sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Hoje





"A vida não pode ser economizada para amanhã. 
Acontece sempre no presente"
Rubem Alves



Eu não economizo nada. Em matéria de vida, sou uma perfeita perdulária. Aproveito tudo que me vem. Do bom , regalo; do nem tanto, lição. Não, não se engane: não sou de me mandar para cá  e para lá, feito formiga antes da chuva. Já fui e vi que não valia a pena - nem as pernas e nem as tantas energia gastas. Inútil  não em serve. Hoje vou com calma, coisa que só o tempo ensina. Penso, repenso, dialogo com as muitas "eus" e ouço cada uma com carinho. Uma de mim é pura paixão e me diz "vai!". E me jogo. Aposto as fichas. Abro as asas. A outra, mais comedida, pensa antes de agir, de falar  - e o tempo tem me ensinado como ela é  sábia. Sabe usar de estratégias para se sair bem. E como é pacífica: faz de um tudo para que o final seja feliz. Uma outra, de tão desconhecida em mim, até me assusta: sabe onde está pisando, por isso mesmo tem sempre um pé atrás, uma ficha na mão. Mas não deixa de  se deixar levar pela vida, mesmo sabendo onde pode dar. Essa, por quem tenho me apaixonado ultimamente, sabe dos riscos, mas aposta. Tem me ensinado coisas do tipo " infinito enquanto dure", o que me faz ser eu mesma, intensamente. Faz-me crer que a única certeza que se tem é que  não se tem certeza de nada, velho ditado. Nem de que esse é o caminho certo, nem de que é o errado. Mas que se deve dar linha para que a pipa tente pegar um belo vento e , enfim, fazer o belo passeio. Ou não. Então, é recolher a pipa - se ainda vale a pena - e tentar mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez. Até se ter a plena certeza de que se tentou a contento e que era a pipa o problema. E não o vento. E muito menos eu. Para quem sempre se pôs toda a culpa do mundo, já me serve. Cresço. Liberto meu coração das meas culpas inventadas. E trato as meas culpas verdadeiras. 
Rubem tem razão. O presente é hoje. O passado já se foi e a única coisa que fica são as lembranças das coisas bem vividas - ou que deveriam, posto que amamos entulhar as gavetas da vida com as coisas inúteis, como  as mágoas e os muitos arrependimentos de coisas que fizemos e que, depois de vividas, não mantiveram o colorido esperado, os tantos " e se" dos dias.  A única coisa que fica são os momentos, muitos, nada calculados. Dos abismos que nos jogamos de olhos fechados e peito aberto. Do improviso da hora. Dos momentos de descuidos, a la Guimarães Rosa. Das pipas que subiram mesmo que delas nada se esperasse  e roubaram de nós nosso melhor sorriso. Talvez reside ai o melhor caminho: não esperar nada de nada. E ver em cada coisa, um mundo. 
Deve ser para isso que conservo em mim meu olhar  - e coração - de menina...

Um comentário:

  1. Que texto mais lindo, querida! Bateu lá no fundão da alma primitiva, na solidária solidão do Planalto Central... Gratíssimo por compartilhar!

    Beijos, com amor.

    Samuca

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