domingo, 11 de março de 2012

Beijo bom




Se tem uma coisa que a gente deixa pelo caminho, enquanto tenta se encaixar, no meu caso , com a correria imposta , e nem sempre necessária da vida , é  a sensibilidade. Ficamos mais sensíveis aos maus tratos dos dias, às palavras ofensivas, aos silêncios gritantes e vamos criando uma casca de proteção que , por vezes, nos cega, feito tampão. Tira o que temos de bom, ou tenta. Perdemos a sensibilidade pela riqueza da vida, as delicadezas das horas, como quem para para tomar um chá, pausa para pensar. Ou viver?
Meu "chá" de hoje veio de uma pequena caminhada com meu cão pela rua, ao anoitecer, mais por mim do que por ele. Um caminhar lento, destes que só os cães têm, cheirando a vida. Pude sentir o frescor da noite chegando, leve brisa no rosto, em contraste com o quente exalado dos muros, bafo das horas...E entre uma parada e outra, ele reconhecendo o caminho  - e eu também de certo modo, como se fosse isso tudo novo e único - e  foi, e é , posto que  cada momento é, por si só, virgem, não vivido, mesmo que a mesmice se faça presente, mesmo que o caminhar seja outro sobre a mesma calçada, parei para olhar o céu...por impulso, por descuido. Há quanto tempo não me deparava com tantas estrelas? Ou melhor, aceitando, mesmo sem graça, há quanto tempo não elevava meu olhar, nem para cima e nem para fora de quem sou, longe de meu umbigo, de meus problemas que faço maiores que todo o céu? Lembrei..não faz muito tempo...ao caminhar pelas ruas da praia onde passei a  infância, com meu filho,  e me emocionar com o coaxar dos sapos. Voltei no tempo...Para ele , nada, para mim, tudo. Sim, sapos, até eles me emocionam porque me transportam, em segundos, para uma espécie de "País das Maravilhas", mesmo sem ser Alice. Meus coelhos são outros...meus coelhos são sapos que viram príncipes, sim, e sem precisar de beijos a dar.  
Meus chás foram muitos essa semana. Vieram de sorrisos encontrados, de olhares brilhantes, da criança falante que sou pondo o seu mundo a rodar, numa semana para lá de corrida. Minha menina estava lá para ver a lua linda e cheia  brincando de esconde-esconde entre os tantos prédios da "pauliceia desvairada", naquele momento, pelo menos para mim,  "pauliceia poética" . Ou "pauliceia brincalhona"? Fiquei entre risonha e emocionada com minha ingênua descoberta: sim, a lua nasce para todos, para os de janela fechada, os de janela aberta, os que andam olhando tão somente para o chão ou para seu próprio nariz...
É disso que eu falo, dos presentes da vida, dos beijos na testa que o dia nos dá...Mas para recebê-los , não diria mais que é preciso estar atento, e sim, concordando com o Guimarães, poeta que tem no sobrenome uma Rosa, é preciso descuidar-se. Deixar-se levar pela coleira das horas livres, (re)descobrir o mundo feito um cão. Voltar a ter os olhos de menina, olhos de quem sonha e viaja mesmo sem sair do lugar. E vai longe...como vai!
E que bom saber que as estrelas, talvez as mesmas da Joyce menina, estão sempre. Um afago. Basta a gente querer ver, muito mais que olhar.

"Felicidade se acha é em horinhas de descuido"
Guimarães Rosa

Um comentário:

  1. LINDO!!! Eu sou suspeita falar...sempre me encontro nos seus textos, eles sempre tocam a alma e o coração...Temos que aprender olhar a vida com os olhos da ALMA...
    Temos que aprender olhar a vida com os olhos do CORAÇÃO...
    Um não pode viver sem o outro...
    Sem eles ficamos cegos de Compaixão e Gratidão...
    Essa é Você Joyce Diehl que sabe olhar com os dois e essa união perfeita se faz os seus TEXTOS MARAVILHOSOS.

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