sábado, 29 de junho de 2013

Credo



Uso a palavra para compor meus silêncios.


Não gosto das palavras

fatigadas de informar.

Dou mais respeito

às que vivem de barriga no chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.

(Manoel de Barros, em O apanhador de desperdícios)
Posto esse poema na íntegra tamanho arrepio que me dá. Minha verdade, todinha, dentro
 dele, percorrendo minha espinha, fazendo pousada em minha'alma. Tenho falado muito 
comigo mesma sobre talentos. Recomecei minha vida, ela toda, faz uns poucos anos  e quem
 me conhece sabe bem o que isso me custou. E custa. A vida é feita de escolhas, digo 
sempre. Escolhemos até se devemos levantar da cama ou lá ficar.  A cada segundo dela 
decidimos por algo, por uma roupa a se usar, o que comer, por um caminho a ser seguido, 
por um pensamento a ser levado a sério. Por algo a ser preferido e outro preteridoSim, nossas tantas 
escolhas, infinitas, são assim mesmo: simples troca de letras e troca-se o sentido da coisa toda. 
De uma vida toda.
 Falo isso por conta das frustrações da vida.Sonhamos em ser alguém - ou algo - que nem sempre ( na verdade , na maioria das vezes...) acontece. Não, não falo dos sonhos comuns, dos "teres" ( quero ter uma família, ter filhos, ter uma casa, um cachorro, muitos, viajar...)  e

 sim, daqueles desejos mais íntimos que não contamos a ninguém, a não ser a nós mesmos. Aqueles que sufocamos de tal forma a não criar em nós mais frustrações. Vem em minha mente  minha mãe que, a  certa altura da vida, em não podendo viver do que mais amava, que

era pintar, desfez-se de muitos quadros, jogou fora as tintas, num desabafo que me marcou para sempre, a vida. A alma. E do desabafo recente de um físico pelo sonho de ter sido um grande inventor e ver morrer, aos poucos, cada ideia sua - não por não caber e sim por, quem sabe, ser muito além do que  o mundo podia - e pode -  entender e absorver. Ninguém há de negar que somos um povo cheio de talentos morando num país de frustrados...



Mas, hoje, confesso, como se fosse minha última chance. Queria viver de escrever. Não, longe estou de me achar grande escritora, dotada de tantos dotes. Mas escrever me cura, me acalma.  Ou como descreve outra sonhadora como eu, Ana Jácomo:
 

"Escrever é o meu trabalho mais lúdico. Meu jeito preferido de prece. Minha maneira predileta de 
levar o coração pra pegar sol."

Tento imaginar em  como seria bom poder se dedicar a isso, mergulhar fundo no meu mundo, tão vasto

 apesar de tão pequeno, nesse mundão enorme das palavras e dos sentimentos, fazer de cada vivência belo

 quadro - não em cores e tintas, mas em palavras. Expressar da melhor forma o que vejo no mundo, eu, 

admiradora das tantas coisas simples da vida ( como  a música da chuva que cai agora no telhado...). 

Retratar o que vejo nas pessoas, nas coisas, no que sentimos.

Que bom que alguns grandes poetas - infelizmente , uma minoria deles - tiveram a chance de viver , mesmo 

que parcamente, do que amavam fazer. Outros, tantos, foram  - e são! -  desperdiçados em livros 

embolorados ou papéis esquecidos em emboloradas gavetas.  Amados poetas  como Manoel de Barros 

que fazia de um parco jardim um imenso mundo, de Mário Quintana que, da janela de seu pequeno quarto 
de hotel viajava o mundo, de uma Cora

 Coralina que, entre louças e bolos, se imaginava tirando pedras e plantando flores.  

Quem sabe eles transformaram suas tantas frustrações em belos enredos da vida

Sigo feito o poema de Manoel de Barros. Fazendo de meus silêncios mais íntimos, breves textos. Ou, feito a 

simples ideia de Cora Coralina, fazendo de minha vida mesquinha um poema...


Sigo sonhando. E crendo em mim mesma.




sexta-feira, 28 de junho de 2013

Sossego





Sempre falei e continuo falando: amor tem que ser porto. Porto, onde repomos nossas energias. Porto, para onde navegamos em caso de mar tenso, tempestades a vista - ou imaginadas ( essas as piores). Porto onde amarramos nossa nau em tempo de cansaço - ou de medo, eterno companheiro. Ou de procura de alguma alegria, em dia de remanso. Ou nem tanto. 
Quem dera ter e ser porto nesse dia -a -dia,  viagem inesperada onde vamos a lugares onde não queremos ir, sentimentos  que  tentamos fugir,  acontecimentos que preferiríamos  nem ver ...Viagem sem muito destino - e nunca de férias programadas - onde temos tão pouco tempo para viver o que queremos viver, sentir o que queremos sentir, abraçar quem queremos abraçar, beijar então, nem se fala. Tempo onde convivemos com a distância que nos distancia do que e de quem queremos bem perto, dentro , se possível, corpo e alma. Quem dera ter porto. Quem dera ser porto. Quem dera ter onde acalmar a alma, adoçar o gosto, aquecer o frio interno  do vazio do nada. 
Amor é porto - ou deveria ser.  Lugar para onde navegamos sempre que algo nos assusta, tira do rumo, tira do prumo, tenta virar o barco. Afrouxa os nós na hora do aperto, ajuda a segurar as cordas na hora "h",  acertar as velas na mudança de vento, senta do lado e  ajuda a pensar. Recalcula as distâncias, quem sabe o trecho, endireita a bússola.  E, chegando lá, no aportar do dia, sossegar o coração, esquecer os receios, as dúvidas, os desencantamentos. Remanso, descanso, parada. Até que uma nova viagem se faça necessária, que uma nova carta seja apresentada, um novo rumo. Que se tenha que, de novo, tomar folego e armazenar coragem para enfrentar o mar. 
Amor é porto... 

"Amor é quando a gente mora um no outro", disse certa vez Mário Quintana. 
Amor é quando a gente sossega  - e se ajeita - um no outro, digo eu...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Tardio




E hoje é dia dos namorados. Escrevo assim, em letras minúsculas, porque não dou a ele, o dia, o devido valor...Está certo, se não vermos pelo lado meramente comercial, poderia ser um dia para se lembrar do que gostamos no outro, o que ele tem - ou faz, ou diz - que nos encanta tanto. E não o contrário, como geralmente fazemos, quando o amor deixa espaço para a cruel realidade. 
Emfim, namorados vem de enamorado, que vem de em amor, estar em amor. Dizem que a palavra amor vem do latim igual,  amor... afeição, compaixão ( interessante palavra...com paixão...), ou ainda, inclinação, atração, apetite, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido...( não seria essa uma definição de paixão?). 
Certo ou errado, sempre acreditei que amor começa com uma atração, que traz a  paixão quem como ela própria, cheia de caminhos e significados, tem lá muitas definições:  vem do latim passio, que quer dizer " sofrimento, ato de suportar". Ou de pati , de "mesmo significado. Quem sabe do grego, pathe,  que significa " sentir", aqui tanto no sentido bom...ou ruim...e concordo...
Mas vai que a atração virou paixão, que durou e se fortaleceu e virou...amor, ficando-se ou não ao lado da pessoa amada. E estas coisas todas mudam em nós com o tempo. Porque nós mudamos. Porque o que procuramos muda. Como já disse Carlos Drummond de Andrade em belo poema, " o amor chega tarde". Porque o verdadeiro amor pede maturidade. Pede crescimento. Pede menos pele e mais olhar. Menos cobrança e mais cumplicidade. Menos espera e mais esperança.  E pede desapego, lição mais dura da vida. 
Então, que esperar do amor, se está ao nosso lado  - e dentro - mas não é nosso? Primeiro é entender que nada é nosso, posto que essa vida é só uma passagem. Depois, entender que amor é algo que se dá, verdadeiramente, sem esperar nada em troca. 
Amor é quando você acha na vida alguém que te compreenda, te apoie, te faça rir - ou até chorar, se for para crescer. Alguém com quem você goste de estar ao lado, de estar junto, que nem puxe nem se tenha que puxar, porque amar é caminhar junto!
Não, não se engane. Não precisa ser amor tórrido, paixão exagerada, cheia de sobressaltos...porque amor é calmo e acalma...amor é conversa de sofá...é olho no olho, melhor conversa não há...dá tempo de respirar ( e de suspirar) porque não tem pressa...
Drummond tem razão..."Amor começa tarde"...porque pede sabedoria. E essa boa amiga só vem no segundo tempo, quando a gente, enfim, aprende que o verdadeiro jogo da vida é viver...e não ganhar. Quando de deixa de sofrer e apenas se deixa levar...
Amor é bom. Aproveite quem tem, perto ou longe, ao alcance das mãos ou só morando dentro. E não precisa ser para toda vida, nem para sempre, nem infinitamente. Porque do amanhã ninguém sabe. Mas hoje, ah, hoje o amor é um presente!
Eu? Eu  já disse "eu te amo" logo cedo com o coração e a alma...como todos os dias...um jeito de transformar tudo na vida na mais pura poesia. Até uma gargalhada. 

" Todo homem é poeta quando está apaixonado".
Platão

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Recomeço




"Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema."

Recomeço a escrever meus textos ( um recomeço?) por aqui com esse trecho de poema de Cora Coralina que, volta  e meia, permeia em mim. Move minhas pedras e planta flores. Me adoça. Me recomeça, me anima, me faz ver que , sim, posso ser melhor a cada dia, não só para o mundo, mas também para mim! 
Sim. parei para pensar nisso quando falei a uma amiga que estava travada, tamanha dor nas costas e ela falou: "pare de carregar o mundo". Parei foi para pensar...
Sempre me achei- e isso vem de longe - desligada dos outros. Não me acho - nem nunca me achei - uma boa filha, muito menos uma boa irmã. Já fui boa amiga, mas nem sei se isso também sou capaz. Nem me achei uma namorada  ou companheira com atitude. Ledo engano. Passei esses quase meio século tapando o sol com a peneira. E me queimando inteira. 
Olho para dentro de mim e vejo uma "mãezona", como me chamou a amiga. Fui - e sou - tudo que achei que não era. Dei a vida - ou quase - à pessoas e causas nem sempre nobres ( pessoas e causas). E fui (sou?), por vezes, extrema: cuidados demais, feito redoma,  ou esquecimento, indiferença. Não fui meio termo. Nem sei se sei ser. Quando cuidei, cuidei demais, mesmo sem transparecer, fazendo de forma tão natural que nem o beneficiado se deu conta. Mas quando abandonei o barco, nadei até a praia com vontade  sem nem olhar para trás. Só depois, em terra firme outra vez, parei para pesar se tinha feito a coisa certa. E quem vai saber? Só Deus. E olhe lá. 
Recomeço meus textos em dia frio e cinzento, dor nas costas. Talvez fosse esse o momento "preciso", aqui em dúbio sentido, de precisão , certeiro, e de precisar, necessidade.  Talvez esteja na hora de parar para descarregar. Desapegar. Revisar. Ser mais eu. Mas nem por isso - ou exatamente por isso - deixar de ser essa menina poeta que fui, que sou - e que escrevia poemas antes mesmo de saber um bom português. Porque a poesia - que é a mania de poetizar, romantizar sobre tudo, para mim -  em mim, é nata. E a ideia de fazer esse dia-a -dia sem graça da gente um pouco melhor...
Recomeçar. Começar de novo, mas de outra forma. Mais leve, desapegada do que não me melhora, quem sabe...Melhor rezar...