma proporção. Viro humana quando sinto um aperto no peito que me sufoca. Ai, melhor deixar sair - pelos olhos, pelos poros e pela boca. Ou escrever. 
Quer coisa mais polida? Mas tão longe da mágica do vivo...
Três palavras que se segura só quando realmente se quer dizer. Três palavras que saem fácil quando se diz por dizer. Por encantamento. Por emoção. Em um momento mágico. Ou em cena de qualquer filme, muitas vezes ensaiada.  Mas quando é sentimento interno, cravado no peito apertado, demora sair da caverna de dentro e rolar pela língua a espera do beijo receptor, do olho aprovador, do espelho de sentimento, do coração onde se quer plantar o mesmo amor, feito semente. Quase se cospe a frase amada. Quase se tosse sem pôr a educada mão tapando a boca, na esperança que entre sem restrições o vírus na boca alheia. Sai baixinho, como quem tem medo de ser escutada, como quem insulta a pessoa amada. Ou medo de reprova. Sai num rompante quando letras escritas, não faladas, pela distância de não vê-la entrar pelo olho do outro, na esperança de ganhar morada. Se entrar feito poema e fazer bonito. 
Mas, esqueçam, não amo feito poeta. Amo feito gente, desse jeito tosco que só gente sabe amar. Amo feito quem planta. Amo devagar, como quem reconhece terreno, olha o céu, escolhe a semente certa para o certo torrão , e a abre com os dedos, afaga, enterra, devagar, de leve, soterra, sem nem a  terra entender o porque. Sem nem a terra dar licença. Sem nem a terra amar. E se rega, cuida, alimenta. E se dá a ela seu melhor quinhão. Sua melhor cuida. Sua melhor intenção, dessas do céu e não do inferno, delas cheio, dizem.


Lenine tem razão: 

Pode ser um lapso do tempo

E a partir desse momento acabou-se solidão
Pinga gota a gota o sentimento
Que escorrega pela veia e vai bater no coração
Quando vê já foi pro pensamento
Já mexeu na sua vida, já varreu sua razão
Acelera a asa do sorriso
Muda o colorido, vira o ponto de visão

Falar  com o coração muda tudo...me põe viva!
E nua...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Alegre




 A vida hoje me pediu paciência... e eu dei... mas sem deixar de ser perseverante...

Feito a chuvinha fina e constante que cai, desde cedo, sempre igual, meio mantra, deixei a vida me molhar, sim, mas atenta...porque as oportunidades passa, feito bondes -  e ventos -  únicos, e não se sabe quando vem o outro - nem se vem!

Chuva é sempre bem vinda. Se fraca, molha aos poucos até encharcar. Se muita, assusta, mas leva o lixo das ruas e dos rios - e sabe-se lá onde vão parar. Se com raios e trovões, lembro de minha mãe que contava que era o papai do céu mandando os anjos arrastarem as camas para uma bela faxina. E gostava de imaginar o céu limpinho, perfumado, enquanto os anjos tomavam banho e sopa antes de rezar e, enfim, dormir. Eu mesma, desde então, sempre liguei chuva e temporal com limpeza - dos céus, da terra e da alma. Deixar tudo limpo e arrumado, tudo bem dosado, bem e  mal, bom e ruim, porque tudo na vida precisa de equilíbrio. Não se dá valor ao bom se não se convive com o ruim - e vice-versa. Simples assim.
Tenho remexido a terra, que andava ressecada por falta de chuva e de trato, por descuido. Descuidaram de mim e por isso me esqueci lá, terra rachada. E foi bom ver que, mesmo sem pressa e sem pretensão, minha terra voltou aos poucos a ser colorida, perfumada, produtiva. Mesmo o solo mais fraco se fortalece com a chuva. Mesmo o canto mais inerte desabrocha ao menor sinal de água. Mesmo no asfalto, onde ainda existe terra - um raso torrão que seja - se a chuva encontra o solo, até flor dá. As plantas vêm , teimosas e rudes, em qualquer lugar. É a busca do seu lugar ao sol. Como eu. Porque há vida dentro de mim. Porque muitas flores vão vingar, desde que eu queira. Desde que eu deixe. Semeei muito, muitas flores, de todas as cores e perfumes. E tenho tratado todas com carinho, umas mais outra menos, seguindo tão somente meu coração...
Hoje choveu, lento e insistentemente, feito choro. Mas amanhã é outro dia - e de sol. Senão lá fora, dentro de mim. Porque amanhã eu mesma serei outra...quem sabe a chuva veio só para preparar a terra para que eu possa florescer de novo?
A vida é um presente. O de hoje veio em papel pardo, e mesmo assim eu abri e fiz dele bom proveito. Tomara o amanhã venha embalado em papel florido e perfumado...quem sabe com laço de fita?


"Os tristes acham que o vento geme.
Os alegres acham que ele canta."

Luiz Fernando Veríssimo



domingo, 8 de julho de 2012

Chão



Tem muita gente que me acha sonhadora, cabeça de vento. Sou, pois são os sonhos que me movem. Sem sonhos e sem esperança, para que levantar da cama, se o filho já sabe fazer o café?
Sonho, sim, sempre e  muito. E são sonhos atrelados, como quem monta uma casa, uma peça ligada a outra, um caminho entre elas, mobiliadas cada uma em sua vez, e enfeitadas aos poucos. Não sonho sonhos prontos, como quem compra uma casa mobiliada.  Não os nomeio, nem os declaro prontos, nunca. Meus sonhos são vagos, como vagos os meus pensamentos em relação a eles. Mas sonho de leve, como quem não espera muito. O pensamento lá longe, mas dentro da cabeça, mistura dosada de real e irreal.  
Quando a gente espera muito, feito quem fixa o olhar no relógio, o tempo não passa, as horas travam, o pensamento congela. Põe-se muito foco e não se vê em volta. Fixa-se o olhar de forma fechada, como se usasse um binóculo.  E não se vê que outras paisagens - e outros sonhos, bem próximos, estão logo ali do lado, sem nem se sair do lugar. Vejo o horizonte, mas sem ver onde piso. Olho para frente, mas sem deixar de olhar para o chão. Ponho o olhar no futuro, mas não sem viver o agora. Gosto de coisas apalpáveis, de sonhos construídos, de sonhar aos poucos, como se montasse um castelo, como se desenhasse para ser melhor entendido. O chão, depois as paredes, telhado, portas,  janelas e ai, sim, belo jardim. Não sonho com "o" sonho e sim "um" sonho, detalhes da língua que nem sempre nos damos conta, mas mudam tudo. Se aquele amor não está disponível, entendo nele o que procuro e abro os olhos olhando ao redor. Uso caminhos diferentes, novos, saio do asfalto de todos e construo os meus atalhos, belos e outros,  e só meus. Quem sabe assim acho o mesmo amor, agora despertado exatamente porque não o trilhei? A mesma paisagem procurada, mas agora  por um ponto de vista só meu?
Tenho que concordar: sonhar visando algo, mas viver distraído, como quem procura algo que nem sabe bem o que é...como quem constrói um atalho nunca usado...e acha um paraíso só seu. Quem sabe até os sonhos mudam...
Só uma  coisa é certa: ninguém pode sonhar por mim...




“É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê…"
Los Hermanos