segunda-feira, 2 de abril de 2012

Novo


"Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova…"
Fiz desse poema de Mário Quintana, poeta que habita meu coração  - e meu peito cheio de saudades de um tempo que foi muito bom e , com certeza , o mais poético de minha vida - quase um mantra. Ou sonho. Esperança,  talvez, o que me nutre.
Mas também desesperança. Quando abro os olhos pela manhã, vejo um novo dia, sim, página de livro aberta, mas o tema é o mesmo. A procura por algo que me diferencie, me afaste do que tenho sido e não quero ser. Essa que não sou eu, na fila de espera da esperança de me ser inteira d e novo. E muitas vezes me perguntando logo cedo: onde - e quando - me perdi? Bem sei, daria para datar. Aliás me perdi, várias vezes , em doze meses de um calendário, a folhinha toda. Ou quase  num ano todo.  E no meio disso tudo, de tantos sustos e desilusões comigo mesma - a pior delas, porque interna e intransferível, quando não se tem a quem culpar - a vida me trouxe um porque absurdo. Uma nova bússola, novo barco, tudo novo. E isso já fazem quase 18 anos...
Então, quando abro meus olhos pela manhã - e antes disso,  geralmente despertada pela verdade , ali, crua e barulhenta, uma realidade que não é mais minha - se é que foi algum dia - lembro quem fui, quem sou e quem quero  - e vou  - voltar a  ser. Por isso me vêm essas palavras de Quintana, um homem dito como solitário - como todo poeta e todo dito intelectual ? Para que companhia se eles tem  o dom das palavras, e o infinito mundo delas  a desvendar -  e juntar e afastar?  - morador de um hotel, coisa que soa impessoal, mas não é, posto que lá tem  mais vida que muita casa...Sim! Cada dia é uma nova página. Cada dia é uma nova vida. Não, nada de mesmice nisso: quem faz  a mesmice somos nós, medrosos de coisas novas, pelados de aventuras, desprovidos de vida dentro de nós. Nós é que nos fadamos a levar a vida, bem longe de vivê-la, de vivenciá-la. Deve ser por isso que um ano se divide em meses, estes em dias, que se dividem em horas, minutos segundos e outras divisões que nem cabem na minha cabecinha desprovida de grades curiosidades científicas.  Deve ser por isso que a gente envelhece: para ver outras coisa, ter que gostar de outras coisas  e esquecer outras, como de nós mesmos, diferentes a cada dia.do que fomos, do que não vamos voltar a ser. Não fisicamente, que é o que nos move, erroneamente. Nosso interesse parco pela casca das coisas, enquanto a vida está dentro. No recheio das coisas, no que temos dentro, no que somos - não no que temos. Deve ser por isso que nossa vista vai piorando, como quem não quer se ver. Deve ser por isso que nossa pele enruga,  como se faltasse recheio. Deve ser por isso que apegados ao espelho dos dias, deixamos de lembrar que, sim, cada dia é novo, único, e nem nós somos os mesmos, nem nós...
Bom pensar como o poeta : cada dia um novo livro. Não, não há pressa em terminá-lo, apenas de dar a ele começo e meio. dar-lhe conteúdo, trama, drama. O fim? Ah, o fim vem depois, somando tudo o que conseguimos viver. Nem que seja num só dia...Cabe tanto nele! A gente que não se deixa ver!
"Se me fosse dado um dia, outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente 
e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente
 e diria que eu o amo..."
Mário Quintana

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