domingo, 22 de janeiro de 2012

Girassol



"- Mas o que quer dizer este poema?
Perguntou-me alarmada a boa senhora.
 - E o que quer dizer uma nuvem?
Respondi triunfante.
 - Uma nuvem,disse ela, - umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo..."

Esse pensamento de Mário Quintana, conhecido pelos seus devaneios em torno do triste  - como todo poeta ( como diz Rubem Alves, "ostra feliz não faz pérolas" ) , descreve bem  a forma de nossa visão - ou crença - sobre as coisas. Nuvem que pode ser anúncio de chuva, muita ou pouca,  ou apenas uma sombra providencial. Frescor ou dilúvio, alívio ou tortura, poema ou silêncio, benção ou castigo. Aliás, a nuvem e tudo na vida. Claro que não é só o pensar que faz o mundo virar a nosso favor - ou estapear-nos - mas estar atento ao lado positivo da vida faz toda diferença. Vejo por mim. Quantas vezes usei de maus pensamentos  -  e contra mim mesma? A tal comum, tão óbvia, tão conhecida, tão discutida e ao mesmo tempo tão pouco levada a sério por nós.
Domingo é um bom exemplo disso. Nem comeu o milho, mas levou a fama. Tem gente que odeia, pois já acorda no amanhã , na segunda, dia batizado e marcado como dia chato, coitado. Prefere deixar ele, o domingo, passar sem nem olhar sua cara  - nem do dia , nem a própria. Nem saber se tem sol ou se lua. Nem se o mundo acabou ou continua tudo no seu lugar. Desperdiça o dia porque não gosta dele, sem nem lembrar que o desperdiçado não perde nada, quem perde é ele, o desperdiçador.  Ou porque viveu tudo o que podia  - e o que não podia -  no sábado e hoje está de ressaca, física e emocional. Dói a cabeça e a memória, que não vai se apagar. Domingo, então, seria o dia para esquecer  e não lembrar...e é dureza esquecer o que cutuca a gente feito caquinho de vidro imperceptível , mas sentido, e muito, no pé.
Eu aprendi a viver os domingos. Sabedoria dos dias. Como ele me vem, como dá, como quem faz uma bela refeição com o que sobrou na geladeira dos dias. Passei anos reclamando internamente - um internamente tão tanto, que transbordava nos olhos -  de mal viver o dia. Para mim - fato aprendido com meu pai, um nômade de final de semana - domingo só era se vivido lá fora, se eu visse coisas novas, se eu estivesse longe de onde estava, bolo com recheio de insatisfação. Acordava sonhando estar com os pés n'água, ou respirando ar puro e verde, quem sabe passeando de carro por ai. Qualquer coisa, mas lá fora, principalmente de mim. Descobri, talvez com o amor, que tem lá o seu tempo interno, que o "lá fora" pode estar na próxima esquina, no passarinho brigando sua vaga na vida, pode estar na caminhada sem hora para voltar, no dia passando sem pressa de viver. Pode estar na cama de onde não se quer sair, desde que festa e não esconderijo. Na medida do possível -  do meu possível e dos outros possíveis , posto que não vivo sozinha -  faço um dia com mais horas, esqueço que são "só" v-i-n-t-e  e  q-u-a-t-r-o ( nossa, como parece mais tempo quando de soletra devagar!). Acordar sem relógio, comer só se dá fome, preguiçar sem pressa, tomar água de hortelã para refrescar. tentar um prato novo, ver um filme junto, dançar na sala para se namorar. Quem sabe um café com o filho? Um pastel para variar. Não ter hora marcada para nada, nem para nada fazer, nem para ser feliz. Deixar-se levar, feito folha ao vento, e ver no que e onde dá...sombra ou sol, chuva ou água do mar.
Pobre domingo...para Quintana, dia de chatos, como deve ser o céu. Para muitos, dia de muitos, mesa farta de comida  e gente, seja lá o que isso queira ser, seja lá no que isso queira dar. Drummond deseja domingo sem chuva - e eu já acho que chuva deixa o domingo melhor, mais calmo,  eu mais calma, sem tantas expectativas ( que ajuda ...ou atiça). Dia de praias de enxames de gente e coisas, e de cidades fantasma.  Dia de comer muito ou nada. Dia de muito agito ou  solidão, de muito barulho ou doce silêncio. Dia ameno ou de discussão. Dia de se passar a semana a limpo. Nada passa imune ao domingo, nem o amor começado no sábado. Quem sabe hoje ele se fortalece na moleza gostosa do dia, ou acaba , já com a cabeça no manhã, sem sobreviver ao dia-a-dia?
Uma coisa é certa: domingo "é"... e a gente faz dele o que quiser...melhor fazer como se estivesse apaixonado, como diz Carpinejar, "transformar o desejo no próprio tempo". Ou ainda, como diz ele,

"Nossa alegria não significa que estamos amando. Pode significar que podemos amar".

É isso. Fazer do dia o que se queira. Fazer do dia uma alegria. Mesmo que não estejamos. Tipo sorriso que atrai sorriso. Quem sabe a gente engana a felicidade e ela vem, atraída por momentos de descuido, como profetizou Guimarães Rosa?
Que se faça valer, então, o Estatuto do Homem, de Thiago de Mello:

"Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo".

É...o domingo tem lá o seu valor! Mesmo nublado, lá fora ou dentro, é Dia do Sol...

4 comentários:

  1. Joy...qualquer domingo deve ser ENSOLARADO ao teu lado, guria! És o próprio SOL!
    Fã do Porto Alegre

    ResponderExcluir
  2. Esses fãns de Porto Alegre sabem das coisas !
    Beijos

    ResponderExcluir
  3. Pois é Elenara!! Que bom! A recíproca é verdadeira: sou fã de carteirinha, camiseta e mascote rssssssssss

    ResponderExcluir
  4. Não são só os fãs de Porto Alegre: você tem fãs pelo mundo todo. Eu fico aqui, quietinho, à espera de mais um texto seu, sempre tão luminosos.
    Nisso o caro amigo do Sul tem lá sua razão: você é um sol!

    ResponderExcluir