segunda-feira, 26 de março de 2012

Afago


 




Muita gente me perguntando porque não tenho mais escrito. Simples: porque nem sempre as palavras saem simplesmente...Elas, muitas vezes, precisam de espaço, de tempo, de dedicação para que uma simples ideia vire um texto. Mas não uma ideia qualquer, nem um texto qualquer. Para ser cura, como são as palavras para mim, as palavras precisam sair de dentro, do coração, de meu lado mais íntimo, alimentadas pela emoção do dia – ou de uma vida toda. Muitas vezes a ideia vem e uma única palavra tece um texto. Outras, um tecido enorme espera ser desvelado, ser feito de novo fio e ser novamente tecido, virar manta de acarinhar. Outras vezes a gente não se entende com elas. As palavras correm de nós....Ou nós corremos delas? Ou nós mesmos temos medo do que as palavras tem a dizer, das respostas que vêm sem nem a gente pedir, esperar ou mesmo querer saber. As tantas verdades que não se quer ver...as respostas encravadas depois do fim.
É...mas se a gente puxa, elas vêm, como agora...e é como se a gente sentasse em frente a um baralho de Tarot, quando se quer, na verdade, só ver coisas boas, mas não se sabe o que vem. E as cartas na mesa nem sempre são as que se quer jogar, a que se quer ver, e muito menos viver.
Palavras...podem animar ou derrubar, afagar ou bater, acarinhar ou perturbar. Facas de dois gumes, um deles sempre mais afiado que o outro. Mas o pior de tudo, pelo menos para mim. é a falta delas, o silêncio. Preencho o silêncio com o que me vem. Pessimistas que somos, fazemos das palavras não ditas, monstros. Monstros enormes e horripilantes, que detestamos, mais a nós por alimentá-las que a elas mesmas. Esperançosos, esperamos que um vingador venha salvar-nos antes do fim de uma ideia, de uma descoberta – já que éisso que um texto sempre é. A surpresa do final, como todas as surpresas, podem nos fazer sorrir ou chorar. Ou aquietar-nos, mas uma vez, calar nossa voz. Ou mudar nossa escolha, quem sabe mudar o nosso rumo. Tomara, pelo menos hoje, nos traga a boa nova. Seja bela manta macia de aquecer ...e não de espetar...
"A palavra é o meu domínio sobre o mundo”, diz Clarice Lispector.
Quem me dera eu domine pelo menos o meu.

domingo, 11 de março de 2012

Beijo bom




Se tem uma coisa que a gente deixa pelo caminho, enquanto tenta se encaixar, no meu caso , com a correria imposta , e nem sempre necessária da vida , é  a sensibilidade. Ficamos mais sensíveis aos maus tratos dos dias, às palavras ofensivas, aos silêncios gritantes e vamos criando uma casca de proteção que , por vezes, nos cega, feito tampão. Tira o que temos de bom, ou tenta. Perdemos a sensibilidade pela riqueza da vida, as delicadezas das horas, como quem para para tomar um chá, pausa para pensar. Ou viver?
Meu "chá" de hoje veio de uma pequena caminhada com meu cão pela rua, ao anoitecer, mais por mim do que por ele. Um caminhar lento, destes que só os cães têm, cheirando a vida. Pude sentir o frescor da noite chegando, leve brisa no rosto, em contraste com o quente exalado dos muros, bafo das horas...E entre uma parada e outra, ele reconhecendo o caminho  - e eu também de certo modo, como se fosse isso tudo novo e único - e  foi, e é , posto que  cada momento é, por si só, virgem, não vivido, mesmo que a mesmice se faça presente, mesmo que o caminhar seja outro sobre a mesma calçada, parei para olhar o céu...por impulso, por descuido. Há quanto tempo não me deparava com tantas estrelas? Ou melhor, aceitando, mesmo sem graça, há quanto tempo não elevava meu olhar, nem para cima e nem para fora de quem sou, longe de meu umbigo, de meus problemas que faço maiores que todo o céu? Lembrei..não faz muito tempo...ao caminhar pelas ruas da praia onde passei a  infância, com meu filho,  e me emocionar com o coaxar dos sapos. Voltei no tempo...Para ele , nada, para mim, tudo. Sim, sapos, até eles me emocionam porque me transportam, em segundos, para uma espécie de "País das Maravilhas", mesmo sem ser Alice. Meus coelhos são outros...meus coelhos são sapos que viram príncipes, sim, e sem precisar de beijos a dar.  
Meus chás foram muitos essa semana. Vieram de sorrisos encontrados, de olhares brilhantes, da criança falante que sou pondo o seu mundo a rodar, numa semana para lá de corrida. Minha menina estava lá para ver a lua linda e cheia  brincando de esconde-esconde entre os tantos prédios da "pauliceia desvairada", naquele momento, pelo menos para mim,  "pauliceia poética" . Ou "pauliceia brincalhona"? Fiquei entre risonha e emocionada com minha ingênua descoberta: sim, a lua nasce para todos, para os de janela fechada, os de janela aberta, os que andam olhando tão somente para o chão ou para seu próprio nariz...
É disso que eu falo, dos presentes da vida, dos beijos na testa que o dia nos dá...Mas para recebê-los , não diria mais que é preciso estar atento, e sim, concordando com o Guimarães, poeta que tem no sobrenome uma Rosa, é preciso descuidar-se. Deixar-se levar pela coleira das horas livres, (re)descobrir o mundo feito um cão. Voltar a ter os olhos de menina, olhos de quem sonha e viaja mesmo sem sair do lugar. E vai longe...como vai!
E que bom saber que as estrelas, talvez as mesmas da Joyce menina, estão sempre. Um afago. Basta a gente querer ver, muito mais que olhar.

"Felicidade se acha é em horinhas de descuido"
Guimarães Rosa