terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Profunda



Se eu pudesse me definir, longe desse jeito de menina moleca e desligada que posso aparentar a quem me vê de forma rasa, sem mergulhar no mar de meus olhos, seria poética. Sim, resgato em mim esse lado que aflorou quando eu nem sabia ao menos escrever direito: meu primeiro poema - da qual lembro ate hoje - foi escrito aos seis anos de idade. Nem andar de bicicleta eu sabia. Talvez nem ler direito. Nada sabia da vida, imagino. Nem ao menos, penso eu, tinha contato com poemas - a não ser os sempre prontamente declamados por minha mãe, que preferia tais ensaios ao invés de conversa ao pé na cama. E se pudesse me definir de verdade, sem os rompantes de personagem que vestimos a cada dia, diria, sim, sou poeta. E profunda. O raso, como comentei outro dia quando me disseram poeta - poetisa? - aquele que não passa dos meus agora amados pés (a gente sempre passa pelo horror de detesta-los um tempo da vida...), não me banha. Muito menos me inunda, completei. Não sinto prazer na vida rasa. Não me lava a alma. Não me invade.
Poeta e profunda... Mas o que e´ ser poeta? E vou além, curiosidade nata: o que e´ poesia? E o que se define como poema? Cato lá nestas buscas hoje tão fáceis, mas nem sempre precisas: poesia se diz de tudo que "tem caráter do que emociona, toca a sensibilidade. Sugere emoções por meio de uma linguagem". Já poema, esta lá: "obra em verso em que há poesia”. Rio. Minha menina interior ri de si mesma, como se desdenhasse. Fiz poemas aos seis anos de sonhos. Hoje, não mais, não a meu contento, já que a gente cresce e se deixa influenciar pelo mundo, sempre esnobe. Hoje faço poesia de tudo que toco. De tudo que olho com meu olhar curioso, de tudo que penso e viajo - minhas formas de linguagem, formas livres de dialogo - namoro? - com o mundo. Faço poesia com tudo que me vem e me toca a alma. Faço poesia sempre que a vida deixa, sempre que eu deixo que me deixo levar. Sou movida a sensibilidade, alimentada de sonhos, encantada ate, talvez mais do que devia. Minha mulher é sensível, tem a emoção a flor da pele, sente tudo em cada fio de pelo dourado. Essa que sou - não a que por vezes represento - ré a mais pura poetisa da vida.
E onde colocar toda essa energia de vida, essas impressões coloridas que tenho, feito quadro recém-pintado - e ao mesmo tempo em constante evolução? Não sei, mas ela me move. Ela me faz levantar a procura do sol, ou sonhar ao barulho da chuva. Ela me faz escutar o som do pássaro que parece cantar só para mim com a mesma delicia de descobrir um novo poema, degustar cada palavra e junta-las num belo prato, que devoro. Gulosa da vida, sou. Mas sem pressa de engolir. Minhas paixões são assim: vagarosas. Com quem experimenta o melhor prato da vida a cada dia. A cada encontro de minha poesia em relação à vida. E a cada silencio que faço entre elas.
"São as nossas paixões que esboçam os nossos livros,
e o intervalo de repouso entre elas que os escreve".
Marcel Proust

Nossos livros e nossa vida...

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