quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Quem sabe...


"O que não tenho e desejo...
É o que melhor me enriquece..."

Manuel Bandeira, tem razão. O que nos move são os sonhos, os acalentos, o não alcançado. O tesouro enterrado dos livros de outrora. Imagine você levantar um dia sem nenhuma coisa em mente, nenhum tesouro, nenhuma tarefa definida, nem uma ponta de vontade...um problema que seja, um porquê, uma saudade. Seja trabalho, filho, caminhada. Sol lá fora. Ou  a chuva, esperando para ser admirada. A vontade de um café, um levantar para que. Um ter que. Querer. Um sonho enorme ou uma procura qualquer. Um tudo ou um nada. Gaveta mal fechada. Ou mal arrumada, dessas que nem fecha.
O que eu desejo nesse momento - e não tenho - é um bom pote de sorvete. Quem sabe uma caneca de bom café? Poderia ser um mergulho no mar, mas o mar está longe. Poderia passear ao sol, mas o sol, está longe, "milhas  e milhas distantes do meu amor" - só para lembrar a letra da música. E ia me dar muito trabalho chegar lá. Se me enriquece, se me aquece, eu não sei. Mas me move. Nem que seja meu cérebro. Ou esse texto. O que eu desejo é uma vontade.
Meu desejo , um qualquer, me move, nos move, nem que seja o desejo de não se mover, ficar ali ,ou melhor aqui (dá menos trabalho) à espera do melhor. Ou de algo. O que nos move são os sonhos, as expectativas, as vontades. As boas e as más. Lembro de uma frase postada pelo Carpinejar, para mim dois ( ou muitos?), o homem, Fabrício, e um verbo que inventei só para me alegrar. E me dei ao luxo  - ou vontade? - de "carpinejar" uma de suas frases:

 "A preguiça é santa perto da má vontade".

E é bem verdade. Na preguiça , que por vezes se cura com um espreguiçar-se - pelo menos em teoria - a gente até faz algo, ou nada, mas é uma escolha. Boa ou ruim. Vira-se para o lado e atrasar a levantada. É leve, tem cura rápida, se vence rápido, basta um bom cheiro de café - ou olhada rápida no relógio do lado. Basta um bom convite, o corpo da pessoa amada, uma coisa bem traçada, sanduíche no prato, o barulho do chuveiro ligado.  Preguiça, concordo, é santa, boa menina,
devia ser canonizada.
Má vontade é mais interna, intensa, por vezes enraizada, mulher formada. Impura. Costura mal feita, avesso mal costurado. Pendência. Falta. Engole a preguiça de forma rápida, devorada. A gente precisa ter vontade de fazer as coisas. Alimentá-la a cada fome, a prato feito ou colheradas empurradas, pelo menos para as coisas não tão amadas. Como diz no dicionário, "faculdade que tem o ser humano de querer". Basta querer ( basta?), verbo transitivo, mas nem sempre fácil. Sim ou não. Ou ainda "força interior que impulsiona o indivíduo". Força, nem sempre presente, nem sempre forte, eficiente. A vontade muitas vezes me acha fraca. Anêmica, desinteressada. Até de escrever. Melhor parar, distrair, desconversar. Melhor pegar o livro do Fabrício, o escritor, e me deixar levar, me deixar deitar, quem sabe sonho? Quem sabe a vontade fica boa e sai para dar uma respirada?
Quem sabe...

Um comentário:

  1. Menina, até com má vontade és ótima! Essa culpa que se carrega de TER que se estar sempre bem, de bem com a vida, sorriso colado na cara, mera aparência.
    Só tu escancaras, e o fazes de forma tão póetica que fica até bom, de se ler, de se sentir. Como sempre!
    Fica bem!
    Du

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