domingo, 4 de novembro de 2012

Cheia


Rita Lee tem razão - e com ela todos os homens da face da terra: as mulheres, ou melhor dizer, nós mulheres, somos, mesmo, seres estranhos. Esquisitos, diz a letra da música. Somos, sim, mas não pelo fato de sangrar apenas ( senão as "estranices" um dia terminariam..), nem pelas alterações mensais que são piadas o tempo todo. 
O maior problema de uma mulher é que ela se acha perfeita. Ou, pior dizendo: que tudo tem que ser ou estar perfeito. Tudo que ela toca, tudo que ela faz, tudo que ela fala. Tudo que ela sente, tudo que ela ama. Seu corpo tem que ser perfeito, até seu hálito. Quer exalar perfume de flor, ao mesmo tempo que quer fazer o melhor almoço do dia. Quer parecer sempre linda, mesmo que acabe de limpar a casa. Quem não faz, pensa assim e por pensar - se  - ou saber-se -  imperfeita, nem tenta. Quer ser uma intelectual daquelas, mesmo que discretamente, mas sem deixar de ser leve, fácil, entregue. Intelectualmente burra, sabe como é? Só para agradar.Se não for, se não acontecer, ela é imperfeita, duas letrinhas sutis a  mais e tudo muda.

Eu me sinto assim, e isso é  de um peso enorme. Seria bom me pesar logo ao levantar e ao final do dia, antes de tirar o acúmulo das culpas do dia após o jantar. Ou antes de deitar - e ali mais uma culpa por não estar disposta. Ou ainda caraminholando uma porcaria qualquer que o amado falou sem nem pensar ( eles não pensam, ponha isso na sua cabeça!) ainda no raiar do sol. Ou porque deitou sem dizer boa noite. Ou o filho que não vai bem na escola, ou no amor. Pela falta de disposição até de encontrar as amigas, por puro cansaço. Ou visitar os pais e a tia.  Ou fazer uma comida diferente. Ou ter paciência para escutar uma confidência. Ou, quem sabe, fazer a unha? Ou ser como se quer ser, nem que seja por um minuto? Porque não somos mais leves? Porque não somos mais livres? Porque esse jeito pesado de pensar implantado em nossa pele desde cedo? Porque nossa felicidade é tão dependente? Porque não podemos ser mais nós mesmas para variar? Porque tantos porquês?
E assim a vida segue. A gente fazendo tempestade em gota d'água, tsunami ao mexer do açúcar no copo de água doce para acalmar. Tentando entender o que não deu certo (  e possivelmente se culpando disso), porque chove ( seremos deusas?), porque o outro está quieto ou até sorrindo. Porque o filho sofre, porque a mãe sente saudades, porque o pai cobra presença, porque  a casa não está tão limpa, porque o amor pede licença para descansar. Porque faltou leite. Porquê? Porque todo mundo tem sua vida. Menos nós , mulheres, que nos colocamos no lugar de Deus para que os outros vivam bem...esquecendo até nós... porque?
Sem nem saber que seríamos bem mais amadas não por fazermos coisas, mas se nos amássemos mais...

Vem, Ana vem
Mochilinha de porquês

Que eu não sei responder

Vem, tanta gente vem

Mochilinha de porquês
Que eu não sei responder
Se eu tivesse a língua doce
Te cobria de poesia

Ai eu ressuscitaria
Aquele sol que nos queimou um dia

Mochilinha de porquês, Ceumar