sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Amando...





Amar só se aprende amando. Escrevi porque acredito. Isso é fato. 
E só se aprende treinando, amando, amando amando a cada dia mais. 

Mas não como coisas comuns, como andar de bicicleta. Ou fazer arroz. Ou quem sabe boa caligrafia, coisa que também amo, lembrando dos cadernos para tal  - e dos tantos e tantos treinos, que nunca deveríamos ter deixado de lado. Porque para cada amor - e tomara achemos, um dia, o último - um jeito novo de amar. Porque amar pressupõe duas pessoas diferentes, mas interessadas e dispostas, cada uma pensando do seu jeito, sendo do seu jeito, mas se aninhando com a outra, achando pontos em comum, entrelaçando-se sempre que dá...entendendo os pontos que não são comuns, fortalecendo os que são...e vendo no que dá!
Amar é isso. Verbo intransitivo em constante ação, pois só se ama vivendo o amor, vivenciando o amor. Mas eu me interesso aqui pelo amar somente num tempo: presente. Se amei, bom, aprendi. Se vou amar, e até quando eu vou , bom, isso é lá com o tempo, já tenho eu muitas preocupações. Meu interesse, repito, é pelo hoje, meu presente, belo embrulho. Quem sabe amanhã, ou semana que vem? Bom sonhar - verbo sempre no futuro -  posto que sonhar é imaginar,  portanto, longe -  com um amor que dure. E melhor ainda sonhar com esse amor como último, sonho de tantos. 
Morrer de amor? Lindo, sim, mas não, não quero morrer, nem de verdade, nem de amor. Quero é estar bem viva para vivê-lo da melhor forma, da forma que quero para mim. Não, não quero amor eterno, quero amor que se eternize a cada momento - do olhar atento antes do beijo à risada que relaxa. Quero se eternize a todo eu te amo que me sai e que me entra. Não, não quero amor sofrido, isso eu deixo para os poetas: o meu quero querido, leve e divertido. Complexo, mas leve. Nem platônico, saído de um livro: quero que ele mesmo seja um livro de páginas em branco em que se faça colorido. E que eu sorria a cada final de dia, a cada página querida, como quem admira belo desenho. 

Quero amor verdadeiro. Pode ter discussão, sim, pois sou humana e não personagem, mas que termine em beijo, depois de saturada a coisa a contento e com bom senso. Quero amor verdadeiro. Que me complete não porque me falte algo, mas que me complete porque me melhora, me acrescenta. E que isso seja via de mão dupla. Porque não quero um super herói, mas um simples homem, que tenha de superlativo só o que me sente e que em faz sentir.

Por isso que eu digo: amar só se aprende amando...simples assim...
( eu disse simples?)



"Faça o que for necessário para ser feliz. 
Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, 
você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. 
Ela transmite paz e não sentimentos fortes, 
que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. 
Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade "

Mário Quintana, sempre certeiro...sempre honesto...

sábado, 18 de agosto de 2012

Meninice



 Muitas vezes já me intitulei menina em meus textos por ai, e não falo isso por falsidade ou maldade. Nem criancice, nome tão cheio de "ces". Creio piamente ( e sabe-se lá de onde vem essa horrorosa palavra) - ou melhor dizer ingenuamente - que  a sou. 
No alto ( ou baixo?) de meus quase meio século de vida -- entre bem vivido  e mal vivido, mas nunca neutro - ainda me vejo menina que tem muito a aprender. Disso vivo. Deve ser por isso esse nunca silencio dentro de mim, nem quando durmo ( ando conversando comigo mesma, as muitas que sou, em sonhos...). Sou aquela mesma menina - cabelos tão brancos quanto a pele e olhos da mãe - que passeava de mãos dadas com o pai invadindo obras ( para depois desenhar plantas na areia da praia e brincar) . Ou que dançava com meus pés sobre os dele, mistura de magia, diversão e confiança.  Ou que  falava sozinha com suas bonecas na casinha montada debaixo da escada, escuro para os outros, claridade para mim. 

Sou menina ainda. Tenho tantos sonhos em mim, tanta esperança, que por vez acho que ainda sou - mesmo! - aquela menina que falava sozinha brincando com ela mesma, na claridade da rua ou na escuridão da escada.

Vivo como se a vida fosse uma eterna aventura de sonhar... me jogo ao mundo como quem se joga ao chamado do pai, como quem atravessa  a rua de mão dada com a mãe. Como se muita gente fosse meu pai, muita gente fosse minha mãe. Como se o mundo fosse meu tutor. Como se devesse crer, sempre, mas sempre com um pezinho de estepe como me ensinaram certa vez. 
O mundo de adolescente me fez ver a verdade do mundo  fora do patio de minha casa. Um mundo sem a sombra de meu pé de goiaba, sem cachorro latindo no portão ao menor sinal de perigo. Um mundo que me veio sem aviso, nem cerimônia, do tipo "vai!". E eu fui, malinha na mão, como quem confia na própria sorte traçada - que hoje chamo de anjo da guarda, para quem rezo feito criança pedinte toda noite. Fui, confiando em sem lá quem, meus pais confiando no que me deram, DNA e base. E descobrindo que o mundo real não tinha tanto sonho, mas mesmo assim eu os fazia.
Na vida, tenho teimosia de menina mimada. Corro atrás até de perigo. E uma alegria de viver que irrita aos velhos de coração. No amor, tenho em mim confiança de menina em cabeça de mulher, alma alegre em corpo maduro, uma mistura que por vezes assusta por diferença de ser, polaridades múltiplas, nada enfadonhas. Vejo no amado a luz do dia, a parte a ser traçada. E é essa mistura já pelo outro desenhada, de razão e emoção, de sensibilidade e raciocínio, tudo muito bem dosado com intuição, que me faço valer. Cada centavo ou cada beijo. E  a cada dia um mesmo, mas renovado, jeito de me ser... distraída...




O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distração vivermos assim. Com tanta sorte. 


Miguel Esteves Cardoso

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Viva




Hoje levei um susto: faz quase um mês que não me escrevo. Que não me curo. Não me adoço. Na verdade, tem acontecido tanta coisa em minha vida nos últimos dias , em poucos deles, que me firo, me machuco e me curo ao vivo, remendando com pensamentos minha dúvidas, sem precisar de muitas palavras. Ou, sim, de muitas, mas internas,essas nunca caladas. Fico em silêncio sempre que meus mundos  berram dentro de mim.
Tenho descoberto que essa camada que se usa de ser forte tem lá suas vantagens e suas desvantagens, como em tudo - ou quase - da vida. Tem um lado bom e um lado ruim, como eu sempre digo que tudo tem. Muito bom às vezes poder se ser por inteira. Poder ser humana. Poder ser, sem passar pelo crivo de ser taxada de nada. De se rotular, como tenho medo. Viro mulher quando amo. Por vezes menina, dada a insegurança de não se achar sendo na mesma proporção. Viro humana quando sinto um aperto no peito que me sufoca. Ai, melhor deixar sair - pelos olhos, pelos poros e pela boca. Ou escrever. 
Quer coisa mais polida? Mas tão longe da mágica do vivo...
Três palavras que se segura só quando realmente se quer dizer. Três palavras que saem fácil quando se diz por dizer. Por encantamento. Por emoção. Em um momento mágico. Ou em cena de qualquer filme, muitas vezes ensaiada.  Mas quando é sentimento interno, cravado no peito apertado, demora sair da caverna de dentro e rolar pela língua a espera do beijo receptor, do olho aprovador, do espelho de sentimento, do coração onde se quer plantar o mesmo amor, feito semente. Quase se cospe a frase amada. Quase se tosse sem pôr a educada mão tapando a boca, na esperança que entre sem restrições o vírus na boca alheia. Sai baixinho, como quem tem medo de ser escutada, como quem insulta a pessoa amada. Ou medo de reprova. Sai num rompante quando letras escritas, não faladas, pela distância de não vê-la entrar pelo olho do outro, na esperança de ganhar morada. Se entrar feito poema e fazer bonito. 
Mas, esqueçam, não amo feito poeta. Amo feito gente, desse jeito tosco que só gente sabe amar. Amo feito quem planta. Amo devagar, como quem reconhece terreno, olha o céu, escolhe a semente certa para o certo torrão , e a abre com os dedos, afaga, enterra, devagar, de leve, soterra, sem nem a  terra entender o porque. Sem nem a terra dar licença. Sem nem a terra amar. E se rega, cuida, alimenta. E se dá a ela seu melhor quinhão. Sua melhor cuida. Sua melhor intenção, dessas do céu e não do inferno, delas cheio, dizem.


Lenine tem razão: 

Pode ser um lapso do tempo

E a partir desse momento acabou-se solidão
Pinga gota a gota o sentimento
Que escorrega pela veia e vai bater no coração
Quando vê já foi pro pensamento
Já mexeu na sua vida, já varreu sua razão
Acelera a asa do sorriso
Muda o colorido, vira o ponto de visão

Falar  com o coração muda tudo...me põe viva!
E nua...