terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Transbordando



A conversa foi longe. E eu também. Revi nossos famigerados contos de fadas - ou de mocinhas -  e enxerguei muitas mulheres neles, inclusive a que vos tecla. Relembrei quem foram nossas "heroínas" da infância - e que perduram até hoje, nas "novas" mulheres, entre bonecas anoréxicas. Cinderela, Branca de Neve, Rapunzel, Bela Adormecida. Eram tantas - são? - que nem me lembro mais. De "fortona" mesmo, meio macho até, só a Mônica, aquela, dentucinha, heroína brasileira que batia, xingava, ousava ousar. Brasileira, sim, com  muito orgulho. E mesmo assim, arrancava - arranca - suspiros de seu suposto par.
E porque esse assunto veio à tona? As esperas. Sim, as esperas, muitas aprendidas desde pequenas e apreendidas ainda em nós, mesmo que inconscientemente. Cinderela era feita de faxineira pelas irmãs horrorosas e horrorosa madrasta. E precisou de fadinhas mágicas para se fazer feliz - pelo menos por uma noite. Mas não escapou de ficar de plantão esperando o tal príncipe trazer o tal sapato e, enfim, experimentar em seu pezinho ( por muito tempo achei que para cada sapato, um só pé...). Rapunzel foi presa numa torre - nem me lembro mais porque, nem se merecido  -  e ficou lá esperando alguém que a resgatasse ( sinto-me assim , por vezes...são tantas as torres...) . A vantagem era o cabelo, longo e forte (ruivo? Meu sonho...), que muito invejei. Branca de Neve fugiu da suposta bruxa ( a "outra" é sempre má e feia, notaram?) ajudada por um homem dito bom, mas virou babá de sete anões até ser resgatada por um príncipe. E demorou. E nunca mais se soube dela ( será que lavou cuecas?). A Bela Adormecida perdeu os melhores dias de sua vida dormindo até que "o" cara a beijasse. E ficou com ele mesmo. Será que experimentou outros, homens e beijos? As histórias, se prestarmos atenção, são todas iguais... e todas se repetem, até hoje...mas não nos livros de papel, nem nos cds. Na vida.
E o que há por trás de tudo isso? Uma mulher "submissa" ou pelo menos conformada, esperando. Sua auto-estima não é lá essas coisas. Culpa da educação? Sempre detestada por outra, mais feia e mais velha. Minha vó foi - submissa e conformada,  não feia - minha mãe idem ( linda, mas esperou até demais, espera até hoje, acho...). Esperando que o tal príncipe, a tal meia laranja ,  a cara metade , o dito "prometido" apareça e a tire do marasmo dos dias. Transforme sua vida. Que a resgate em seu cavalo branco ( ou muitos, potência do carro). Que um beijo a acorde para a vida. Que o cavalheiro lhe dê vida de princesa, e não de "Rainha do Lar". E  a Cinderela, que se arruma feito doida a cada baile na esperança de perder não o sapato, mas o juízo por um  homem qualquer?
Temos, todas um pouco de cada uma. Fato. Muitas historinhas de criança nos descrevem. Estamos sempre esperando. Sonhando  - acordadas mesmo -  por alguém que nos revire. Que nos acrescente. Que nos complete. Que nos faça infartar. Que nos tire o fôlego. Que faça nosso coração saltar fora da boca. Que nos resgate. Somos borralheiras à espera do príncipe. Brancas ou não, servindo aos outros à espera do esperado, sonhado, pretendido. Rapunzéis espiando de cima da torre o melhor momento de descer do pedestal dos sonhos. Belas adormecidas pela vida, aguardando o beijo revolucionário. O beijo fatal. "O" beijo. Passamos boa parte da vida nos achando aquém, desertas, secas, sem vida, se não formos amadas , agraciadas com um grande amor.
E  veio a grande sacada, virou piada no melhor sentido de "melhor rir que chorar", pavio acesso pela amiga antenada, explosão de gargalhadas: entre ser Cinderela e ficar fazendo faxina, ser Rapunzel e esperar o salvador do alto de uma torre, ser Branca de Neve e virar babá de anões,  ou Bela Adormecida à espera do beijo certo, melhor mesmo é ser Chapeuzinho Vermelho. Não, não é só para usar vermelho, nem dar passeios pela linda floresta, ou para ficar de visitas à queridinha vovó... E para ficar com o lobo mesmo...
Sigo, sim, na esperança de poder concordar com um homem que me encanta, não pelo que aparenta, nem por ser um príncipe,  mas pelo que escreve:

"Não desejo encontrar alguém que me complete, é pouco,
mas que me transborde, até o final cansar e ser só início".
Fabrício Carpinejar

9 comentários:

  1. Simplesmente G-E-N-I-A-L....amei, obrigada amiga escrivinhadora, talentosa, sensivel e especial!!!!

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  2. Meu Deus do cééééu.. que delicia de textooo!!!
    Ri e chorei.. e isso carissima Joyce, é para poucos!!!
    Que mente e alma abençoada..
    QUE DEUS CONSERVE.. SEMPRE.. SEMPRE..
    Muitos BEIJOS
    Adriana Basilio

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  3. eita...lá vamos nós!!!!!

    Na realidade...entre tantos contos,nos resta uma grande lição... não nos prestamos mais ao papel de babá de ninguém....um pouco dos filhos..dos animais de estimação talvez...mas não da cara metade...do "príncipe".
    Não queremos cuidar e nem ser cuidadas...queremos ser amadas...compreendidas estimuladas a nos sentirmos vivas e se não for o príncipe que seja o lobo...que o morno nos esqueça e entre as borboletas no estômago...correria de amarelinho sim , mas não solitária quieta assoviando...correndo e sendo perseguida as gargalhadas...como dizia a já nossa íntima "amiga" Clarice Lispector Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.
    (Perto do Coração Selvagem)

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  4. Adorei teu tblho no blog. divulguei no meu perfil Nana Pimentel http://www.facebook.com/profile.php?id=100003317010467 ...mto bom mesmo e inteligente além de ter uma leitura leve.
    Vou me colocar como tua seguidora pois é o tipo de leitura que aprecio. Sucesso e feliz 2012

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  5. M A R A V I L H O S O . . . estou sem palavras diante da pura verdade das tuas tão bem colocadas e escritas no contraponto da poesia, confrontando e se opondo e estabelecendo paralelos com a realidade da fêmea num mundo masculino...

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  6. Lindos, como sempre, o texto e quem escreveu! Você tem uma doçura única, mesclada com um bom humor tão seu que me encantam!
    Deve ser muito bom conviver, viver, rir e chorar ao seu lado!
    Vou parar por aqui senão me declaro!

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  7. Lindo Joyce. Texto impecável, como sempre, mas a definição...... Uau! esta arrasou, com a citação de Fabrício Carpinejar. Parabéns!

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  8. Joyce, fantástico! Minha mãe se transformou de gata borralheira em mulher independente e teve a chance de viver uma grande paixão. Aprendi com ela e nunca me submeti a homem nenhum...É, por vezes difícil essa escolha mas acredito que vale a pena! Bjos

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  9. Joyce, o que mais me surpreende são as declarações abertas dessa insensatez amorosa cotidiana em posts minimamente públicos, em que as mulheres se declaram tão incapazes diante do amor! Hummmm ... não "curto" essa dor pública, sou daquelas mais brandas ao dizer isso, só aos meus amigos ... a quem peço um colo, até passar, rsrsr. Acredito nesse mito, sim, como todas ... mas acho que avançamos muito em perceber que é apenas mito. Na verdade, existe o amor, independente de ser homem ou mulher ... uns têm mais sensibilidade, são verdadeiros, outros não! E aí, o difícil vai ser encontrar alguém verdadeiramente disposto a compartilhar beijos, abraços, amassos ... a vida! Afinal, fomos feitos para o amor, não é? Bjoooos

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