domingo, 3 de junho de 2012

Sagrado



Está virando coisa comum escrever aos Domingos. Deve ser essa incerteza das horas soltas. Ou o silêncio, esse companheiro tão bem vindo e tão difícil de se encontrar - lá fora e dentro de mim. Ou porque é dia de louvar ao Senhor. Dia do Sol. Ou seja, dia de paradas para se entender com o complexo mundo e com a gente mesma. 
Ontem tive que me conter tamanho entusiasmo sobre "o" livro...Não, não é "um" livro, e nem muito menos qualquer. Parei no meio, como quem toma fôlego. Como se precisasse de coragem para seguir adiante. Como se o autor tivesse entregue em minhas mãos sua vida toda, escancarada e sem máscaras, carne viva, e dissesse: lê e depois vê se vale a pena. Se valho a pena. Como se ele mesmo duvidasse de sua capacidade - de escritor e de sobrevivente - não eu. Como se eu tivesse alguma dúvida sobre. Dúvidas, meu caro autor, tenho, muitas e sempre, mas a vida se encarregou de me ensinar a ser feito pescador: ponho o barco  na água, sim, mas não sem antes rezar. Ou assuntar o mar. E vou tentando entender as marés, já estudadas de longe, ainda  na praia, pés na areia, olhos no céu. 
Devem ser seus olhos azuis...novo horizonte.
Mas como todo pescador que se preza, arrisco. O vento pode virar, bem sei, e a qualquer momento, dado que não somos nós os donos do mundo, nem seu mestre, nem mandatários. Somos meninos, pés descalços, se deixando levar. Sinal da cruz , pensamento dentro, e lá vamos nós, enfrentar as ondas dos dias. Confiantes no pai, como a criança que fomos, e somos. No que ele nos ensinou - e ensina, para quem tem vontade de ver, mente aberta, cabeça baixa esperando a benção. Eu, uma eterna estudante da vida, nunca me sinto pronta, nem sábia, sobre nada. Aos teus olhos posso parecer arrogante, corajosa, destemida, mas não. Menina, como sou em teu colo. Como sou em teus braços. Só viro mulher quando me afronta a vida em relação aos que amo, como quem protege a prole. Como quem morre por ela. 
Mas voltando ao livro, sinto uma mistura de ânsia e medo da descoberta. Mergulho sem titubear. olhos vendados. Sem receio do que vem por ai. Mas não é sempre assim? Viver não é mesmo tatear no escuro? E quanto mais escuro, mais atentos, pupilas dilatadas - quando meu azul some. E não é no escuro que misturamos as emoções, essas tantas, que seguramos com força a luz do dia, de peito aberto e desviando do mundo? Leio tuas páginas e me sinto menor. Pequena. Medrosa. E ao mesmo tempo enorme, confiante, não pelo que sou, mas pelo que fazes de mim. Pelo que me crês, pelo que me vês. Quando te apequenas para me fazer sentir melhor. E quando cresces, agigantas, como quem me protege e cuida. Quando pões teu farol iluminando o meu, quando fazes girar as hélices dos ventos e me trazer energia, dando rumo a vida, dando força ao mundo.
Não, não,  caro autor, não temas, não vou me apaixonar. Não porque não mereças, nem porque temos freios. Mas porque eu não mereço. Tuas asas são enormes, teus vôos longos. Eu ainda bato asas à beira da praia sonhando em como seria bom saber - e merecer - te acompanhar, bela viagem.

não pode ser pecado
ou errado
algo tão perto do perfeito
e do sagrado

Fábio Rocha


6 comentários:

  1. E não é errado mesmo....mas onde encontro esse livro ??? Depois dessas palavras lindas, estou louca para ler...
    Beijos

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  2. Vamos ver se os deuses nos permitem rssssssss
    Beijos!

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  3. Minha querida...que lindo esse texto! Estás cada dia melhor, mais intensa, mais entregue!
    Sublime! Colocastes tua alma nele, entregastes teu coração! Quem puder que faça por merecer essa mulher lindíssima por dentro e por fora!
    Samuel

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  4. Continuas única...intensa...linda...radiante...vais longe com essa tua alegria de viver...
    Sou grato por ter tido a oportunidade de ver esse sorriso, a luz desses olhos, de conviver com essa energia...
    Fazes falta

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  5. " Este livro passa a limpo a vida...e coloca joio e trigo em um mesmo plano para que seja possível vê-los de pronto.

    A senhorita Diehl coloca, como no livro, os ventos em uma direção nova, porém uma salutar direção. Amigável diálogo e maravilhoso entusiasmo.

    Se for possível, permito que trechos do livro sejam aqui divulgados, para podermos ver se os parágrafos nos propõem novos rumos.

    Agradeço o diálogo direto e a sinceridade carinhosa."

    Ass. O autor
    (Charles Roderic)

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  6. Charles, quanta honra!
    Bom revesar esse diálogo autor/leitor! Um incentiva o outro, coisa rara no mundo de hoje.
    Mergulhei em seu livro sem me preparar, por puro entusiasmo... sem pegar fôlego, mas já esperando tudo, muito.
    Gosto quando um livro me afronta a devorá-lo de uma bocada só. Mas a vida tem me ensinado a degustar, sempre que possível, sempre que a gula não tome conta de nós. Tatear. Ou, como diria minha avó, molhar os pulsos e a nuca antes de mergulhar no mar, como quem avisa o corpo do que virá. Assim fiz, mas feito menina desajeitada e apressada, ansiosa pelo convite.
    Como quem gosta, voltarei. Porque o mar - e um bom livro - carecem se muitos e muitos mergulhos. Num desses, prometo recolher tesouros e voltar a postar!
    Sua leitora
    Joy

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