sábado, 25 de fevereiro de 2012

Crescendo



"Felicidade é a gente poder olhar para trás e encontrar esse vago mundo em 'sol menor' que se chama infância. Adivinhação da vida. Bem sei que, com muita gente, acontece essa coisa estranha: torna-se adulto sem ter sido criança. Ou, o que é pior: ter sido criança sem ter tido infância.
A infância, para mim, não é apenas e simplesmente uma idade, mas justamente aquele mundo de pequeninas coisas que tornam inconfundível na lembrança um tempo de alegria,

um tempo em que conhecemos a felicidade sem ao menos nos apercebermos dela.
Uma vez escrevi:


Infância mesmo
a gente só pode ter
depois de crescer.
Porque antes
a gente não sabe.”

Começo meu texto hoje pelo avesso. Ou melhor dizer pelo direito, belo bordado, com essa bela constatação de um nome que me rodeia desde menina: J. G. de Araújo Jorge
(achava o nome lindo, de príncipe! Mas hoje o sei poeta...).
Essa dúvida sobre a infância , onde começa e onde termina - e se termina - , anda me pegando pelo pé. Ou pelo olhar, pelo cheiro, pelo tato, tantos sentidos. Sou, criança, ainda, não nego, nem quero. Sou, não pro ser pequena, nem menor, muito pelo contrário. Sou porque continuo poeta da vida. Continuo com o olhar distraidamente atento. Difícil de entender? Não...porque é um olhar infantil. Atento ao que pouca gente vê. Distraído ao lado enfadonho do dia. Esqueço a torrada no forno se um passarinho canta lá fora. Atraso para um compromisso porque achei um cachorro faceiro no caminho. Perco a hora porque a música que toca no rádio é boa. E basta um livro com lindas palavras e me deixo levar. Sou Alice a procura de algo novo, e sem pressa. Sou a gata borralheira que sonha com seu amor enquanto varre a casa. Distraio da mesmice do dia imaginando "que bom seria se..."
Volto à infância com essa mente desperta e colorida e escuto o cantarolar de minha mãe, hoje muda. Lembro de dançar com os pezinhos sobre os pés de meu pai, hoje parado. Lembro de passear de noite para escutar os sapos, que hoje me emocionam. E olho admirada uma estrela, hoje tão apagada. A chuva ainda me encanta, canção de acalmar. O trovão ainda me assusta, mas tenho que em segurar. E me vem a pergunta: quando se deixa de ser criança? Quando a gente se deixa desencantar?
Quando se deixa de ser feliz para ser adulto?
Não sei. Não sou. Lembro das gargalhadas que dou sozinha, deixando as pessoas em volta desconfiadas. Lembro das brincadeiras com meu filho, cada vez mais raras, e por isso cada vez mais valiosas, e vejo nisso tudo uma luz.  Lembro das coisas tão pequenas que me balançam, fazendo de mim uma boba para muitos , mas sensível para mim, e me alegro.
No meu choro fácil, encanto pela vida. Quem sabe é rega. 
Descubro que a semente de me ser como sou está lá. Basta regar...e cuidar.

2 comentários:

  1. Tão bonito...também me pergunto isso...e acho que a nossa criança morre cada vez que perdemos um pouco a esperança. Sabe aquela história: tantas vezes me mataram, tantas vezes eu morri, quantas eu ressuscitei ????
    Pois é...Em cada pontinho que acredita, aí está a sementinha da nossa criança. Beijos

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  2. Eu conheço este peota me recordei dos livros que lia dele uma coletânea de livros era de minha tia mais eu os amava, lindas as poesias ainda lembro como eram folhas grossas e tinham a capa vermelha, versos maravilhosos...eu fazia boas leituras. querida vc é fabulosa no que fazes parabéns! adoro ler o que escreve. parabéns!

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