terça-feira, 10 de abril de 2012

Confissão



Mais de uma semana que não escrevo. São os dias que vão passando tão rápido e a gente nem para para viver, penso. E fica por vezes aquele gosto amargo do feito pela metade, meio " nas coxas", tempo feito charutos de Havana, diriam alguns...Eles, os charutos, nobres. O tempo, que voa mesmo sem ter asas, nada de bom tem.
Mas existem formas de fazer o tempo parar, existem sim, Todas belas. A gente, medrosa ou distante, ou quem sabe incorporada no mundo de forma mimética e rápida,  é que não se aproveita delas. Uma boa música nos pega pela mão e nos leva longe. Um filme, daqueles bons,  raros, que a gente até se assusta , como se acordasse de um sonho, quando acendem-se as luzes, quando aparece o the end para nos  trazer de volta. Ficamos sem chão. Sem chão e perdidos num tempo por vezes parecendo paralelo, não meu.
O tempo pára com um beijo. Pode ser momentâneo, beijo roubado ou de filho, beijo na testa de pai e mãe, beijo matinal de acorda ainda na cama. Beijo pára o tempo, pouco ou muito, conforme a paisagem que pega na viagem de beijar. Conforme o gosto que traz, sabor caseiro ou de aventura. E , se bom, leva a gente para outro espaço, bela viagem por um túnel donde não se quer  sair mais. Como se o relógio biológico disparasse e deixa-se para trás o tic-tac do dia. Ou um simples cumprimento  - dois ou três, coisas do sul . Parece, muitas vezes,  automático, muito mais fácil que abraçar.
Abraçar. Abraço. Duas pessoas cabendo quase no mesmo lugar, tentando contrariar a física. O tempo e o espaço param para receber. Encontro de corações, dizem os poetas - discretos ou disparados, conforme quem se abraça.  Tem o abraço de encontro casual e gostoso. O triste da despedida, como quem deixa um pedaço no outro. O alegre do reencontro, mistura de calor de um e de outro, encontro de saudades. O abraço rápido de amigos, quem sabe com tapinha nas costas. O demorado de enamorados, quem sabe almas gêmeas, quando não se sabe onde começa e nem onde termina. E nele, muito. Tudo, eu diria. Conforto, carinho, colo, talvez. Junção de dois em um só. Rápido de conhecidos, apertado de amigos, demorados de amores.  Parei para pensar que abraço não tem início, nem o fim, só o entremeio. Meu corpo no corpo do outro, proximidade. Intimidade. Calor. Doação. Encontro. É como se , ao abraçar, eu deixasse um pouco de mim. E trouxesse um pouco do outro em mim. Não tem o abraçador e o abraçado, somos um. Troca. Conforto. Carinho. Café com leite e bolo de mãe. Chá morno com biscoito. Leite morno ao deitar. Manta no frio. Pijama de pelúcia. Ou, conforme a definição de  Martha Medeiros:  
"tudo que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve"...
Abraço é uma daquelas coisas que se ama  - e se necessita, até - , mas é muito mais fácil fazer do que definir.
E na procura , desinteressada talvez, de definir, Carpinejar, o Fabricio, tem razão:
abraço é confissão...

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