quinta-feira, 3 de maio de 2012

Eu?

Se você não se distrai, o amor não chega
A sua música não toca
O acaso vira espera e sufoca
A alegria vira ansiedade
E quebra o encanto doce
De te surpreender de verdade
Se você não se distrai,
Não descobre uma nova trilha
Não dá um passeio
Não rí de você mesmo
A vida fica mais dura
O tempo passa doendo
E qualquer trovão mete medo
Se você está sempre temendo
A fúria da tempestade


Começo meu texto hoje com esse poema cantado - Distração, de Zélia Duncan, concordando com Guimarães Rosa, o poeta dos escritos, que fala que " a felicidade se acha em horinhas de descuido".
Sou obrigada  concordar. E a  cada dia mais acredito nisso, como se a própria felicidade precisasse me provar isso. Sim, ela vem quando menos se está desatento, quando menos se pensa no assunto,  seja lá qual for o assunto que nos apresente a felicidade - feita, ao me ver, de pequenos pedacinhos do dia a dia, belíssima colcha de retalhos - o patchwork dos chiques. E aparece das formas menos esperadas, nas horas  mais distraídas do dia. Quanto estamos olhando para outro lado focando em algo mais longe. 

Lembrei de minha mãe por dois motivos. Primeiro, que ela sempre me ensinou que deveríamos , sempre, cuidar mesmo das "roupas de baixo", "porque nunca se sabe";. ela pensando em desgraça...e eu, depois de anos, pensando o que para ela seria "besteira". Ou não, porque se depilava todo santo dia  - e nos dias santos também, talvez pedindo perdão em pensamento. E em segundo lugar, um vice, diria, lembro das tantas em tantas partes de tecido guardadas - hoje são os restos de lã - para, então, num dia de inspiração - ou tempo - recortar quadradinhos perfeitos e ligar uns aos outros, cuidando para que ficasse o mais "misturado" possível, o mais colorido que dava. E assim me parece a felicidade : uma bela colcha de retalhos felizes, um juntando com outro, e dando conta do recado - ou da colcha. Mas o bom, mesmo, seria imaginar um dia essa colcha completa, como completa eu mesma e minhas tantas idas e vindas, meus tantos recortes de mim  e meus tudo ou nada, e me jogar nela para ser, enfim, feliz, com quem o faça por merecer deitar nela.
Peguei pesado? Não. Só fui sincera. E a verdade, minha, que poderia aos olhos tantos, que me julgam - e sem há quem o faça - ser nua, crua e sem gosto, eu tempero com meu bom humor. Minha alegria. Minha fome, melhor tempero de tudo. E minhas tantas pitadas de esperança, feito pimenta, linha forte com o que alinhavo meus dias. Porque não sei só passar pela vida. Porque não sei só viver. Porque não sei olhar sem querer. Quero mais, nem que esse mais seja pouco perto do todo que eu sonho, do tudo que amo. Mas que seja macio, colorido, aconchegante. Que eu tenha prazer de nela deitar. E rolar!

Distraída, eu? Sim! 
Se você não se distrai, a semente da felicidade não cai. Nem brota. 
Vou lá, olhar para o lado de fora...

2 comentários:

  1. Bem verdade. Todas as minhas horas de puro delírio feliz foram horas em que estava distraída. Distraída para o amor, me apaixonei. Distraída para o arquitetar, melhor criei. Distraída para a entrega, me deixei sair, pura moleca, brincando de viver. Nesses dias de tanto pensar, urge resgatar esse distrair em mim. E pior que esse distraimento não se faz quando se quer, e sim quando se esquece de tentar fazer. E se deixa ser....
    Teus textos me inspiram sempre. Obrigada

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  2. Gostei demais....vem com essa de aval nao porque vc nao precisa disso...rsrsrs
    Sou distraida por natureza, tai uma coisa que nunca pensei, se e por ser assim que tanta coisa boa acontece em mim!
    Mais uma vez vc destrincha o texto com maestria e da um conselho dos bons!Alias, varios....

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