sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Sopro




"Coragem, às vezes, é desapego"

Essa frase de texto de Ana Jácomo ficou em minha parte da manhã, enquanto olhava o mar, louca para ir até ele, mas tanta coisa para fazer, da casa e da vida, decidir, rumar.
Enquanto fazia as coisas, meio desatenta, quem sabe, não parava de pensar: "coragem é desapego". Descubro-me corajosa, bem mais do que imaginava. Tenho tentado me desapegar de tanta coisa. Do ontem, um passado estático. Do amanhã, de que nada sei. Até do hoje que por vezes me parece confuso, ou louco. Ou o mesmo de sempre, mesmo sendo outro, mesmo sendo tanto. Será que queria mais? Será que merecia mais?
Desapego é necessário. Imprescindível,  mas nada fácil. Desapego dos padrões impostos deste tenra idade e que ainda nos margeiam na vontade de acertar, de "ser alguém", de provar que somos algo que vale a pena. Para nós mesmos, inclusive. Desapego da ideia, muitas vezes exagerada, de que fizeram de nós, positivas ou nem tanto. Desapego do quanto esperamos de nós, nós mesmos e o mundo ao redor. Desapego de sonhos , de castelos de areia construídos bem à beira do mar nem sempre amigo. E apego ao que é sonho, sim, mas sonho palpável, sonho real. Não aqui, ao alcance das mãos sem nem esticar. Mas acolá, onde a mão não chega hoje, mas quem sabe amanhã?
Desapego de sonhos que  nos fizeram sonhar. E em meio ao meu sonho, pesadelo de tanto esperar. Desapego de sonhos que sonhamos sozinhos, sem que o mundo conspirasse. Mas batalhando sempre, nem que seja para chegar perto do todo que pensamos ser, ter, dos castelos que construímos em nossas cabeças e que a vida mostrou que "não é bem assim". Mas sabendo serem possíveis outros sonhos, tantos outros, tantas coisas a realizar, tantas coisas ainda a passar, tantas escolhas ainda a fazer, tocáveis, e acima de tudo úteis. Sonhos mudam, com o passar dos anos e a chegada da sabedoria, que vem , por vezes, lenta demais ( mais vem)  e dos dá ideia mais correta do que sonhar. Mas sonhar sempre, pois eles nos impulsionam, nos mantém alertas, nos mantém vivos. Vibrantes. Mas  outros, quem sabe, e dessa vez importando apenas que sejamos os melhores possíveis aos olhos do Pai , que cumpramos da melhor forma as tarefas que nós mesmos escolhemos antes de aqui chegar.
 E que assim seja...

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Chave


Cá estou eu, de volta ao lar, depois de dois dias de correria. Bom viajar, mesmo a trabalho. Bom viajar, mesmo que se prefira ficar. Viajar dá um certo afastamento dos dias corriqueiros, uma nova visão sobre o mesmo. Eu como arquiteta e sempre voltada ao detalhamento das coisas, sei que nem sempre ver as coisas muito de perto, aumentadas, esmiuçadas, é bom. É a mesma sensação de quem se vê num espelho de aumento pela primeira vez.  As rugas, antes marcas do dia a dia, parecem marcas de anos a anos, sai do passo a passo e vai para passos largos, nem sempre bem pensados, nem sempre bem vividos. Nem sempre bem vindos. E por vezes nos assusta. 

Mas voltando ao tema - volta ao lar -  descobri que minha casa é meu porto. Não a casa em si, simples sobreposição de objetos, palco passageiro de me ser, mas quem habita dentro dela. E dentro de mim. Longe dela, navego, porque é preciso, pois a vida nada mais é que isso: por o barco na água do dia e ver no que dá, se peixe ou nada. Ver onde dá. Ir além e voltar. Viajar é bom, por vezes necessário, não escolha,  mas saber que se tem para onde voltar , e que esse voltar será pleno - mesmo que o mesmo de sempre ( estaria ai o seu real valor?) - não tem preço que pague. Não tem porto mais seguro, mais iluminado. Essa calmaria interna, esse sossego de alma, esse saber-se inserida e amada num mundo menor, não tem preço. Não tem preço ver o brilho no olho do amado, a alegria nos rabinhos dos cachorros.Não tem preço sentar e escutar as peripécias do dia, nem tem preço o meu silencio em escutar amorosamente a mesma coisa , contada tantas vezes e ainda tão boa de ouvir, feito os contos dos livros de infância.  Pode-se, até, adiantar as falas de tão batidas. Mas é nesse "batido" que reina uma paz indescritível...

Estava longe. Mas estar ao lado de meu filho também me enriquece. É um outro amor, mais leve, porque já tem lá seu próprio barco, seu próprio navegar. Talvez eu seja o seu porto. Mas isso dava outro texto...
 menina faceira, rio de minhas aventuras com as palavras e dou uma de Fernando Pessoa: navegar é preciso. Mas aportar é melhor...