terça-feira, 15 de outubro de 2013

Muitas


Hoje madruguei ( mesmo!) em minha caminhada à beira mar. Ando me despedindo dele, aos poucos, para não doer demais, pouco nele e muito em mim...A areia nem morna estava, acho que nem acordada. O mar ainda manso, como manso o sol, mas já gostoso na pele. E enquanto dava meus passos, cabeça longe , como em oração, meus olhos não saiam do chão.Tanta coisa linda para olhar ...e meus olhos não viam mais nada com atenção. Conchas. Meu olhar de menina grudada nelas, uma a uma. A praia anda cheia, quase areia. De todos os formatos, de todas as cores, de todos os tamanhos ( menores do que as de fotos de capas de revista, mas enormes aos  meus olhos). Conchas. Longas, curtas, gordinhas ou magricelas, lisas ou rebuscadas, umas desenhando labirintos internos. Tem até concha xadrez, penso. E tem. E de listras. E penso que foi inspirado nelas que desenharam tecidos, alguns, creio. Ou que combinaram cores. Ou que repensaram cores. Inspiração. Conchas. Tantas e tão diferentes umas das outras, feito nós, que deve ter lá cada uma a sua identidade, a sua digital, algo que as diferencie aos olhos de Deus. Inteiras ou quebradas, perfeitas ou defeituosas, bem feitas ou grosseiras. Conchas. Todas diferentes e todas...conchas! Será que foram feitas uma  a uma? Será que tem alma? Será o que sentem? 

Assim devemos ser no mundo. Assim deveríamos ser. Iguais, mas diferentes - ou diferentes...mas iguais? Deveríamos ser mais iguais. Os mesmos, mas únicos, mas o mesmo no todo. Cada um de seu jeito, cada um de seu formato, cada um de sua cor. Cada um com sua crença, com seu morador interno, cada um com seu favor. Cada um, um, por fora e por dentro. E ao mesmo tempo... iguais. Perante o Pai , que as fez uma a uma, mas as trata como todas. Perante o mar, que vira mãe, as embala e alimenta. Perante os bichos que delas se alimentam - inclusive o bicho homem, direta ou indiretamente. 

Conchas. Acho-as tão lindas que queria juntar uma a uma e levar para casa. Olho-as como joias raras. Penso nela como tesouros. Guardo-as como obras de arte. Vejo a bela forma, me apaixono pela cor. E me dói - no coração e nos pés - vê-las "desperdiçadas", "descartadas", pisoteadas tantas e tantas vezes até se misturarem e virarem uma coisa só com a areia da praia ( ela que já foi pedra...). Tenho pena de pisá-las como se fossem sentir dor. Mas não. Eram abrigo, agora "nada". Eu é que dou a elas um valor... 
Conchas. Bom vê-las, assim, juntas, fazendo parte desse caminhar...

“(…) E aprendi que se depende sempre de tanta, muita, diferente gente. Toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas. E é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá. É tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense que está…”
Ana Jácomo


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Máscaras




Hoje estou num dia cheio de "nãos" e de "talvez". Talvez porque a gente , os otimistas incorrigíveis como eu, espera muito da vida e se assusta quando não dá. Mas eu prefiro um belo e sonoro "não", se for esse o caso, do que um "pausático"  "talvez".É como se o tempo ficasse parado esperando a terra voltar a girar. Historinhas do tipo " o gato subiu no telhado" não se sustentam frente a minha impaciência e transparência: o gato, no meu caso,  logo cai do telhado, nem que seja eu quem o tire de lá. 
Prefiro a tragédia de um ato do que drama interminável de novela ( coisa que detesto!). Os talvez  - e toda a sua família transgênica do "quem sabe", do "pode ser", do "vou pensar", do "amanhã te digo" me matam po dentro, deixam uma incerteza no ar que não gosto. Me deixam stand by, coisa que não sei ser - e nem quero para mim. Prefiro, nesse caso da vida real, o preto no branco. Fujo das nuances de cinzas, mais ainda dos infindáveis cinquenta tons. Parecem dia nublado, em que o sol fica naquele "vai não vai" , vou não vou", se escondendo por detrás de nuvens. Vai ou não vai? Sim ou não? Já falei muito isso, mas pouca gente acredita, dada a minha tanta poesia que sai da boca: sou prática. Direta. Curvas, para mim, só em passeio pela serra em dia fresco de verão - e sem neblina, por favor! Ou em bela estrada de chão quando saio sem destino e sem pressa, respirando o ar puro das manhãs.  Ou desviando dos tantos banhos que o mar tenta me dar em minhas caminhadas? Acho tudo isso divertido...

Hoje foi um dia recheado de nãos e de talvez. Pareciam recheios de sanduíche que não se sabe o que tem. Mas não me derrotou. Deve para isso existem os dias, muitos, e uma noite entre eles: para que a gente tenha tempo de esquecer o que "não deu" e tente tantas e tantas outras vezes...Talvez o talvez venha de outra forma, mais poético. Quem sabe o não vem numa frase de amor...talvez assim seja, talvez assim fosse, talvez tudo não passasse de brincadeira, avida comigo e eu com ela?

"Há sem dúvida quem ame o infinito, 
Há sem dúvida quem deseje o impossível, 
Há sem dúvida quem não queira nada 
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 
Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 
Ou até se não puder ser..."
Álvaro de Campos

Há, sem dúvida, quem ame a dúvida...mas eu, não!


domingo, 6 de outubro de 2013

Tum - tum - tum




"O tempo é sempre invariável. Nós é que mudamos dentro dele.
  E é disso que é feita a vida Não de tique-taques. Mas de tum -  tum -  tuns"

Escrevi isso faz um tempo. Veio sei lá de onde, esse mundo interno no qual passeio como quem caminha por entre a mata densa dos pensamentos e, volta  e meia, vê um pouco de luz, faixo breve de sol. Um breve aquecimento de alma. Um breve despertar. Com se meu eu interno respondesse a tantas  e tantas indagações que em mim fazem morada. Meu mundo interno parece mais um albergue, pousada breve de tanto entra e sai, tanto mudar de ideia. Outras fazem nele morada eterna . Um eterno que pode durar anos sem que eu mesma perceba sua permanência em mim. Quem sabe virou "da família"? Tenho pensamentos que, se revelados,  eu mesma me assustaria. Não pela profundeza e sim,  muito ao contrário: transparentes como água cristalina de riacho de pedras. Tão ali, na cara, tão ingenuamente simples que me taxariam de louca. E não é esse nosso maior medo, sermos taxados de algo? Vivemos em prol do que pensam  ou venham a pensar de nós. Vivemos para agradar ao outro , primeiros aos pais, quem sabe avós, depois os amigos, os patrões, mais tarde os amantes, um dias os filhos, quem sabe aos netos. Para satisfazer as expectativas do mundinho ao redor, nem que para isso se mate um  pouco - ou muito - do que realmente somos. Ou queríamos ser, se deixassem. Se deixássemos. Se tivéssemos coragem o bastante. Se, essa mera "conjunção subordinativa condicional"  nos condicionando tanto... Parece mais um futuro impossível. 
O tempo, ah, ele passa, vai em frente, sem nem olhar para trás. Segue sua cadência monótona e chata, que dá sono.  Preferia viver vida em meu próprio compasso. Sentindo meus batimentos cardíacos, as faltas de folego de tanto rir, o alívio depois de chorar - de dor, tristeza ou encantamento. O disparo dele ao menor olhar de mar do amor. No caminhar a beira mar, ou olhando as matas ao redor de mim, tanto faz. Ao ouvir canto de pássaro qualquer. Gosto de sentir a pulsação da vida correndo nas veias. Gosto de me saber vivendo mais e mais. Não importa o que, não importa como. Importa que sei onde quero chegar...Liberdade deve ser poder viver a vida que escolhi e  no meu ritmo, no meu tum -tum - tum, sem relógios ou condicionamentos - ou expectativas -  a me guiar.



Desperta




Domingo. Quem me conhece um pouco que seja sabe o quanto gosto dele. Mais ainda desse silêncio matutino, quando a casa e todo que a cerca ainda estão adormecidos. E muito mais ainda tendo como companhia o mar. Hoje sou eu e o mar,esse complexo mar que me traz seu canto, sua luz, sua forte imagem. Olho para essa grandeza toda e me sinto mínima. O que posso eu diante dele? O que sou diante desse universo todo que parece não ter tempo nem lugar? Veio em minha mente, quase que como resposta, o  pensamento de Madre Tereza de Calcutá

"Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. 
Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota"

Acordei com um universo de pensamentos em mim.Um mar de pensamentos revoltos feito ondas.
Minha mente viaja. E a deixo partir, porque sei que vai voltar, melhor e mais forte. Lembro de um texto espirita que estou lendo sobrea Gênese, sobre a grandeza do Universo, da Terra, dos mares. Até o enorme mar é uma gota dentro do projeto todo. E se eu for me ater a esse mais que complexo projeto, ah, sou nada. Uma partícula tão insiginificante, tão "nada".Mas sou. Somos. Madre Tereza tem razão: somos um mínimo, sim, mas fazemos parte de um Todo. E sem esse "nada " que somos, a vida , essa vida, não seria a mesma. Sem uma só gota, esse mar enorme em minha frente , para onde olho e  não vejo o fim, seria incompleto.E se pensarmos como gosto de pensar, que são tantas e tantas Terras por ai bem vividas, e tantas  e tantas vidas nesse mesma Terra e mais tantas e tantas vidas fora dela que eu mesma já tive - e terei -  que essa vida de agora, esse momento meu, que imagino enorme, tudo um átimo. Eu, um mundo todo à parte, eu mesma um universo em constante transformação - desde as células aos muitos pensares - e ao mesmo tempo tão pouco. Eu, ser único e essa vida uma passagenzinha de nada. Mas uma passagenzinha de nada que se pretende melhor do que foi, e melhorando tudo que haverá. 
Complexo? Simples, se pensarmos no todo que é. Mas assim é essa vida e a sucessão delas. Um passeio pelas "terras", onde a nossa única tarefa é fazer-se melhor, caminhos e nós. Viver melhor cada momento -  ele, sim, um minúsculo tempo. Dar para essa vida o que temos de bom. Ser melhor a cada segundo, a cada batida de nosso já meio cansado coração. Fazê-lo vibrar da melhor forma possível. Um eterno ( porém  pouco) acerto, ajustamento, crescimento, se possível. Minusculo, mas insistente crescimento, quase imperceptível, mas que alguma coisa há de melhorar. E como se diz por ai, só se cresce de duas formas: pelo amor ou pela dor. Eu escolhi crescer pelo amor, que pode ser visto como um caminho fácil, mas não é. Amar não só os que amamos, os que nos amam, os que queremos ao nosso redor. Amar assim é festa. Amor em seu sentido mais amplo: amar a quem não temos nenhuma afinidade - e quem sabe nem conheçamos - ou, mais forte ainda, amar a quem odiamos, como já lemos tantas e tantas vezes sem nem entender - ou mesmo querer entender , grande lição. Pois é esse outro amor que nos faz crescer, evoluir. Entender os ciclos, as passagens. E, quem sabe, na próxima tentativa de vida, estar mais apaziguado consigo mesmo.E com o mundo.
Mas nesse vida quero amor. Não, não é fácil aos meus olhos pequenos, ao meu curto olhar. Pede desprendimento, coisa para o que não somos preparados - e nem queremos. Pede desapego, da qual já falei tantas vezes que parece um mantra. Desapego não só do necessário, mas do todo. E desapego de nós. Desapego de sonhos que um dia foram sonhados sem nem se saber porque, ou para que. E nessas horas pensar que tudo que nos acontece é por conta de nossas escolhas, tantas e tantas no dia, quase infinitas na vida, nas vidas. Pensar que tudo é o mais puro merecimento. E se não alcançamos os sonhos tão sonhados, se foi porque escolhemos errado os sonhos. Ou se pegamos o mesmo caminho de sempre esperando chegarmos em outro lugar...
Sinto na pele o sol que entra. O dia amanheceu em paz. O mar que parece o mesmo, é constante movimento, constante vida. Não para para pensar. É. E nesse é, muito. Talvez se dê conta de que , mesmo sendo muito, nada é.