sábado, 18 de agosto de 2012

Meninice



 Muitas vezes já me intitulei menina em meus textos por ai, e não falo isso por falsidade ou maldade. Nem criancice, nome tão cheio de "ces". Creio piamente ( e sabe-se lá de onde vem essa horrorosa palavra) - ou melhor dizer ingenuamente - que  a sou. 
No alto ( ou baixo?) de meus quase meio século de vida -- entre bem vivido  e mal vivido, mas nunca neutro - ainda me vejo menina que tem muito a aprender. Disso vivo. Deve ser por isso esse nunca silencio dentro de mim, nem quando durmo ( ando conversando comigo mesma, as muitas que sou, em sonhos...). Sou aquela mesma menina - cabelos tão brancos quanto a pele e olhos da mãe - que passeava de mãos dadas com o pai invadindo obras ( para depois desenhar plantas na areia da praia e brincar) . Ou que dançava com meus pés sobre os dele, mistura de magia, diversão e confiança.  Ou que  falava sozinha com suas bonecas na casinha montada debaixo da escada, escuro para os outros, claridade para mim. 

Sou menina ainda. Tenho tantos sonhos em mim, tanta esperança, que por vez acho que ainda sou - mesmo! - aquela menina que falava sozinha brincando com ela mesma, na claridade da rua ou na escuridão da escada.

Vivo como se a vida fosse uma eterna aventura de sonhar... me jogo ao mundo como quem se joga ao chamado do pai, como quem atravessa  a rua de mão dada com a mãe. Como se muita gente fosse meu pai, muita gente fosse minha mãe. Como se o mundo fosse meu tutor. Como se devesse crer, sempre, mas sempre com um pezinho de estepe como me ensinaram certa vez. 
O mundo de adolescente me fez ver a verdade do mundo  fora do patio de minha casa. Um mundo sem a sombra de meu pé de goiaba, sem cachorro latindo no portão ao menor sinal de perigo. Um mundo que me veio sem aviso, nem cerimônia, do tipo "vai!". E eu fui, malinha na mão, como quem confia na própria sorte traçada - que hoje chamo de anjo da guarda, para quem rezo feito criança pedinte toda noite. Fui, confiando em sem lá quem, meus pais confiando no que me deram, DNA e base. E descobrindo que o mundo real não tinha tanto sonho, mas mesmo assim eu os fazia.
Na vida, tenho teimosia de menina mimada. Corro atrás até de perigo. E uma alegria de viver que irrita aos velhos de coração. No amor, tenho em mim confiança de menina em cabeça de mulher, alma alegre em corpo maduro, uma mistura que por vezes assusta por diferença de ser, polaridades múltiplas, nada enfadonhas. Vejo no amado a luz do dia, a parte a ser traçada. E é essa mistura já pelo outro desenhada, de razão e emoção, de sensibilidade e raciocínio, tudo muito bem dosado com intuição, que me faço valer. Cada centavo ou cada beijo. E  a cada dia um mesmo, mas renovado, jeito de me ser... distraída...




O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distração vivermos assim. Com tanta sorte. 


Miguel Esteves Cardoso

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