domingo, 8 de janeiro de 2012


Lendo Fabrício Carpinejar , " O Amor Esquece de Começar" - que eu mudaria para " O Amor Esquece de Esquecer" - ,  fiquei pensando se não seria melhor ainda um subtítulo: " leia antes de se apaixonar".
A forma desse homem - friso isso, homem,  para acreditar que seja, tamanha sensibilidade, que só se expõe e se entrega pela maneira por vezes racional, e por isso extremamente masculina, de jogar a verdade ainda na mesa do café da manhã, depois de se fartar no amor matinal, e depois do cigarro -  expor as coisas ensina mais que  qualquer manual de instruções femininos, qualquer bestseller de autoajuda,  de passo-a-passo do faça isso, não faça aquilo. E bem por isso, porque é um homem, a outra parte dita interessada,  que fala. Como se ele fosse um intérprete, narrador, anjo protetor, terapeuta, ou coisa  que se valha.
Carpinejar tem uma doçura de dar inveja, uma sensibilidade aguçada que muita mulher não tem, mas não deixa de mostrar os dois lados. Bate com uma mão e afaga com a outra. Morde e asssopra. Mas como toda mãe ensina, para curar, tem que doer. Como  a crônica "Dar um Tempo", que fala do grande momento de terror que todas nós tememos, mas temos de escutar tal frase, tal pedido insano ( pelo menos para nós). Ele , o autor, é tão real, tão direto, tão femininamente másculo que assusta - ao mesmo tempo que nos faz rir de nós mesmas. Do como a gente aceita as situações, muitas, com medo de perder algo que achamos não ainda perdido - e está.  "Dar um tempo é se reprimir, supor que se sai  e se entra em uma vida com indiferença, sem levar ou deixar algo". Beira ao medo  - deles - de sair e não conseguir mais voltar. Cheira ao deixar a porta destrancada - e tem gente que deixa de viver para cuidar de que a porta nunca se feche - e se fecha para o mundo, feito Carolina na janela ( lembram da música?). O mundo passa e só nós, Carolinas, não vemos. Só ela - ou eu, ou você, nós - não vê. É despejo, não saída temporária. É mudança de endereço, não reforma. É "sob nova direção", não troca de gerente, não reformulação. É desprezo, não cuidado.  É medo, não coragem. É uma tentativa de deixar uma cadeira reservada no show da vida, da sua vida, enquanto ele conheça outras peças, protagoniza outros filmes. E  a gente pensa sempre ao contrário, como nos ensinaram, esperançosas de que as coisas passem, os problemas se resolvam, os anseios se normalizem, que o protagonista volte depois de ver que a vida lá fora é dura. A gente se acha única - e é, acredite - mas não feita só para um. Sem entender que o que ele quer , pelo menos nesse momento, é aventura, é passar a senha, correr o mundo, até achar outra para viver " um grande amor" e começar tudo de novo. Dar um tempo é "matar e acreditar que não se sujou as mãos", com "bate" Carpinejar, "compatível em maldade com ' quero continuar sendo seu amigo'", complementa ele. É sair deixando um fio, deixando um laço, sempre na esperança que não vire nó. Mas vira. E pode enfrocar, não ter volta. Feito os rastros de migalhas de pãezinhos de João e Maria, comidos pelos pássaros do caminho. Feito rastros de migalhas.
Feito migalhas: enganam a fome, mas não a matam. A fome está sempre lá.
Dureza? Não acho. Dureza é o que a gente faz com a gente. Pára de viver, esquece os sonhos, põe na mão do outro a nossa felicidade. Dá as rédeas de nossa felicidade ao outro. Fica dentro da gaiola, mesmo de porta aberta, com medo de passar fome lá fora: já está e nem se dá conta. Conselho? Prefira um homem que seja sincero e diga " não deu". E feche a porta e não olhe para trás. Que  esqueça o seu nome, o seu telefone, que troque o dele. Que não deixe cuecas para depois voltar. Prefira a realidade nua e crua do não do que a esperança  da espera inútil das horas do talvez. Siga a sua vida. Renasça, muitas e muitas vezes se por preciso. E se for para acontecer dele bater à sua porta outra vez, ou seus olhares se cruzarem e vocês " cruzarem" outra vez e não se desgrudarem mais, para serem eternamente um nós - e não um nó - não se preocupe: a vida conspira outra vez.  Se não, não se preocupe: somos mulheres o bastante para se apaixonar  - e começar  tudo - outra vez. E outra vez. E outra vez...românticas que somos, concordando com o próprio Carpinejar:

"Liberdade é ter um amor para se prender"

Essa "algema" , o amor, a gente gosta de usar...

7 comentários:

  1. WOW.....gostei tanto que nao da nem pra falar!

    Claranonima...rsrs

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  2. Me lembrei da minha senha do google....agora nao preciso ficar anonima....haha
    Adoro seus escritos, Joyce!
    Beijao!

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  3. Que coisa isso gente....somos ansiosas,queremos adivinhar se ele volta, se é por nós que os sinos batem....mas é tudo um instante...as vezes somos apaixonadas pela ilusão que criamos em volta do ser que foi escolhido pra ficar preso nessa ilusão tão nossa, ele nem sabe as vezes a dimensão e o peso que colocamos em seu colo e isso é injusto com o objeto amado e uma crueldade conosco...amar uma ilusão nossa, dói machuca e parece mais difícil de superar, mas não é, só parece, por vezes temos que nós questionar, nos entender e saber sentir a dor que nos libertará da ilusão e da angustia de esperar pelo sonho que é q nem algodão doce, parece que alimenta mas é só ar e açucar...

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  4. E como gosta, senão não seríamos mulheres...sair bater a porta a gente até faz..quando já não ama, quando nunca amou, quando o ir é um alivio. Mas se o nosso coração de mães bate, um pouquinho que seja, pelo homem que nos acena um talvez, esse talvez é quase um sim, é quase uma possibilidade de que ele enfim nos veja como somos: maravilhosas !
    E aí vamos nós, nos atolando a cada esquina, a cada amor que nos esvazia a espera daquele que nos transborde. E que nos encontra, talvez, quando já não procuramos, quando já nos encontramos...

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  5. Viver é isso.Gritar bravo mil vezes e chorar outras mil vezes.Não tem receita que ensine, nem vocábulos que expliquem a dor de perder-se...pq acredito que um amor não se perde...perde-se a si mesmo...por amar...E acredite Joyce...vale a pena cada lágrima.Chega um tempo, em que mais feliz, foi quem mais sofreu...pois cresceu.Amores são construções...não perenes, nem frágeis...Apenas construçoes...
    Bjs e obrigada por compartilhar um mundo tão lindo....O Seu:)
    Luciete Valente

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  6. Tudo tão mais simples se nos perguntarmos:
    Somos felizes quando juntos? Sou satisfeita como mulher e atendida, e por isso entenda-se ter atenção?
    Quais castelos queremos construir depositando nossas cartas no outro e fazendo-o instrumento único de nossa felicidade???
    Simplicidade, alegria, leveza de alma não é algo com que se venha, assim como a vida não tem manual de instruções. Aprende-se tudo ao caminhar, inclusive a se construir como mulher!
    Beijocas e adoro ler vc, Joyce querida!

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  7. Lindo, pura verdade!!Dificil mas válido!!
    Amei, como sempre né Joy, como tudo que vem de vc, bjussssss

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