quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Bem dita


Todo mundo tem alergia. Poeira, leite, frutos do mar, tanto faz. Eu tenho lá as minhas frescuras. Não posso muito com leite - e seus derivados - mas com certeza foi porque gastei toda a minha cota de tanto  beber/comer anos atrás. Já fui até vegetariana, e foi uma das fases mais produtivas
 de minha vida. Coisa a se pensar...
Mas hoje, numa dessas brincadeiras que viram verdades em mim, falei que minha única alergia era por tristeza.  Detesto. Machuca. Pesa em mim. Sim, ela , quando "bate", me deixa bem mal. Tira o brilho de meus olhos, que ficam opacos como quem tem neblina. Deixa meu sorriso como que amarrado, preso, estático, sem o brincar de escorregar que tanto gosto. Faz a menina levada ficar acanhada e dar lugar a uma senhora muito "bem" comportada - que decididamente não sou, nem quero. Faz a tagarela ficar quieta, coisa rara. A gargalhada não sai, coisa estranha. Sinto-me como que doente. Sinto-me como que seca, morta por dentro.
Alergia sem cura, pelo menos num momento. Mas fácil, muito fácil de tratar. Basta uma palavra amiga. Basta olhar para o lado, ver gente bonita - ou mais "precisada". Basta ver um sorriso e o meu logo escapa. Basta uma gota de remédio, por mais simples que seja a dose,  e volto a bem respirar. O sorriso volta ao largo, os dentes emparelham na boca, a gargalhada - marca registrada - escapa fácil, testa a elasticidade máxima dos lábios,  frescor de rosa, e vou atrás. A menina dança sozinha, nem que seja por dentro, como quem cantarola uma música. Saltita feito bailarina pela calçada, pés em ponta,  batuca um sambinha com os dedos na mesa, impaciente, à espera de sua enorme bola de sorvete, seu paraíso gelado. Ou de um vestido novo, tanto faz. Quem sabe a passada de mão num cachorro, o cantar de um pássaro desavisado. As curas, tantas, que a "doença" fica frágil. Fraca, fácil. Foge, sem nem olhar para trás. Alegria, para ela, a que sou, não tem segredo, nem valor. Alegria, alergia, tanto faz, troca de letras, lembra o anjo de olhos claros. Faço da palavra brinquedo de montar. Faço da palavra poesia. Engulo a outra, que quer me derrotar. Mastigo feito chiclete, faço bola. Cuspo fora antes de ruminar. Mal sabe ela que tenho meu valor. Mal sabe ela que me sei. E quando não sei, procuro, e acho. Sou. 
É...essa "alergia" eu não quero perder...Nem a alegria, por mais que a vida levante poeira , por mais que troque as letras, que me faça fungar, que faça verter lágrimas de meus olhos. Porque até eles, meus olhos,  ficam ainda  mais azuis quando eu choro...
"A alegria evita mil males e prolonga a vida", disse certa vez William Shakespeare.
No meu caso, prolonga a infância...


Um comentário:

  1. Quem te faz triste deveria ser taxado de louco!
    Banido do mundo!
    És a mais pura alegria!
    Du

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