quarta-feira, 11 de julho de 2012

Alegre




 A vida hoje me pediu paciência... e eu dei... mas sem deixar de ser perseverante...

Feito a chuvinha fina e constante que cai, desde cedo, sempre igual, meio mantra, deixei a vida me molhar, sim, mas atenta...porque as oportunidades passa, feito bondes -  e ventos -  únicos, e não se sabe quando vem o outro - nem se vem!

Chuva é sempre bem vinda. Se fraca, molha aos poucos até encharcar. Se muita, assusta, mas leva o lixo das ruas e dos rios - e sabe-se lá onde vão parar. Se com raios e trovões, lembro de minha mãe que contava que era o papai do céu mandando os anjos arrastarem as camas para uma bela faxina. E gostava de imaginar o céu limpinho, perfumado, enquanto os anjos tomavam banho e sopa antes de rezar e, enfim, dormir. Eu mesma, desde então, sempre liguei chuva e temporal com limpeza - dos céus, da terra e da alma. Deixar tudo limpo e arrumado, tudo bem dosado, bem e  mal, bom e ruim, porque tudo na vida precisa de equilíbrio. Não se dá valor ao bom se não se convive com o ruim - e vice-versa. Simples assim.
Tenho remexido a terra, que andava ressecada por falta de chuva e de trato, por descuido. Descuidaram de mim e por isso me esqueci lá, terra rachada. E foi bom ver que, mesmo sem pressa e sem pretensão, minha terra voltou aos poucos a ser colorida, perfumada, produtiva. Mesmo o solo mais fraco se fortalece com a chuva. Mesmo o canto mais inerte desabrocha ao menor sinal de água. Mesmo no asfalto, onde ainda existe terra - um raso torrão que seja - se a chuva encontra o solo, até flor dá. As plantas vêm , teimosas e rudes, em qualquer lugar. É a busca do seu lugar ao sol. Como eu. Porque há vida dentro de mim. Porque muitas flores vão vingar, desde que eu queira. Desde que eu deixe. Semeei muito, muitas flores, de todas as cores e perfumes. E tenho tratado todas com carinho, umas mais outra menos, seguindo tão somente meu coração...
Hoje choveu, lento e insistentemente, feito choro. Mas amanhã é outro dia - e de sol. Senão lá fora, dentro de mim. Porque amanhã eu mesma serei outra...quem sabe a chuva veio só para preparar a terra para que eu possa florescer de novo?
A vida é um presente. O de hoje veio em papel pardo, e mesmo assim eu abri e fiz dele bom proveito. Tomara o amanhã venha embalado em papel florido e perfumado...quem sabe com laço de fita?


"Os tristes acham que o vento geme.
Os alegres acham que ele canta."

Luiz Fernando Veríssimo



domingo, 8 de julho de 2012

Chão



Tem muita gente que me acha sonhadora, cabeça de vento. Sou, pois são os sonhos que me movem. Sem sonhos e sem esperança, para que levantar da cama, se o filho já sabe fazer o café?
Sonho, sim, sempre e  muito. E são sonhos atrelados, como quem monta uma casa, uma peça ligada a outra, um caminho entre elas, mobiliadas cada uma em sua vez, e enfeitadas aos poucos. Não sonho sonhos prontos, como quem compra uma casa mobiliada.  Não os nomeio, nem os declaro prontos, nunca. Meus sonhos são vagos, como vagos os meus pensamentos em relação a eles. Mas sonho de leve, como quem não espera muito. O pensamento lá longe, mas dentro da cabeça, mistura dosada de real e irreal.  
Quando a gente espera muito, feito quem fixa o olhar no relógio, o tempo não passa, as horas travam, o pensamento congela. Põe-se muito foco e não se vê em volta. Fixa-se o olhar de forma fechada, como se usasse um binóculo.  E não se vê que outras paisagens - e outros sonhos, bem próximos, estão logo ali do lado, sem nem se sair do lugar. Vejo o horizonte, mas sem ver onde piso. Olho para frente, mas sem deixar de olhar para o chão. Ponho o olhar no futuro, mas não sem viver o agora. Gosto de coisas apalpáveis, de sonhos construídos, de sonhar aos poucos, como se montasse um castelo, como se desenhasse para ser melhor entendido. O chão, depois as paredes, telhado, portas,  janelas e ai, sim, belo jardim. Não sonho com "o" sonho e sim "um" sonho, detalhes da língua que nem sempre nos damos conta, mas mudam tudo. Se aquele amor não está disponível, entendo nele o que procuro e abro os olhos olhando ao redor. Uso caminhos diferentes, novos, saio do asfalto de todos e construo os meus atalhos, belos e outros,  e só meus. Quem sabe assim acho o mesmo amor, agora despertado exatamente porque não o trilhei? A mesma paisagem procurada, mas agora  por um ponto de vista só meu?
Tenho que concordar: sonhar visando algo, mas viver distraído, como quem procura algo que nem sabe bem o que é...como quem constrói um atalho nunca usado...e acha um paraíso só seu. Quem sabe até os sonhos mudam...
Só uma  coisa é certa: ninguém pode sonhar por mim...




“É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê…"
Los Hermanos





sábado, 7 de julho de 2012

Asas




Intimidade é quando a vida da gente relaxa 

diante de outra vida e respira macio. 

Não há porque se defender de coisa alguma 

nem porque se esforçar 
para o que quer que seja. 
O coração pode espalhar os seus brinquedos. 
Cantar a música que cada instante compõe. 
Bordar cada encontro com as linhas do seu próprio novelo. 
Contar as paisagens que vê enquanto cria o caminho. 
Andar descalço, sem medo de ferir os pés.


Essa graça de poema, simplicidade e verdades doces sobre o  amor, é de Ana Jácomo. E como sei. E como é bom. Acredito no que dizem que intimidade não é sexo: é dormir junto, cada um com seu jeito de deitar na cama, cada um com seu ronco. É dividir a bancada do banheiro, a roupa no armário. Que intimidade é sexo, sim, mas seguido de  boa conversa ou pernas entrelaçada. Intimidade é nem precisar olhar para saber tudo o que o outro vai falar, tudo que o outro sente, tudo que o outro oculta - muitas vezes para não magoar. 

Intimidade, penso, é cumplicidade. É poder falar tudo, com jeito para não magoar, mas  com a certeza de ser compreendido. É se desculpar até quando nem se sabe de tem culpa. É cair na gargalhada quando o outro erra -  a fala ou a comida. Intimidade é deixar o outro dormir quando cansado, escutar quando eufórico, animar quando caído. É não julgar, para não ser. Dar asas, não aprisionar.

Quero para mim esse amor simples. Sem firulas. Tipo café com leite, pão de casa com manteiga e deixá-lo virar bom vinho em certas horas, nas horas certas. Saber quando é dia de roubar um beijo "caliente" e quando é melhor dar beijo na testa. Quando o outro quer uma passada de mão ou um abraço demorado. Amor é simples, a gente que atrapalha...




Eu só quero ser feliz 

e viver tranquila. 

Eu só quero fazer minhas coisas 

da melhor maneira possível 
e ter um moço bonzinho 
que me leve ver o pôr-do-sol 
no fim de tarde.

Tati Bernardi