sábado, 29 de dezembro de 2012

Nova





É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade


E eis que chega ao fim mais um ano...E nesse silêncio matinal, onde tão somente escuto a chuva e os passarinhos ( esses sempre de bom humor!), acordei já "pensando na vida". E na cura que esse pensar me traz.
Ano bom. O ano passado foi de catarse. Sim, foi essa palavra que me veio hoje, antes mesmo de acordar por inteiro. Matei minha curiosidade e fui atrás - não em forma de mergulho, como deveria, mas nessa correira de  mudanças pela qual passo, já me serve em momento. Catarse vem do grego ,"kátharsis", muito usada no drama, na medicina e , enfim, na psicanálise. Significa "purificação", "evacuação" ou "purgação". E não é coisa nova, invenção do mundo de hoje.  Para Aristóteles, a catarse é uma "purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama". Conforme ele, passar da "felicidade" para a "infelicidade", assim, sem aviso prévio. Aqui paro e não sei se é essa a minha palavra: nunca soube ao certo o que é felicidade. Nem ao menos saberia dizer se o que tive - ou tinha - era a tal. Gosto mais da "definição" sob a ótica da psicologia: " catarse é o experimentar da liberdade em relação a alguma situação opressora, tanto as psicológicas quanto as quotidianas, através de uma resolução que se apresente de forma eficaz o suficiente para que tal ocorra.". Ponto.
Não sei se é essa a palavra, e nem sei se deveria a ter. Quero para mim o sentimento. Estou renascendo. Das cinzas, você diria. Não, não cheguei a ser queimada em praça pública. Só resolvi pegar outro rumo, sair do leito de rio de me deixar levar para onde eu não queria. Se foi bom? Bom, digamos que o a viagem não foi lá muito confortável, apesar de ter tido lindas paisagens. E até porque descobri, ainda no caminho, que, não, não era esse o tal que eu queria pegar para mim. Não era o leito em si: eu queria era o mar. E descobri que  existem leitos diferentes , caminhos desiguais para se chegar ao mesmo mar. E que chegar ao mar ainda não é o fim da linha: há de se adaptar,  se misturar, virar água salobra. Ou descobrir, simplesmente, que se pode conviver com o mar sem deixar  de ser rio. Ser o que se quer ser, sem esquecer de  nossa essência. Fazer parte do grande mar, conviver com o mar, viver o mar em sua plenitude, sim, mas sem deixar de manter em nós as gotas do que somos. 
Tomo mais um gole do meu café, já morno, e repenso. Não comecei hoje a me despedir do que não queria para mim. Levei um ano todo. na verdade, muitos - como quem guarda tralhas desnecessárias só por pura preguiça ( ou medo?) de rever-se. Vejo que minha "catarse" demorou mais do que o necessário. Mas teve dramas tão leves se comparados ao que alcancei em termos de me conhecer que até acho graça. Meu rio vem mais cheio, mais pleno, mais cheio de vida e , apesar de  tudo, mais leve. Deve ser assim que se deve chegar ao mar: sem enfrentamento, puro encontrar...
E eis que estou eu aqui, quase em frente da porta de um novo ano que se apresenta realmente novo....novo trabalho, nova cidade, nova casa, novo jeito de viver...novo amor - por mim e pelo presente. "Empacotando " minha vida depois de tantos e tantos anos. Ou deveria falar  "desempacotando minha vida depois de tantos e tantos anos?" . Lembro que nos tempos de estudante fiz isso tantas e tantas vezes e nem sentia. Tinha pouco. Era pouco. Hoje, minha bagagem é bem maior, por fora e por dentro. Sou mais. Hoje, minha gavetas são muitas, as dos armários e a da vida. As lembranças, tantas. Esvaziá-las - com carinho, sim, mas sem medo - limpá-las e pôr de volta tão somente o que realmente interessa, ah,  não tem preço. A cada pensamento que fica de fora, melhoro por dentro. A cada pensamento que limpo e guardo de volta, vai mais carinho. Nas  gavetas de fora, só o que me cabe. Nas internas...também! 


Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo 
até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, 
se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? 
passa telegramas?) 


Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 



Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade



2 comentários:

  1. Catarse...se deixar fluir, vir a ser. Mais que a resposta, o caminho. No fundo, minha cara, temos alma de anarquistas e por isso o porto sempre nos parece inquietante. Boa vida nova com a alma mesma. Alma é perene. Alma não muda. Corpo muda. Pensamento muda. Essência de nós não. Seja feliz. Ela, a tal de felicidade, talvez se encontre justo nessa busca. Beijos

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  2. Lindoooooooooo e adoro catarse... dela brota vida nova, olhar novo. novo sentir a vida e os fatos inseridos nela... beijo querida e feliz ano que chega!
    Sandra

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