domingo, 28 de julho de 2013

Meu




Domingo é o meu dia. Ainda mais assim, morando com os olhos no mar, tendo como companhia sua música que m acalma, ao mesmo tempo que me anina. 
Gosto de levantar mais cedo, ao contrário de muita gente. Deve ser porque sei que essas horas, no silencio da manhã, são só minhas. A casa em silencio, o mar como companhia, o sol entrando ainda manso pela varanda.Só eles, o sol o mar e eu. Alegro-me de ver cachorros correndo livres pela praia - coisa que só nessa hora não se estranha. Para mim é a melhor hora de poetizar com a vida, como gosto. Hora poética de me ser por inteira, escutar minha voz que vem de dentro, fazer crescer em mim o que tenho de bom. Rego essa semente de paz para que invada o meu dia. quem sabe todos?
Tenho tentado fazer de minhas manhas manhãs de domingo. O ritual de levantar, olhar o céu, olhar o mar, agradecer mais um dia, descer para alimentar os cachorros, arrumar a mesa do café com primazia. E enquanto faço as coisas acontecerem fora de mim, muita coisa dentro. Desde a enfadonha  - mas necessária - companhia de minha agenda do dia, que se descortina e se organiza em minha mente ( e corro para anotar o que realmente não dá para deixar para lá) , até planos, sonhos, onde quero chegar e como fazer tudo acontecer. Até o amor descer e , café a dois, com calma, começamos o dia assim, na mais santa paz, belo combustível para a  correira de mais um dia que nos espera tão logo o carro seja ligado, tão logo a gente se beije e se abrace como se fosse o último dia - posto que nada se sabe. 
Domingo é meu dia.  Eu e o mar. Eu e o sol. Eu e eu, um eu tão cheio de tantas, umas complexas demais, outra tão simples que me fazem rir. Nelas, nas simples, nas poéticas e por vezes meninas é que me encontro mais. Que me realizo. Que me encontro. Que vejo valor. Que entendo mais profundamente o que é realmente viver...
Sinto o cheiro do café, as patas dos meus cachorros pedindo atenção, os primeiros movimentos do amor que já, já, levanta e me dou conta: A vida é isso, saber viver!
Tem gente que fala me viver a vida intensamente. 
Eu? Eu não: amo, mesmo, é viver a vida
v  a  g  a  r  o  s  a  m   e  n  t e
(tenho tantas vidas ainda para viver...)
... feito manhãs de domingo...


"Eu me lembro que um dia acordei de manhã e havia uma sensação de possibilidade. Sabe esse sentimento? 
E eu me lembro de ter pensado: Este é o início da felicidade. É aqui que ela começa. E, é claro, haverá muito mais. Nunca me ocorreu que não era o começo. 
Era a felicidade. Era o momento. Aquele exato momento."
Virginia Woolf

Talvez fosse uma bela manhã de domingo...

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Dois







"O amor é quando a gente mora um no outro. "

Mário Quintana

Essa frase volta e meia bate à porta e pede passagem. Deixo entrar, abrindo a porta sem nem titubear, como quem recebe alguém da casa. Abraço demorado, sorriso na cara e a certeza de quem ela, a frase, já fez morada em mim.  Se traz perfumado bouquet ou puxa lágrima que pensava já escondida, tanto me faz: vibro e vivo.

Paro para pensar. Pare para pensar. E pense como a criança, o adolescente, a jovem que já foi e essa pessoa que se diz muito adulta que você diz ser hoje: quem nunca pensou que ia morrer de amor? Quem nunca sentiu o coração disparar  ao ver o novo coleguinha da sala de aula? O novo vizinho? Quem nunca sentiu o calor da paixão na pele ao dançar coladinho? Quem nunca afundou ruas e calçadas a espera de ver o outro passar? Quem nunca achou que ia infartar por causa de um mero "oi", ou uma olhadinha que, na esperança, achávamos que era para nós? Quem não lembra a primeira mão na mão, o suor entre elas? E o calor do primeiro beijo, por mais estranho, inesperado ou esperado que tenha sido? E o dia, enfim, em que você deixou para trás a menina, a jovem e  de um minuto ao outro, céu ou inferno, virou mulher? E quantas e quantas vezes , com o amor de sempre ou o inquilino recém chegado, voltou a se sentir jovem, voltou a ser menina... 
Sim. O amor tem esse poder, de nos transformar.  Tirar de nós o nosso melhor, ao mesmo tempo que nos acrescenta tanto. Ou tira, quando sai do trilho dos sonhos que sonhamos ter, quando pegamos o trem sozinhas - e só nos damos conta no final da viagem. Coisa que fere ou cura. Que mata ou ressuscita. Semente em que se aposta sem muitas vezes saber nem de que planta é - mas mesmo assim se semeia, cuida, espera colheita. Reza pelo bom tempo e pelo tempo certo. 
Sim. Amor é quando um mora no outro, casa aberta ou assombrada, verdade escancarada ou mistério. Posto que o amor pode estar longe, nesta vida, em tempos diferentes, passado ou futuro...ou em outras vidas, conhecidos ou desconhecidos, revelados ou escondidos, mas mesmo assim ser...amor...Felizes os que tiveram, os que tem, os que terão um. Ou muitos.

Releio meus textos e vejo o quanto falo de amor. Pode parecer piegas, romantismo demais, mas, e que vale a vida sem ele? E é o próprio Quintana que me salva:

"Fere de leve a frase... E esquece... Nada 
Convém que se repita... 

Só em linguagem amorosa agrada 
A mesma coisa cem mil vezes dita". 
(80 Anos de Poesia, 1986) 

Amo.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Quereres




"Que as dificuldades que eu experimentar ao longo da jornada
não me roubem a capacidade de encanto."
 Ana Jácomo

Essa frase me fez repensar minha vida. tanta mudança, tanto medo deixado para trás, tanta esperança no seu lugar. Medo, ainda tenho, mas todos alimentados por mim mesma, quando dou "casa, comida e roupa lavada" para os mórbidos moradores de meus pensamentos - aqueles macaquinhos nada engraçados. E como me atormentam! Tristezas, tenho, em ver o tempo perdido na espera de que algo acontecesse. Em olhar pela janela da vida esperando a Joyce que fui voltar para casa.  Ansiedades muitas, mas não é mais do que querer adiantar o tempo, viver o amanhã antes do hoje. E, pior: "pré ocupar-se" de algo, de alguém. 
E o hoje? Vem dai minha ligação com essa frase tão singela de Ana Jácomo. Dificuldades existem. Mas, dizem, que só nos vem o que podemos carregar, no corpo e no coração. A vida não é só feita de coisas boas. Coisas boas nos deixam relaxados, o que é ótimo. Mas se estivéssemos sempre relaxados, felizes, de bem com a vida , com o que somos e com o que temos, beirando a um conto de fadas real, não chegaríamos a lugar nenhum, não seríamos nós mesmos, nem cresceríamos, nem por fora e nem por dentro  - esse o crescimento esperado. 
Viver é diferente de existir, já disse Oscar Wilde. Viver é bem mais complexo. Mais intenso. Mais vivo. É não se deixar levar só pelas dificuldades, nem pelas alegrias, pois uma tempera outra. Ou você nunca teve a satisfação de ter saído de uma enrascada, um problema sem solução? De ter conseguido retomar a harmonia depois de uma discussão? De ter voltado a  confiar, inclusive - e principalmente-  em você mesmo?
Viver é aprender. E, acredite, tudo nos ensina algo. Viver e conhecer-se cada dia mais, saber exatamente com quem se lida por dentro. E correr atrás de arrumar os estragos, ajeitar os defeitos, aparar as arestas. Tentar, por um dia, por um momento que seja, não repetir esse ou aquele erro, tantos, que já fez uso capião em nós. É supera-se. Aprumar-se. Assumir as coisas que vêm, que se sente e, principalmente que se quer. Viver é assumir, a vida e quem somos dentro dela. Viver é ser por inteiro, seja lá o que isso for. Mas sem receio nenhum de melhorar a cada dia, a cada hora, a cada ação que se faz. De acertar melhor o mesmo passo. E apesar de sermos quem somos, vivermos como vivemos, não perder a capacidade de encanto. Como se fossemos meninos outra vez. Ou ainda. 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

“É o nosso dever de artista mostrar às pessoas
que o medo, a culpa e a morte não fazem necessariamente parte da vida.”

Pensamento de Genesis P. Orridge