sábado, 29 de setembro de 2012

Banho




Minha essência é mudar.
Não me basta ser rio
se posso ser mar.

Fábio Rocha
Sou uma apaixonada por poemas. E deve ser "defeito de fábrica". Minha mãe, nos dia sem que se permitia ser invadida pelo sol da vida,  cantarolava canções  que ficaram, até hoje, passeando dentro de mim ( e ressuscitam, volta  e meia, sem nem avisar). E poemas. Textos. Sabia muitos, escrevia poucos, declamava em festas. E era nesses momentos que eu a via como lua cheia, plena luz. Eu entrei no campo das palavras que se combinavam ainda nova. Meus primeiros poemas, então passados a limpo em caderninho  pequeno que tenho até hoje, mostravam um certo trejeito. Não sei se para escrever, mas , pelo menos, para me apaixonar por palavras. 
Palavras me curam. Elevam minha'lma. Escrevo para me entender, aceitar, conviver com meus medos e minha as vitórias, meus erros e acertos. E, parte interessante, escrevo mais - pelo menos assim era até agora - quando estou triste. Ou introspectiva, porque estar triste não faz muito parte de meu calendário das horas, menina que  sou. O que me dá um certo alívio de não estar escrevendo a contento -  se não meu, dos que me leem. Estou melhor, pelo menos comigo. Porque o mundo recebia de mim meu eu passado e limpo, ou escamoteado, nem sempre o verdadeiro, as máscaras que usamos para parecermos "normais". E hoje, mais perto da plenitude de me ser, sinto que me entrego verdadeira ao dia. E às pessoas que, por ventura, caminharem ao meu lado. 
Mas, voltando ao poema Marítimo, sinto em mim essa gana de ser mais, de ser mar.  Já fui mar, ou achava que era, até um tsunami vir sem avisar - ou pelo menos que eu tenha percebido - , e virei um riozinho fraco, resquício do que eu pensava ser, arrasto de horas, seguindo o caminho ditado pelo mundo. E quantas  e quantas vezes parei de seguir meu rumo, talvez até por não sabê-lo. Ou, mais provável, por saber-me seguindo um leito que não era meu. E quantas e quantas vezes parei de correr, virando água insalubre, sem vida. E quantas e quantas vezes me deixei secar.
Não sei qual foi o divisor de águas, e nem sei se isso importa agora, mas aqui estou, mar outra vez. Se não um mar completo, límpido e profundo como quero ser, certa estou de que esse é o caminho certo. Que esse leito em que me encontro, depois da tanta espera, de tanto caminho truncado, vai me levar até ele - como são feitos os verdadeiros caminhos dos rios. Certa estou, desta vez, ao olhar para os olhos  de mar do amor e ver nele a certeza de minha escolha, do leito certo. De que esse é a minha sina, destino, sorte, seja lá o que for, escrito nas estrelas ou vindo de outras vidas. E, chegando lá, plena. A menina que escreveu sobre o mar ainda aos seis anos de idade, letra e pessoa a se firmarem pelo mundo, ainda vive em mim. Ela me sustenta, me põe no caminho leve das coisas,  me pega pela mão para me fazer ver as coisas  boas da vida,  o lado bom das coisas, a beleza que há em tudo que o mundo tem para me dar, belo mergulho. Eu?  Nado com ela ao sabor da maré, como quem brinca, sabendo quem cedo ou cedo, aporto no meu lugar...

Um comentário:

  1. Eu sou do mar....por isso entendo essas coisas de transbordar...desaguar.
    Avançar sem juízo terrenos que não seriam meus, mas assim os fiz.
    Enfim águas que nos movem, nos limpam nos preenchem, faz de nós ser quem somos e quem nos tornamos.
    bjks sempre Joy.

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