segunda-feira, 18 de junho de 2012

BordaNdo




A gente podia poder costurar o tempo, 
bordando em cima dos erros para que eles sumissem.
Costurar as pessoas que gostamos pertinho.
Costurar os domingos, um mais perto do outro.
Costurar o amor verdadeiro no peito de quem a gente ama.
Costurar a verdade na boca dos seres.
Costurar a saudade no fundo de um baú para que ela de lá não fuja.
Costurar a auto estima bem alto, pra que nunca ela caia.
Costurar o perdão na alma e a bondade na mão.
Costurar o bem no bem e o bem sobre o mal.
Costurar a saúde na enfermidade e a felicidade em todo lugar e
ir costurando a vida, um pouquinho de esperança em cada dia
e muita coragem em cada ser. 
Janaína Cavallin

Esse texto fez uma bela festa em meu cérebro. E bordou para sempre um carinho em meu coração. Lembrei de minha mãe remendando roupas - coisa que gosta e que faço questão que faça até hoje. Coisa que me acalma só de olhar. Fica um olhar de carinho nos lindos azuis dela, como se, ao remendar, passar a agulha e trazer a linha, ela cerzisse problemas, bordasse soluções. Achasse saídas. Fechasse os buracos que a vida deixa e com tanta destreza que nem se sabe onde era o remendar. Onde fica a dor e onde fica o carinho. 
Eu sou péssima com linhas e agulhas, sejam elas de costura, de croché ou tricô. Sou uma negação nesse quesito de cuidar.  Pelo menos de roupas. Só sou boa - penso, e tão somente quando quero - com palavras. Sei buscar - às vezes, nem sempre - as certas  para as horas certas, como quem escolhe a linha da cor do tecido, o botão que combine, o acabamento perfeito para cada hora. Como quem costura tão bem que não se sabe ao certo se o que se vê é o lado certo ou do errado.  Como quem nem acredita que falou tudo aquilo. Como se abrisse o coração e deixasse sair todo o lado bom de mim. 
Voltando ao texto, seria bom costurar o tempo. Esconder o que não gostamos de viver, ou de lembrar o que vivemos - sem lembrar que eles, os "maus" momentos, ficam lá exatamente para lembrarmos de " como não fazer".  Para lembrarmos que a tal costura do tempo ficou mal feita, retorcida, algo a não se orgulhar.  Melhor ainda bordar  - ao invés de simplesmente costurar  - o perdão na alma e a bondade na mão. Assim, seríamos mais leves e mais lindos. Bordar também a auto estima com cores harmoniosas, que não desmanchem, nem desbotem jamais, nem com o sol mais castigante, pois vem dela toda a nossa alegria de viver. O bem sobre o mal,sempre, deixando o bem bem mais bonito. E, claro, fazer exaltar no bordado a alegria, fortalecendo a saúde e trazendo a felicidade que só a esperança nos traz.
Mas, relendo o texto, repensei. Costurar os domingos, não sei, posto que amo os dias pelo que são e não pelo o que são. Segundas podem ser domingos radiantes de sol, desses  de piquenique, dependendo do bordado que vem. Costurar o amor verdadeiro no peito  de quem ama, começaria comigo mesma - ninguém ama ninguém que não se ame ( confuso?). Costurar verdades na boca das pessoas nem sempre convém: muitas podem ferir e abrir buracos  na camada de ozônio dos sorrisos, marcar feito tato que não sai da alma.  
Ah, coragem...essa deveria ser costurada de forma a nunca mais se soltar. Bordada de forma linda e viva no peito, para afastar toda dúvida, todo mal,  freios dos dias. Nunca nos deixar na mão. Nunca enfraquecer, nem  nos fazer deixar de sonhar. Porque eles, os sonhos, sim, dos mais simples ao mais loucos, em pontos simples ou rebuscados,  quase folclóricos, são os bordados mais lindos que se pode carregar...

domingo, 10 de junho de 2012

Sintonia




Com quem escolhe uma estação de rádio - e sempre escolhemos a que nos deixa bem - tento, na medida do possível, sintonizar-me com o lado A das coisas, como digo. O lado bom ( sem preconceitos, poderia ser lado B de Bom...mas sigo a "regra" bem dita...enfim, tanto me faz!). Se algo não está bom, o que se tem que fazer é parar para pensar os porquês.  E volta a meia eu me assusto ao ver me autopunindo, meio flagelo, açoitamento interno. Escolhendo caminhos que eu já sei onde vai dar - por vezes os mesmos atalhos, as mesmas paisagens descoloridas conhecidas. Ou, tanto pior, me deixando levar pela mesmice dos dias - e dos meus pensamentos e ações, tanto pior. Tantas e tantas coisas eu faço  - e depois me pego pensando " de novo, Dona Joyce?".  Uma cobrança por vezes imediata, durante, como quem puxa o freio de mão na emergência - ou quebra o vidro do alarme de incêndio. Tantas  e tantas gavetas internas que já andavam limpas dentro de mim e eu , teimosamente - e muitas vezes  tentando me enganar, feito cigana na esquina, ponho de volta algo já descartado( ou que deveria ter sido...).
Tem coisas que a gente repete porque são boas. Vai além porque faz bem. "Passar da cota" de vinho quando se está em boa companhia, por exemplo. Ou comer um pouco a mais porque a conversa está boa. Falar umas besteiras é bom, rir de piadas inteligentes também. Trocar mensagens com ex amor. Esses "exageros" podem trazer um relaxamento precisado. Uma melhora na auto estima, essa "maledeta" que vive se esquivando da gente. Como saber dosar? Ah, a gente sabe -  sabe sim! Mas faz que não. Basta ouvir o corpo  -  e o coração. Ele avisa -  pelo menos o meu, um "chato de galocha", como se diz no sul. Meu anjo da guarda - ou minha consciência, ou seja lá no que você acredite - me puxa a orelha. Na hora! E minha intuição, então??? Vive me falando o que devo e o que não devo falar ou fazer. E, "batata"( nunca entendi porque se diz isso por aqui, quando se está certo de algo...): está sempre certa. E sobra para mim a  discussão interna depois...o sim e o não,  os tantos porquês, as mil e uma perguntas de sempre. Nunca o "talvez", o "quem sabe" o, foi só desta vez", e ainda o "releve, foi a última " para me aliviar a mente...

Mas, discussões à parte, e voltando a o que nos ajuda  - e não o que pesa -, dado que hoje é domingo ( dia que me escrevo, como quem passa a limpo a semana  - e  a vida! - que se foi) -  , faça de conta que a sua  vida é um rádio. Escolha. Livre arbítrio, já ouviu falar? Sintonize-se com as coisas boas da vida. Sinta seu coração e escolha: uma música calma, se for preciso isso. Ou animada se você estiver "pra baixo". Ou , em certas ocasiões, pelo menos com o lado melhor - ou o que tem algo a dizer , a avisar, a acrescentar, ensinar até. E sempre tem. Ah, não duvide, nem seja cega ou surda: sempre tem! Nem sempre é o que se quer ver  - ou escutar, ou sentir.Mas tem. O mundo conspira sempre ao seu favor... mas desde que você deixe...Ame-se mais, ouça mais seu coração,  liberte-se dos seus preconceitos, abra-se para o novo,  converse mais com seu amor ou seus amigos. Ria mais, o que, segundo Osho, vale como uma prece. Sorria sempre, mesmo que só por fora - porque o sorriso de dentro  vem. E, acima de tudo,  dê mais chances a você mesmo de ser feliz! Ou de errar, o que também tem seu lado bom.

Então, é isso: escolha bem sua estação. Ou desligue-se - "desplugue-se" - por uns instantes, se não houver nada de bom...A vida sempre há algo melhor para dar!

 Mas, se há consolo, e por vezes é o que a gente precisa, feito colo, hoje vem de Clarice Lispector, uma mulher que, ao que parece, nunca se arrependeu na vida...(será?)

"Perder-se também é caminho..."

E nada como um dia após o outro para fazer esquecer... e nada como uma vida após a outra para ensinar...

domingo, 3 de junho de 2012

Sagrado



Está virando coisa comum escrever aos Domingos. Deve ser essa incerteza das horas soltas. Ou o silêncio, esse companheiro tão bem vindo e tão difícil de se encontrar - lá fora e dentro de mim. Ou porque é dia de louvar ao Senhor. Dia do Sol. Ou seja, dia de paradas para se entender com o complexo mundo e com a gente mesma. 
Ontem tive que me conter tamanho entusiasmo sobre "o" livro...Não, não é "um" livro, e nem muito menos qualquer. Parei no meio, como quem toma fôlego. Como se precisasse de coragem para seguir adiante. Como se o autor tivesse entregue em minhas mãos sua vida toda, escancarada e sem máscaras, carne viva, e dissesse: lê e depois vê se vale a pena. Se valho a pena. Como se ele mesmo duvidasse de sua capacidade - de escritor e de sobrevivente - não eu. Como se eu tivesse alguma dúvida sobre. Dúvidas, meu caro autor, tenho, muitas e sempre, mas a vida se encarregou de me ensinar a ser feito pescador: ponho o barco  na água, sim, mas não sem antes rezar. Ou assuntar o mar. E vou tentando entender as marés, já estudadas de longe, ainda  na praia, pés na areia, olhos no céu. 
Devem ser seus olhos azuis...novo horizonte.
Mas como todo pescador que se preza, arrisco. O vento pode virar, bem sei, e a qualquer momento, dado que não somos nós os donos do mundo, nem seu mestre, nem mandatários. Somos meninos, pés descalços, se deixando levar. Sinal da cruz , pensamento dentro, e lá vamos nós, enfrentar as ondas dos dias. Confiantes no pai, como a criança que fomos, e somos. No que ele nos ensinou - e ensina, para quem tem vontade de ver, mente aberta, cabeça baixa esperando a benção. Eu, uma eterna estudante da vida, nunca me sinto pronta, nem sábia, sobre nada. Aos teus olhos posso parecer arrogante, corajosa, destemida, mas não. Menina, como sou em teu colo. Como sou em teus braços. Só viro mulher quando me afronta a vida em relação aos que amo, como quem protege a prole. Como quem morre por ela. 
Mas voltando ao livro, sinto uma mistura de ânsia e medo da descoberta. Mergulho sem titubear. olhos vendados. Sem receio do que vem por ai. Mas não é sempre assim? Viver não é mesmo tatear no escuro? E quanto mais escuro, mais atentos, pupilas dilatadas - quando meu azul some. E não é no escuro que misturamos as emoções, essas tantas, que seguramos com força a luz do dia, de peito aberto e desviando do mundo? Leio tuas páginas e me sinto menor. Pequena. Medrosa. E ao mesmo tempo enorme, confiante, não pelo que sou, mas pelo que fazes de mim. Pelo que me crês, pelo que me vês. Quando te apequenas para me fazer sentir melhor. E quando cresces, agigantas, como quem me protege e cuida. Quando pões teu farol iluminando o meu, quando fazes girar as hélices dos ventos e me trazer energia, dando rumo a vida, dando força ao mundo.
Não, não,  caro autor, não temas, não vou me apaixonar. Não porque não mereças, nem porque temos freios. Mas porque eu não mereço. Tuas asas são enormes, teus vôos longos. Eu ainda bato asas à beira da praia sonhando em como seria bom saber - e merecer - te acompanhar, bela viagem.

não pode ser pecado
ou errado
algo tão perto do perfeito
e do sagrado

Fábio Rocha