terça-feira, 15 de outubro de 2013

Muitas


Hoje madruguei ( mesmo!) em minha caminhada à beira mar. Ando me despedindo dele, aos poucos, para não doer demais, pouco nele e muito em mim...A areia nem morna estava, acho que nem acordada. O mar ainda manso, como manso o sol, mas já gostoso na pele. E enquanto dava meus passos, cabeça longe , como em oração, meus olhos não saiam do chão.Tanta coisa linda para olhar ...e meus olhos não viam mais nada com atenção. Conchas. Meu olhar de menina grudada nelas, uma a uma. A praia anda cheia, quase areia. De todos os formatos, de todas as cores, de todos os tamanhos ( menores do que as de fotos de capas de revista, mas enormes aos  meus olhos). Conchas. Longas, curtas, gordinhas ou magricelas, lisas ou rebuscadas, umas desenhando labirintos internos. Tem até concha xadrez, penso. E tem. E de listras. E penso que foi inspirado nelas que desenharam tecidos, alguns, creio. Ou que combinaram cores. Ou que repensaram cores. Inspiração. Conchas. Tantas e tão diferentes umas das outras, feito nós, que deve ter lá cada uma a sua identidade, a sua digital, algo que as diferencie aos olhos de Deus. Inteiras ou quebradas, perfeitas ou defeituosas, bem feitas ou grosseiras. Conchas. Todas diferentes e todas...conchas! Será que foram feitas uma  a uma? Será que tem alma? Será o que sentem? 

Assim devemos ser no mundo. Assim deveríamos ser. Iguais, mas diferentes - ou diferentes...mas iguais? Deveríamos ser mais iguais. Os mesmos, mas únicos, mas o mesmo no todo. Cada um de seu jeito, cada um de seu formato, cada um de sua cor. Cada um com sua crença, com seu morador interno, cada um com seu favor. Cada um, um, por fora e por dentro. E ao mesmo tempo... iguais. Perante o Pai , que as fez uma a uma, mas as trata como todas. Perante o mar, que vira mãe, as embala e alimenta. Perante os bichos que delas se alimentam - inclusive o bicho homem, direta ou indiretamente. 

Conchas. Acho-as tão lindas que queria juntar uma a uma e levar para casa. Olho-as como joias raras. Penso nela como tesouros. Guardo-as como obras de arte. Vejo a bela forma, me apaixono pela cor. E me dói - no coração e nos pés - vê-las "desperdiçadas", "descartadas", pisoteadas tantas e tantas vezes até se misturarem e virarem uma coisa só com a areia da praia ( ela que já foi pedra...). Tenho pena de pisá-las como se fossem sentir dor. Mas não. Eram abrigo, agora "nada". Eu é que dou a elas um valor... 
Conchas. Bom vê-las, assim, juntas, fazendo parte desse caminhar...

“(…) E aprendi que se depende sempre de tanta, muita, diferente gente. Toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas. E é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá. É tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense que está…”
Ana Jácomo


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Máscaras




Hoje estou num dia cheio de "nãos" e de "talvez". Talvez porque a gente , os otimistas incorrigíveis como eu, espera muito da vida e se assusta quando não dá. Mas eu prefiro um belo e sonoro "não", se for esse o caso, do que um "pausático"  "talvez".É como se o tempo ficasse parado esperando a terra voltar a girar. Historinhas do tipo " o gato subiu no telhado" não se sustentam frente a minha impaciência e transparência: o gato, no meu caso,  logo cai do telhado, nem que seja eu quem o tire de lá. 
Prefiro a tragédia de um ato do que drama interminável de novela ( coisa que detesto!). Os talvez  - e toda a sua família transgênica do "quem sabe", do "pode ser", do "vou pensar", do "amanhã te digo" me matam po dentro, deixam uma incerteza no ar que não gosto. Me deixam stand by, coisa que não sei ser - e nem quero para mim. Prefiro, nesse caso da vida real, o preto no branco. Fujo das nuances de cinzas, mais ainda dos infindáveis cinquenta tons. Parecem dia nublado, em que o sol fica naquele "vai não vai" , vou não vou", se escondendo por detrás de nuvens. Vai ou não vai? Sim ou não? Já falei muito isso, mas pouca gente acredita, dada a minha tanta poesia que sai da boca: sou prática. Direta. Curvas, para mim, só em passeio pela serra em dia fresco de verão - e sem neblina, por favor! Ou em bela estrada de chão quando saio sem destino e sem pressa, respirando o ar puro das manhãs.  Ou desviando dos tantos banhos que o mar tenta me dar em minhas caminhadas? Acho tudo isso divertido...

Hoje foi um dia recheado de nãos e de talvez. Pareciam recheios de sanduíche que não se sabe o que tem. Mas não me derrotou. Deve para isso existem os dias, muitos, e uma noite entre eles: para que a gente tenha tempo de esquecer o que "não deu" e tente tantas e tantas outras vezes...Talvez o talvez venha de outra forma, mais poético. Quem sabe o não vem numa frase de amor...talvez assim seja, talvez assim fosse, talvez tudo não passasse de brincadeira, avida comigo e eu com ela?

"Há sem dúvida quem ame o infinito, 
Há sem dúvida quem deseje o impossível, 
Há sem dúvida quem não queira nada 
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 
Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 
Ou até se não puder ser..."
Álvaro de Campos

Há, sem dúvida, quem ame a dúvida...mas eu, não!


domingo, 6 de outubro de 2013

Tum - tum - tum




"O tempo é sempre invariável. Nós é que mudamos dentro dele.
  E é disso que é feita a vida Não de tique-taques. Mas de tum -  tum -  tuns"

Escrevi isso faz um tempo. Veio sei lá de onde, esse mundo interno no qual passeio como quem caminha por entre a mata densa dos pensamentos e, volta  e meia, vê um pouco de luz, faixo breve de sol. Um breve aquecimento de alma. Um breve despertar. Com se meu eu interno respondesse a tantas  e tantas indagações que em mim fazem morada. Meu mundo interno parece mais um albergue, pousada breve de tanto entra e sai, tanto mudar de ideia. Outras fazem nele morada eterna . Um eterno que pode durar anos sem que eu mesma perceba sua permanência em mim. Quem sabe virou "da família"? Tenho pensamentos que, se revelados,  eu mesma me assustaria. Não pela profundeza e sim,  muito ao contrário: transparentes como água cristalina de riacho de pedras. Tão ali, na cara, tão ingenuamente simples que me taxariam de louca. E não é esse nosso maior medo, sermos taxados de algo? Vivemos em prol do que pensam  ou venham a pensar de nós. Vivemos para agradar ao outro , primeiros aos pais, quem sabe avós, depois os amigos, os patrões, mais tarde os amantes, um dias os filhos, quem sabe aos netos. Para satisfazer as expectativas do mundinho ao redor, nem que para isso se mate um  pouco - ou muito - do que realmente somos. Ou queríamos ser, se deixassem. Se deixássemos. Se tivéssemos coragem o bastante. Se, essa mera "conjunção subordinativa condicional"  nos condicionando tanto... Parece mais um futuro impossível. 
O tempo, ah, ele passa, vai em frente, sem nem olhar para trás. Segue sua cadência monótona e chata, que dá sono.  Preferia viver vida em meu próprio compasso. Sentindo meus batimentos cardíacos, as faltas de folego de tanto rir, o alívio depois de chorar - de dor, tristeza ou encantamento. O disparo dele ao menor olhar de mar do amor. No caminhar a beira mar, ou olhando as matas ao redor de mim, tanto faz. Ao ouvir canto de pássaro qualquer. Gosto de sentir a pulsação da vida correndo nas veias. Gosto de me saber vivendo mais e mais. Não importa o que, não importa como. Importa que sei onde quero chegar...Liberdade deve ser poder viver a vida que escolhi e  no meu ritmo, no meu tum -tum - tum, sem relógios ou condicionamentos - ou expectativas -  a me guiar.



Desperta




Domingo. Quem me conhece um pouco que seja sabe o quanto gosto dele. Mais ainda desse silêncio matutino, quando a casa e todo que a cerca ainda estão adormecidos. E muito mais ainda tendo como companhia o mar. Hoje sou eu e o mar,esse complexo mar que me traz seu canto, sua luz, sua forte imagem. Olho para essa grandeza toda e me sinto mínima. O que posso eu diante dele? O que sou diante desse universo todo que parece não ter tempo nem lugar? Veio em minha mente, quase que como resposta, o  pensamento de Madre Tereza de Calcutá

"Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. 
Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota"

Acordei com um universo de pensamentos em mim.Um mar de pensamentos revoltos feito ondas.
Minha mente viaja. E a deixo partir, porque sei que vai voltar, melhor e mais forte. Lembro de um texto espirita que estou lendo sobrea Gênese, sobre a grandeza do Universo, da Terra, dos mares. Até o enorme mar é uma gota dentro do projeto todo. E se eu for me ater a esse mais que complexo projeto, ah, sou nada. Uma partícula tão insiginificante, tão "nada".Mas sou. Somos. Madre Tereza tem razão: somos um mínimo, sim, mas fazemos parte de um Todo. E sem esse "nada " que somos, a vida , essa vida, não seria a mesma. Sem uma só gota, esse mar enorme em minha frente , para onde olho e  não vejo o fim, seria incompleto.E se pensarmos como gosto de pensar, que são tantas e tantas Terras por ai bem vividas, e tantas  e tantas vidas nesse mesma Terra e mais tantas e tantas vidas fora dela que eu mesma já tive - e terei -  que essa vida de agora, esse momento meu, que imagino enorme, tudo um átimo. Eu, um mundo todo à parte, eu mesma um universo em constante transformação - desde as células aos muitos pensares - e ao mesmo tempo tão pouco. Eu, ser único e essa vida uma passagenzinha de nada. Mas uma passagenzinha de nada que se pretende melhor do que foi, e melhorando tudo que haverá. 
Complexo? Simples, se pensarmos no todo que é. Mas assim é essa vida e a sucessão delas. Um passeio pelas "terras", onde a nossa única tarefa é fazer-se melhor, caminhos e nós. Viver melhor cada momento -  ele, sim, um minúsculo tempo. Dar para essa vida o que temos de bom. Ser melhor a cada segundo, a cada batida de nosso já meio cansado coração. Fazê-lo vibrar da melhor forma possível. Um eterno ( porém  pouco) acerto, ajustamento, crescimento, se possível. Minusculo, mas insistente crescimento, quase imperceptível, mas que alguma coisa há de melhorar. E como se diz por ai, só se cresce de duas formas: pelo amor ou pela dor. Eu escolhi crescer pelo amor, que pode ser visto como um caminho fácil, mas não é. Amar não só os que amamos, os que nos amam, os que queremos ao nosso redor. Amar assim é festa. Amor em seu sentido mais amplo: amar a quem não temos nenhuma afinidade - e quem sabe nem conheçamos - ou, mais forte ainda, amar a quem odiamos, como já lemos tantas e tantas vezes sem nem entender - ou mesmo querer entender , grande lição. Pois é esse outro amor que nos faz crescer, evoluir. Entender os ciclos, as passagens. E, quem sabe, na próxima tentativa de vida, estar mais apaziguado consigo mesmo.E com o mundo.
Mas nesse vida quero amor. Não, não é fácil aos meus olhos pequenos, ao meu curto olhar. Pede desprendimento, coisa para o que não somos preparados - e nem queremos. Pede desapego, da qual já falei tantas vezes que parece um mantra. Desapego não só do necessário, mas do todo. E desapego de nós. Desapego de sonhos que um dia foram sonhados sem nem se saber porque, ou para que. E nessas horas pensar que tudo que nos acontece é por conta de nossas escolhas, tantas e tantas no dia, quase infinitas na vida, nas vidas. Pensar que tudo é o mais puro merecimento. E se não alcançamos os sonhos tão sonhados, se foi porque escolhemos errado os sonhos. Ou se pegamos o mesmo caminho de sempre esperando chegarmos em outro lugar...
Sinto na pele o sol que entra. O dia amanheceu em paz. O mar que parece o mesmo, é constante movimento, constante vida. Não para para pensar. É. E nesse é, muito. Talvez se dê conta de que , mesmo sendo muito, nada é. 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Sopro




"Coragem, às vezes, é desapego"

Essa frase de texto de Ana Jácomo ficou em minha parte da manhã, enquanto olhava o mar, louca para ir até ele, mas tanta coisa para fazer, da casa e da vida, decidir, rumar.
Enquanto fazia as coisas, meio desatenta, quem sabe, não parava de pensar: "coragem é desapego". Descubro-me corajosa, bem mais do que imaginava. Tenho tentado me desapegar de tanta coisa. Do ontem, um passado estático. Do amanhã, de que nada sei. Até do hoje que por vezes me parece confuso, ou louco. Ou o mesmo de sempre, mesmo sendo outro, mesmo sendo tanto. Será que queria mais? Será que merecia mais?
Desapego é necessário. Imprescindível,  mas nada fácil. Desapego dos padrões impostos deste tenra idade e que ainda nos margeiam na vontade de acertar, de "ser alguém", de provar que somos algo que vale a pena. Para nós mesmos, inclusive. Desapego da ideia, muitas vezes exagerada, de que fizeram de nós, positivas ou nem tanto. Desapego do quanto esperamos de nós, nós mesmos e o mundo ao redor. Desapego de sonhos , de castelos de areia construídos bem à beira do mar nem sempre amigo. E apego ao que é sonho, sim, mas sonho palpável, sonho real. Não aqui, ao alcance das mãos sem nem esticar. Mas acolá, onde a mão não chega hoje, mas quem sabe amanhã?
Desapego de sonhos que  nos fizeram sonhar. E em meio ao meu sonho, pesadelo de tanto esperar. Desapego de sonhos que sonhamos sozinhos, sem que o mundo conspirasse. Mas batalhando sempre, nem que seja para chegar perto do todo que pensamos ser, ter, dos castelos que construímos em nossas cabeças e que a vida mostrou que "não é bem assim". Mas sabendo serem possíveis outros sonhos, tantos outros, tantas coisas a realizar, tantas coisas ainda a passar, tantas escolhas ainda a fazer, tocáveis, e acima de tudo úteis. Sonhos mudam, com o passar dos anos e a chegada da sabedoria, que vem , por vezes, lenta demais ( mais vem)  e dos dá ideia mais correta do que sonhar. Mas sonhar sempre, pois eles nos impulsionam, nos mantém alertas, nos mantém vivos. Vibrantes. Mas  outros, quem sabe, e dessa vez importando apenas que sejamos os melhores possíveis aos olhos do Pai , que cumpramos da melhor forma as tarefas que nós mesmos escolhemos antes de aqui chegar.
 E que assim seja...

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Chave


Cá estou eu, de volta ao lar, depois de dois dias de correria. Bom viajar, mesmo a trabalho. Bom viajar, mesmo que se prefira ficar. Viajar dá um certo afastamento dos dias corriqueiros, uma nova visão sobre o mesmo. Eu como arquiteta e sempre voltada ao detalhamento das coisas, sei que nem sempre ver as coisas muito de perto, aumentadas, esmiuçadas, é bom. É a mesma sensação de quem se vê num espelho de aumento pela primeira vez.  As rugas, antes marcas do dia a dia, parecem marcas de anos a anos, sai do passo a passo e vai para passos largos, nem sempre bem pensados, nem sempre bem vividos. Nem sempre bem vindos. E por vezes nos assusta. 

Mas voltando ao tema - volta ao lar -  descobri que minha casa é meu porto. Não a casa em si, simples sobreposição de objetos, palco passageiro de me ser, mas quem habita dentro dela. E dentro de mim. Longe dela, navego, porque é preciso, pois a vida nada mais é que isso: por o barco na água do dia e ver no que dá, se peixe ou nada. Ver onde dá. Ir além e voltar. Viajar é bom, por vezes necessário, não escolha,  mas saber que se tem para onde voltar , e que esse voltar será pleno - mesmo que o mesmo de sempre ( estaria ai o seu real valor?) - não tem preço que pague. Não tem porto mais seguro, mais iluminado. Essa calmaria interna, esse sossego de alma, esse saber-se inserida e amada num mundo menor, não tem preço. Não tem preço ver o brilho no olho do amado, a alegria nos rabinhos dos cachorros.Não tem preço sentar e escutar as peripécias do dia, nem tem preço o meu silencio em escutar amorosamente a mesma coisa , contada tantas vezes e ainda tão boa de ouvir, feito os contos dos livros de infância.  Pode-se, até, adiantar as falas de tão batidas. Mas é nesse "batido" que reina uma paz indescritível...

Estava longe. Mas estar ao lado de meu filho também me enriquece. É um outro amor, mais leve, porque já tem lá seu próprio barco, seu próprio navegar. Talvez eu seja o seu porto. Mas isso dava outro texto...
 menina faceira, rio de minhas aventuras com as palavras e dou uma de Fernando Pessoa: navegar é preciso. Mas aportar é melhor...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Hoje





"A vida não pode ser economizada para amanhã. 
Acontece sempre no presente"
Rubem Alves



Eu não economizo nada. Em matéria de vida, sou uma perfeita perdulária. Aproveito tudo que me vem. Do bom , regalo; do nem tanto, lição. Não, não se engane: não sou de me mandar para cá  e para lá, feito formiga antes da chuva. Já fui e vi que não valia a pena - nem as pernas e nem as tantas energia gastas. Inútil  não em serve. Hoje vou com calma, coisa que só o tempo ensina. Penso, repenso, dialogo com as muitas "eus" e ouço cada uma com carinho. Uma de mim é pura paixão e me diz "vai!". E me jogo. Aposto as fichas. Abro as asas. A outra, mais comedida, pensa antes de agir, de falar  - e o tempo tem me ensinado como ela é  sábia. Sabe usar de estratégias para se sair bem. E como é pacífica: faz de um tudo para que o final seja feliz. Uma outra, de tão desconhecida em mim, até me assusta: sabe onde está pisando, por isso mesmo tem sempre um pé atrás, uma ficha na mão. Mas não deixa de  se deixar levar pela vida, mesmo sabendo onde pode dar. Essa, por quem tenho me apaixonado ultimamente, sabe dos riscos, mas aposta. Tem me ensinado coisas do tipo " infinito enquanto dure", o que me faz ser eu mesma, intensamente. Faz-me crer que a única certeza que se tem é que  não se tem certeza de nada, velho ditado. Nem de que esse é o caminho certo, nem de que é o errado. Mas que se deve dar linha para que a pipa tente pegar um belo vento e , enfim, fazer o belo passeio. Ou não. Então, é recolher a pipa - se ainda vale a pena - e tentar mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez. Até se ter a plena certeza de que se tentou a contento e que era a pipa o problema. E não o vento. E muito menos eu. Para quem sempre se pôs toda a culpa do mundo, já me serve. Cresço. Liberto meu coração das meas culpas inventadas. E trato as meas culpas verdadeiras. 
Rubem tem razão. O presente é hoje. O passado já se foi e a única coisa que fica são as lembranças das coisas bem vividas - ou que deveriam, posto que amamos entulhar as gavetas da vida com as coisas inúteis, como  as mágoas e os muitos arrependimentos de coisas que fizemos e que, depois de vividas, não mantiveram o colorido esperado, os tantos " e se" dos dias.  A única coisa que fica são os momentos, muitos, nada calculados. Dos abismos que nos jogamos de olhos fechados e peito aberto. Do improviso da hora. Dos momentos de descuidos, a la Guimarães Rosa. Das pipas que subiram mesmo que delas nada se esperasse  e roubaram de nós nosso melhor sorriso. Talvez reside ai o melhor caminho: não esperar nada de nada. E ver em cada coisa, um mundo. 
Deve ser para isso que conservo em mim meu olhar  - e coração - de menina...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Madura

  


Tenho aprendido muito com o pouco: pouca comida ( e só as saudáveis) , pouca roupa ( não no corpo, mas no armário), poucos móveis ( mas que me deixem confortável) , poucas palavras ( mas boas ), poucos gestos ( mas certeiros). Deve ser para isso o passar dos dias: precisar menos. Cada coisa que passou é uma coisa a menos.
Descubro que o pouco satisfaz. Não tolero mais os exageros de qualquer ordem. Não aceito mais um não sei tanto de informação. Nem muita falácea sem porque. Nem muitos gestos sem pensar. Nem, ao menos, de longos textos que mais parecem labirinto, muitas voltas sem saída.  Nem de afetações que me afetam. Ainda estou na escola de me livrar de pensamentos chatos, repetitivos, mas isso,  vá lá, só na outra vida...
Deixa eu explicar. Gosto do todo de doce que a fruta me dá. E do azedinho, se dela se faz.  Da quentura que não queima a boca, mas aquece a alma. Do pouco sal na comida, a pimenta de cheiro só para apimentar. Aliás, boa pedida: apimentar a vida. Apimentar a vida com a risada gostosa que se dá sem esperar. Temperar os dias com olho no olho, profundo, mergulho sem igual. Com o namoro carinhoso, delicado e demoradinho, sem demais, nem de menos. Banho de banheira calminho. Banho morno, sem me queimar. Poesia da boa, texto pequeno que me faz pensar - quem sabe rouba um "quê" de sorriso.
Dizem que é  a tal de maturidade, "precisança" de pouco. Sei não. Não me vejo, ainda ( se é que um dia verei) , como fruta pronta. Comível, bem sou. Mas, não, estou longe de ser fruta para compota: tenho um não sei que de dureza, de acidez da vez. Nada pronta para passar o resto da vida envidraçada. Muito menos como fruta que está prestes a cair do pé ( só se fosse na ilusão de alimentar um bichinho faminto ) -  apesar das belas cores, plenas, do sabor, todo, da maciez, muita. satisfaço, nem que seja a mi mesma. Mas, por outro lado, acho-me , muitas vezes - pelo menos nas horas mais felizes - tão criança. Tão menina, no olhar e no sentir. Tão menina, na sensibilidade a flor da pele arrepiada. Quem sabe maturidade seja isso, mesmo: dar importância ao que a tem. Alimentar as verdades verdadeiras e não as ilusões ilusórias. Aceitar com mais vontade as coisas que tem que ser vividas, que tem que doer. E fazer dessa dor, crescimento, como quem se poda para vir mais forte. Para dar mais flores. para dar mais...frutas. Entender que o que tem remédio, trato; o que não tem, remedio. Que o que tem salvação, salvo; o que não tem deixo morrer. Para o que tem saída, abro a porta e mando ir; o que não tem, deixo ficar ( mas não alimento...quem sabe morre de fome?).
Mas, também - confesso! -  que de certas coisas, necessito muito! Tenho abundância caudalosa de vontade de ser feliz. Muito sorriso, muita alegria, muito beijo na boca macia, muita criatividade e , principalmente, muito amor pelo que sinto, pelo que faço, pelo que tenho, pelo que penso. Por quem amo e me ama, enfim, depois de anos de esperança. Essa esperança de que a maturidade me deixe mais doce...feito fruta.

"A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, 
entender com mais tranquilidade, querer com mais doçura."
Lya Luft


PS.: Nunca perca seu lado criança. Uma fruta madura demais apodrece.( no perfil Nesse pique, no Facebook)

domingo, 28 de julho de 2013

Meu




Domingo é o meu dia. Ainda mais assim, morando com os olhos no mar, tendo como companhia sua música que m acalma, ao mesmo tempo que me anina. 
Gosto de levantar mais cedo, ao contrário de muita gente. Deve ser porque sei que essas horas, no silencio da manhã, são só minhas. A casa em silencio, o mar como companhia, o sol entrando ainda manso pela varanda.Só eles, o sol o mar e eu. Alegro-me de ver cachorros correndo livres pela praia - coisa que só nessa hora não se estranha. Para mim é a melhor hora de poetizar com a vida, como gosto. Hora poética de me ser por inteira, escutar minha voz que vem de dentro, fazer crescer em mim o que tenho de bom. Rego essa semente de paz para que invada o meu dia. quem sabe todos?
Tenho tentado fazer de minhas manhas manhãs de domingo. O ritual de levantar, olhar o céu, olhar o mar, agradecer mais um dia, descer para alimentar os cachorros, arrumar a mesa do café com primazia. E enquanto faço as coisas acontecerem fora de mim, muita coisa dentro. Desde a enfadonha  - mas necessária - companhia de minha agenda do dia, que se descortina e se organiza em minha mente ( e corro para anotar o que realmente não dá para deixar para lá) , até planos, sonhos, onde quero chegar e como fazer tudo acontecer. Até o amor descer e , café a dois, com calma, começamos o dia assim, na mais santa paz, belo combustível para a  correira de mais um dia que nos espera tão logo o carro seja ligado, tão logo a gente se beije e se abrace como se fosse o último dia - posto que nada se sabe. 
Domingo é meu dia.  Eu e o mar. Eu e o sol. Eu e eu, um eu tão cheio de tantas, umas complexas demais, outra tão simples que me fazem rir. Nelas, nas simples, nas poéticas e por vezes meninas é que me encontro mais. Que me realizo. Que me encontro. Que vejo valor. Que entendo mais profundamente o que é realmente viver...
Sinto o cheiro do café, as patas dos meus cachorros pedindo atenção, os primeiros movimentos do amor que já, já, levanta e me dou conta: A vida é isso, saber viver!
Tem gente que fala me viver a vida intensamente. 
Eu? Eu não: amo, mesmo, é viver a vida
v  a  g  a  r  o  s  a  m   e  n  t e
(tenho tantas vidas ainda para viver...)
... feito manhãs de domingo...


"Eu me lembro que um dia acordei de manhã e havia uma sensação de possibilidade. Sabe esse sentimento? 
E eu me lembro de ter pensado: Este é o início da felicidade. É aqui que ela começa. E, é claro, haverá muito mais. Nunca me ocorreu que não era o começo. 
Era a felicidade. Era o momento. Aquele exato momento."
Virginia Woolf

Talvez fosse uma bela manhã de domingo...

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Dois







"O amor é quando a gente mora um no outro. "

Mário Quintana

Essa frase volta e meia bate à porta e pede passagem. Deixo entrar, abrindo a porta sem nem titubear, como quem recebe alguém da casa. Abraço demorado, sorriso na cara e a certeza de quem ela, a frase, já fez morada em mim.  Se traz perfumado bouquet ou puxa lágrima que pensava já escondida, tanto me faz: vibro e vivo.

Paro para pensar. Pare para pensar. E pense como a criança, o adolescente, a jovem que já foi e essa pessoa que se diz muito adulta que você diz ser hoje: quem nunca pensou que ia morrer de amor? Quem nunca sentiu o coração disparar  ao ver o novo coleguinha da sala de aula? O novo vizinho? Quem nunca sentiu o calor da paixão na pele ao dançar coladinho? Quem nunca afundou ruas e calçadas a espera de ver o outro passar? Quem nunca achou que ia infartar por causa de um mero "oi", ou uma olhadinha que, na esperança, achávamos que era para nós? Quem não lembra a primeira mão na mão, o suor entre elas? E o calor do primeiro beijo, por mais estranho, inesperado ou esperado que tenha sido? E o dia, enfim, em que você deixou para trás a menina, a jovem e  de um minuto ao outro, céu ou inferno, virou mulher? E quantas e quantas vezes , com o amor de sempre ou o inquilino recém chegado, voltou a se sentir jovem, voltou a ser menina... 
Sim. O amor tem esse poder, de nos transformar.  Tirar de nós o nosso melhor, ao mesmo tempo que nos acrescenta tanto. Ou tira, quando sai do trilho dos sonhos que sonhamos ter, quando pegamos o trem sozinhas - e só nos damos conta no final da viagem. Coisa que fere ou cura. Que mata ou ressuscita. Semente em que se aposta sem muitas vezes saber nem de que planta é - mas mesmo assim se semeia, cuida, espera colheita. Reza pelo bom tempo e pelo tempo certo. 
Sim. Amor é quando um mora no outro, casa aberta ou assombrada, verdade escancarada ou mistério. Posto que o amor pode estar longe, nesta vida, em tempos diferentes, passado ou futuro...ou em outras vidas, conhecidos ou desconhecidos, revelados ou escondidos, mas mesmo assim ser...amor...Felizes os que tiveram, os que tem, os que terão um. Ou muitos.

Releio meus textos e vejo o quanto falo de amor. Pode parecer piegas, romantismo demais, mas, e que vale a vida sem ele? E é o próprio Quintana que me salva:

"Fere de leve a frase... E esquece... Nada 
Convém que se repita... 

Só em linguagem amorosa agrada 
A mesma coisa cem mil vezes dita". 
(80 Anos de Poesia, 1986) 

Amo.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Quereres




"Que as dificuldades que eu experimentar ao longo da jornada
não me roubem a capacidade de encanto."
 Ana Jácomo

Essa frase me fez repensar minha vida. tanta mudança, tanto medo deixado para trás, tanta esperança no seu lugar. Medo, ainda tenho, mas todos alimentados por mim mesma, quando dou "casa, comida e roupa lavada" para os mórbidos moradores de meus pensamentos - aqueles macaquinhos nada engraçados. E como me atormentam! Tristezas, tenho, em ver o tempo perdido na espera de que algo acontecesse. Em olhar pela janela da vida esperando a Joyce que fui voltar para casa.  Ansiedades muitas, mas não é mais do que querer adiantar o tempo, viver o amanhã antes do hoje. E, pior: "pré ocupar-se" de algo, de alguém. 
E o hoje? Vem dai minha ligação com essa frase tão singela de Ana Jácomo. Dificuldades existem. Mas, dizem, que só nos vem o que podemos carregar, no corpo e no coração. A vida não é só feita de coisas boas. Coisas boas nos deixam relaxados, o que é ótimo. Mas se estivéssemos sempre relaxados, felizes, de bem com a vida , com o que somos e com o que temos, beirando a um conto de fadas real, não chegaríamos a lugar nenhum, não seríamos nós mesmos, nem cresceríamos, nem por fora e nem por dentro  - esse o crescimento esperado. 
Viver é diferente de existir, já disse Oscar Wilde. Viver é bem mais complexo. Mais intenso. Mais vivo. É não se deixar levar só pelas dificuldades, nem pelas alegrias, pois uma tempera outra. Ou você nunca teve a satisfação de ter saído de uma enrascada, um problema sem solução? De ter conseguido retomar a harmonia depois de uma discussão? De ter voltado a  confiar, inclusive - e principalmente-  em você mesmo?
Viver é aprender. E, acredite, tudo nos ensina algo. Viver e conhecer-se cada dia mais, saber exatamente com quem se lida por dentro. E correr atrás de arrumar os estragos, ajeitar os defeitos, aparar as arestas. Tentar, por um dia, por um momento que seja, não repetir esse ou aquele erro, tantos, que já fez uso capião em nós. É supera-se. Aprumar-se. Assumir as coisas que vêm, que se sente e, principalmente que se quer. Viver é assumir, a vida e quem somos dentro dela. Viver é ser por inteiro, seja lá o que isso for. Mas sem receio nenhum de melhorar a cada dia, a cada hora, a cada ação que se faz. De acertar melhor o mesmo passo. E apesar de sermos quem somos, vivermos como vivemos, não perder a capacidade de encanto. Como se fossemos meninos outra vez. Ou ainda. 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

“É o nosso dever de artista mostrar às pessoas
que o medo, a culpa e a morte não fazem necessariamente parte da vida.”

Pensamento de Genesis P. Orridge

sábado, 29 de junho de 2013

Credo



Uso a palavra para compor meus silêncios.


Não gosto das palavras

fatigadas de informar.

Dou mais respeito

às que vivem de barriga no chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.

(Manoel de Barros, em O apanhador de desperdícios)
Posto esse poema na íntegra tamanho arrepio que me dá. Minha verdade, todinha, dentro
 dele, percorrendo minha espinha, fazendo pousada em minha'alma. Tenho falado muito 
comigo mesma sobre talentos. Recomecei minha vida, ela toda, faz uns poucos anos  e quem
 me conhece sabe bem o que isso me custou. E custa. A vida é feita de escolhas, digo 
sempre. Escolhemos até se devemos levantar da cama ou lá ficar.  A cada segundo dela 
decidimos por algo, por uma roupa a se usar, o que comer, por um caminho a ser seguido, 
por um pensamento a ser levado a sério. Por algo a ser preferido e outro preteridoSim, nossas tantas 
escolhas, infinitas, são assim mesmo: simples troca de letras e troca-se o sentido da coisa toda. 
De uma vida toda.
 Falo isso por conta das frustrações da vida.Sonhamos em ser alguém - ou algo - que nem sempre ( na verdade , na maioria das vezes...) acontece. Não, não falo dos sonhos comuns, dos "teres" ( quero ter uma família, ter filhos, ter uma casa, um cachorro, muitos, viajar...)  e

 sim, daqueles desejos mais íntimos que não contamos a ninguém, a não ser a nós mesmos. Aqueles que sufocamos de tal forma a não criar em nós mais frustrações. Vem em minha mente  minha mãe que, a  certa altura da vida, em não podendo viver do que mais amava, que

era pintar, desfez-se de muitos quadros, jogou fora as tintas, num desabafo que me marcou para sempre, a vida. A alma. E do desabafo recente de um físico pelo sonho de ter sido um grande inventor e ver morrer, aos poucos, cada ideia sua - não por não caber e sim por, quem sabe, ser muito além do que  o mundo podia - e pode -  entender e absorver. Ninguém há de negar que somos um povo cheio de talentos morando num país de frustrados...



Mas, hoje, confesso, como se fosse minha última chance. Queria viver de escrever. Não, longe estou de me achar grande escritora, dotada de tantos dotes. Mas escrever me cura, me acalma.  Ou como descreve outra sonhadora como eu, Ana Jácomo:
 

"Escrever é o meu trabalho mais lúdico. Meu jeito preferido de prece. Minha maneira predileta de 
levar o coração pra pegar sol."

Tento imaginar em  como seria bom poder se dedicar a isso, mergulhar fundo no meu mundo, tão vasto

 apesar de tão pequeno, nesse mundão enorme das palavras e dos sentimentos, fazer de cada vivência belo

 quadro - não em cores e tintas, mas em palavras. Expressar da melhor forma o que vejo no mundo, eu, 

admiradora das tantas coisas simples da vida ( como  a música da chuva que cai agora no telhado...). 

Retratar o que vejo nas pessoas, nas coisas, no que sentimos.

Que bom que alguns grandes poetas - infelizmente , uma minoria deles - tiveram a chance de viver , mesmo 

que parcamente, do que amavam fazer. Outros, tantos, foram  - e são! -  desperdiçados em livros 

embolorados ou papéis esquecidos em emboloradas gavetas.  Amados poetas  como Manoel de Barros 

que fazia de um parco jardim um imenso mundo, de Mário Quintana que, da janela de seu pequeno quarto 
de hotel viajava o mundo, de uma Cora

 Coralina que, entre louças e bolos, se imaginava tirando pedras e plantando flores.  

Quem sabe eles transformaram suas tantas frustrações em belos enredos da vida

Sigo feito o poema de Manoel de Barros. Fazendo de meus silêncios mais íntimos, breves textos. Ou, feito a 

simples ideia de Cora Coralina, fazendo de minha vida mesquinha um poema...


Sigo sonhando. E crendo em mim mesma.




sexta-feira, 28 de junho de 2013

Sossego





Sempre falei e continuo falando: amor tem que ser porto. Porto, onde repomos nossas energias. Porto, para onde navegamos em caso de mar tenso, tempestades a vista - ou imaginadas ( essas as piores). Porto onde amarramos nossa nau em tempo de cansaço - ou de medo, eterno companheiro. Ou de procura de alguma alegria, em dia de remanso. Ou nem tanto. 
Quem dera ter e ser porto nesse dia -a -dia,  viagem inesperada onde vamos a lugares onde não queremos ir, sentimentos  que  tentamos fugir,  acontecimentos que preferiríamos  nem ver ...Viagem sem muito destino - e nunca de férias programadas - onde temos tão pouco tempo para viver o que queremos viver, sentir o que queremos sentir, abraçar quem queremos abraçar, beijar então, nem se fala. Tempo onde convivemos com a distância que nos distancia do que e de quem queremos bem perto, dentro , se possível, corpo e alma. Quem dera ter porto. Quem dera ser porto. Quem dera ter onde acalmar a alma, adoçar o gosto, aquecer o frio interno  do vazio do nada. 
Amor é porto - ou deveria ser.  Lugar para onde navegamos sempre que algo nos assusta, tira do rumo, tira do prumo, tenta virar o barco. Afrouxa os nós na hora do aperto, ajuda a segurar as cordas na hora "h",  acertar as velas na mudança de vento, senta do lado e  ajuda a pensar. Recalcula as distâncias, quem sabe o trecho, endireita a bússola.  E, chegando lá, no aportar do dia, sossegar o coração, esquecer os receios, as dúvidas, os desencantamentos. Remanso, descanso, parada. Até que uma nova viagem se faça necessária, que uma nova carta seja apresentada, um novo rumo. Que se tenha que, de novo, tomar folego e armazenar coragem para enfrentar o mar. 
Amor é porto... 

"Amor é quando a gente mora um no outro", disse certa vez Mário Quintana. 
Amor é quando a gente sossega  - e se ajeita - um no outro, digo eu...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Tardio




E hoje é dia dos namorados. Escrevo assim, em letras minúsculas, porque não dou a ele, o dia, o devido valor...Está certo, se não vermos pelo lado meramente comercial, poderia ser um dia para se lembrar do que gostamos no outro, o que ele tem - ou faz, ou diz - que nos encanta tanto. E não o contrário, como geralmente fazemos, quando o amor deixa espaço para a cruel realidade. 
Emfim, namorados vem de enamorado, que vem de em amor, estar em amor. Dizem que a palavra amor vem do latim igual,  amor... afeição, compaixão ( interessante palavra...com paixão...), ou ainda, inclinação, atração, apetite, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido...( não seria essa uma definição de paixão?). 
Certo ou errado, sempre acreditei que amor começa com uma atração, que traz a  paixão quem como ela própria, cheia de caminhos e significados, tem lá muitas definições:  vem do latim passio, que quer dizer " sofrimento, ato de suportar". Ou de pati , de "mesmo significado. Quem sabe do grego, pathe,  que significa " sentir", aqui tanto no sentido bom...ou ruim...e concordo...
Mas vai que a atração virou paixão, que durou e se fortaleceu e virou...amor, ficando-se ou não ao lado da pessoa amada. E estas coisas todas mudam em nós com o tempo. Porque nós mudamos. Porque o que procuramos muda. Como já disse Carlos Drummond de Andrade em belo poema, " o amor chega tarde". Porque o verdadeiro amor pede maturidade. Pede crescimento. Pede menos pele e mais olhar. Menos cobrança e mais cumplicidade. Menos espera e mais esperança.  E pede desapego, lição mais dura da vida. 
Então, que esperar do amor, se está ao nosso lado  - e dentro - mas não é nosso? Primeiro é entender que nada é nosso, posto que essa vida é só uma passagem. Depois, entender que amor é algo que se dá, verdadeiramente, sem esperar nada em troca. 
Amor é quando você acha na vida alguém que te compreenda, te apoie, te faça rir - ou até chorar, se for para crescer. Alguém com quem você goste de estar ao lado, de estar junto, que nem puxe nem se tenha que puxar, porque amar é caminhar junto!
Não, não se engane. Não precisa ser amor tórrido, paixão exagerada, cheia de sobressaltos...porque amor é calmo e acalma...amor é conversa de sofá...é olho no olho, melhor conversa não há...dá tempo de respirar ( e de suspirar) porque não tem pressa...
Drummond tem razão..."Amor começa tarde"...porque pede sabedoria. E essa boa amiga só vem no segundo tempo, quando a gente, enfim, aprende que o verdadeiro jogo da vida é viver...e não ganhar. Quando de deixa de sofrer e apenas se deixa levar...
Amor é bom. Aproveite quem tem, perto ou longe, ao alcance das mãos ou só morando dentro. E não precisa ser para toda vida, nem para sempre, nem infinitamente. Porque do amanhã ninguém sabe. Mas hoje, ah, hoje o amor é um presente!
Eu? Eu  já disse "eu te amo" logo cedo com o coração e a alma...como todos os dias...um jeito de transformar tudo na vida na mais pura poesia. Até uma gargalhada. 

" Todo homem é poeta quando está apaixonado".
Platão