quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Vôo



Textos são asas. Essa foi a minha conclusão (essa palavra existe? Alguma coisa realmente se conclui?) depois de um belo bate papo, onde dizia que todos nós temos um pouco - ou muito - de poeta dentro de nós. Uns são poetas das tintas, outros de projetos, outros usam a voz, as palavras cantadas, quem sabe desenhos, poetas de escolhas, de ideias. Outros de textos, minha grande paixão. Palavras bem escritas me fisgam. Ou nem precisam disso: sigo, sem nem saber onde me levam. Tenho faro aguçado.
Mas voltando ao assunto em pauta, e antes que eu me apegue a eles em grande vôo, textos, sim, são asas. Mesmo que se esteja num dia pesado, como pássaro de asas molhadas, quem sabe mergulhadas em óleo sujo das praias, elas, as asas, ali estão...Basta, na maioria dos casos, e graças aos céus, um bater leve, uma chacoalhada , e elas voltam a nos dar impulso. E, sim, feito nossa mente, grande voadora, nos levam onde queremos. E mesmo que não nos levem para onde queremos, ou sonhamos, nos levam. Pode-se voar contra, debater-se, ou resolver planar. E ver onde se vai dar.
O segredo, muitas vezes, é se deixar levar, como quem foge de uma correnteza do mar...uma hora, sem que o mar perceba, sorrateiramente, a gente volta para a praia...se salva...respira fundo e agradece o milagre de pisar, outra vez, na praia. Que tem um pé no mar como eu, desde sempre, sabe que com o mar, como com um pai quando em tenra idade se está - não se discute. Ele tem o poder. Ele tem a razão. Enfrentar só traz cansaço de um lado e fúria do outro. Então, o jeito é se calar, se soltar e deixar que ele, o mar, se distraia ou canse de nós e nos deixe voltar.
Mas os textos, ah, sabe-se  se lá onde nos levam. Nem uma conversa de sabe o destino - pode começar de um jeito e acabar de outro, nem por um momento esperado, que dirá o que vem de nosso  pensamento, grande ninho - de pássaros ou cobras. Mas, feito onda do mar que vem sem ser chamada, e quase nos derruba, melhor deixar passar. Não tem como segurar sua força. Como escrever.  Escrever é isso: onda que vem e não dá para segurar. Se segurar, cresce. Se segurar entorna dentro. E chega uma hora que não me cabe mais: vazo em palavras.
Escrevo-me para me entender. Ou me curar.Ou seria para esquecer?
Quem sabe Fernando Pessoa estava certo:

"Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida"

Um comentário:

  1. Minha amiga, não é a toa que gosto dos teus textos, da tua maneira de expressar o que te vem de dentro. Escreves como uma catarse, como um jorro que brota e extravasa. Eu bem sei como é isso. Escrever para mim sempre foi isso o que descreves. Essa coisa que vem de dentro, vem de fora. VEM. E é como se mente e mãos se unissem e saltassem da tela, do papel, ganhassem vida própria, se fizessem ser. E se fazendo ser, nos fazem também.
    Aqui levantei os olhos e me deparei com o "escrever é a minha cura". Sempre foi a minha também. E realmente ando dela precisando me achegar. Me curar. Me tornar. Me RE tornar.
    Essa tua inquietude mexeu com a minha. Me cutucou. E é essa a missão dos amigos, das amigas. Mexer uns com os outros.
    Beijos

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