quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Máscara




"A vida pede leveza e o coração exige respeito não do outro, 

mas de você consigo mesmo."

Cecília Sfalsi

Acho que ando precisando ler mais vezes essa frase...mais e mais até reaprender ( ou aprender?) a me respeitar. Não a pessoa que sonho ser, mas a pessoa que realmente sou - e nem sempre gosto ou mostro. 
A gente cuida tanto para não magoar o outro, não chatear ninguém, cuida tanto para parecer uma pessoa centrada, correta, eficaz, sempre alegre, sempre de bem com a vida - nem que seja para agradar aos outros - que esquece de agradar a si mesma. Esquece que a vida não é um conto de fadas, não é um romance barato, nem um perfeito filme clássico. Não somos Cinderela, que de dia limpa  a casa e de noite acha um príncipe. Nem Bela Adormecida que fica a espera do tal beijo que tire o encanto ( queremos, mais, é um beijo que nos encante, não?). Por vezes, eu mais pareci a Chapeuzinho Vermelho que, na melhor das intenções, quase (quase?) caiu na lábia de um velho lobo...
A vida mais parece um filme de Woody Allen , muitas vezes sem nexo, outras tantas ridícula, em que, para se parecer vencedora, temos que esconder um lado nosso, o real, o verdadeiro. E se olhássemos de longe, quem sabe daríamos boas gargalhadas de nós mesmas? Ou sentiríamos vergonha? Os anos passam e queremos ser, ainda, aquelas meninas educadas, sentadinhas ao lado das mães, à espera que a vida nos chame para brincar - sim, mas sem sujar o vestido! Ou a moça recatada que espera, pacientemente, que um moço qualquer  atravesse o salão e nos tire para dançar...E quantas e quantas vezes nossa vontade era sujar o vestido de terra,  ou limpar nele as mãos sujas de chocolate, ou entrar com ele no mar? E quantas e quantas vezes a vontade era de atravessar o salão e "se oferecer"? 
Queremos ser perfeitas, incansáveis, filhas inesquecíveis, mães exemplares , ótimas companheiras, excelentes amigas ou inseparáveis  irmãs...mas esquecemos que somos mulheres de carne e osso. Esquecemos que temos sentimentos, que somos sentimentos , que somos sensíveis ( ainda mais em certos dias, não?), ao mesmo tempo que se queria tão somente respeito. Mas se nós não nos respeitamos, não respeitamos nossas horas de silêncio, não respeitamos nossas horas de tristeza, de mágoas, de raiva, até , como queremos ser respeitadas? Se não respeitamos o que realmente somos, como pedir o respeito que não temos?
Leveza. Hoje eu só queria leveza. Ver a vida de forma mais mansa, amar sem tanto mergulho, fazer as coisas com amor, sim, mas sem tanta precisão. Sem tantos ter que e mais por simplesmente querer. Armar-me mais. Amar-me mais e de verdade. Defender meus princípios, minha ideias reais, ser quem eu realmente sou - até aquela parte que escondo de mim mesma para não caie no desagrado,  não cair no desalinho. Amar-me egoísticamente, egocentricamentre, vez por outra.  Ser eu mesma, sem me preocupar com o que vai pensar o mundo. Quando, para não demonstrar fraqueza ou ser deselegante, usamos a famosa frase de Clarice:

 "Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada"
Clarice Lispector

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Roubo



Poucas coisas me ensinam mais  - e me marcam mais  - que filmes. Amo as imagens, sim, as histórias bem contadas, sim, mas amo, acima de tudo, os diálogos bem feitos, bem arquitetados, feito armadilhas onde caio com gosto...me jogo.
E não foi diferente quando assisti, pela infinitésima vez, O caçador de pipas, baseado no livro de Khaled Hosseini. Para muitos, um filme triste. Para mim, toda a poesia do lado triste da vida, tendo ele também seu lado alegre. O lado B, de bom,  que falo tanto...Gosto quando um filme me faz chorar, sim, mas mais de emoção do bonito, do emotivamente forte, do bem pensado, do bem feito, que da tragédia em si. Mas um diálogo entre pai e  filho me marcou - e marca! - muito. O pai, integro; o filho com a integridade ainda nascente, semente ainda fraca até então:
 "Existe apenas um pecado, um só. E esse pecado é roubar. Qualquer outro é simplesmente a variação do roubo. Quando você mata um homem, está roubando uma vida. Está roubando da esposa, o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando mente, está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, está roubando o direito à justiça [...]" 
Nesse processo pelo qual passo - ou melhor, da qual saio, não ilesa -, onde, descobri, em conta gotas, que a mentira fazia parte do meu dia a dia,  idealizado perfeito, me pareceu perfeito. Sem tirar nem por. Mentir é roubo de sonhos. Roubamos o tempo dos outros quando os fazemos perder tempo ao nosso lado, quando falamos - ou fazemos - coisas de pouco valor. Ou fazemos o outro de pouco...Roubamos a felicidade do outro quando os enganamos. Roubamos um pedaço da alma do outro quando não somos fieis a ele ou a nós mesmos. E, principalmente, roubamos muito de nós mesmos quando não somos fiéis ao que somos, quando deixamos de o ser para agradar ou , pior ainda, não desagradar ao outro...é aquela máxima aprendida desde tentar idade: agradar para ser agradável...não para ser feliz...
Somos roubados da vontade de viver, quando notamos o cofre da alma vazio. Somos roubados de nossa capacidade de confiar até em nós mesmos. E, acima de tudo, somos roubados da confiança em amar de novo, até a nós mesmos. 


          Mas quando acho que meu pensamento vai longe, louco, feito as pipas que tem seus fios cortados, vem o amor e diz: " por   você, faria isso mil vezes!". E eu, otimista incorrigível, me apego a essa última frase feito porto...e esqueço os tantos e tantos ladrões de mim que passaram em minha vida...e que me deixei levar! 



sábado, 20 de setembro de 2014

#ficadica




E fica a dica: 

Não me venha com galanteios vãos, velhas frases prontas, gracejos pobres, novas piadas de velho mal gosto...Cansei de fazer de conta!
Venha com palavras bem ditas, ações poucas, mas bem traçadas, olhar de quem me entende sem dizer nada e um senso de humor inteligente que roube de mim minha melhor gargalhada, sem minha permissão...Só assim, conseguirás o que tenho de melhor. Só assim,  você entra em minh'alma e faz morada♥
"Desculpa, ai!". Mas é que ando me amando demais. Então, o pouco não me serve, o falso não me soa, o dito pelo dito não me entra, o mal passado não me alimenta. Simples assim. Você pode servir a quem está morrendo de fome, para quem procura a cara metade, a outra metade da laranja. Mas eu descobri que quero ser inteira, que sou inteira, laranja toda, da casca ao bagaço, sabor e fibra. De tanto passar fome alimentando a fome do outro - e não a minha -  de tanto sair à busca da cara metade, um dia me enxerguei de verdade e gostei do que vi, ali, inteira, sem precisar de metades para me complementar. Sem precisar do outro para ser feliz. Sem querer mais ou menos, sem esperar o outro, sem precisar de uma cara que não seja a minha, ou esperar , sentadinha, pelo sim do talvez. Talvez não me serve. Pode ser não me cabe. Quem sabe? Ah, você não sabe de nada! Porque dos outros eu só quero certezas. Esperanças? Só as minhas. Sonhos? Só os meus. 

E enquanto eu cozinho, eu brinco...e enquanto eu brinco, eu canto...
E enquanto eu canto, eu danço..
E enquanto eu cozinho,
brinco,
canto
e danço, 
sorrio!
Vivo!
Viva!
A chave está ai... mas vou demorar a dar a cópia...


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Verbo


"A palavra, como se sabe, é um ser vivo"
 Victor Hugo (1802-1885),escritor e poeta francês.

A nossa língua - língua pátria,  e não esse órgão que sempre cede aos apelos exagerados do cérebro e se contorce demais, e se faz dona da razão, até que se morda!  -  tem armadilhas nas quais caímos e nem nos damos conta. Como o uso de verbos, como se fossem simples palavras, mas não o são. E como modificam os significados! E como nos modificam, como se tivessem  vida própria, como se nos dessem vida nem sempre própria. Como se fossem , bem além de palavras, ações incutidas em nós,  tomando conta de nossas ações e, pior, de nosso jeito de ser. 
Por exemplo? Verbos ser e estar. Existe uma diferença crucial entre o verbo ESTAR e SER! O que a gente , muitas vezes, não se dá conta. Posso ESTAR triste, mas não SOU triste - minha natureza é feliz, meu viver é feliz! Posso ESTAR confusa em relação a sentimentos, mas não SOU confusa em relação a isso. Posso ESTAR errada em relação a muitas coisas, mas não SOU errada o tempo todo e em tudo...E por desconhecer o real sentido dos verbos, nós mesmos nos preterimos...Nós mesmos nos classificamos, geralmente em letrinhas tão miúdas mas de enorme significado. 
É sempre bom lembrar a frase postada outro dia: NADA É. TUDO ESTÁ. E assim segue a vida...hoje feliz por estar mais feliz que muitos outros dias de minha vida...Ou, se não, com a certeza de que dias melhores virão. Essa é a vida, em constante movimento! Hoje estou, mas não sou. E o que sou é o que realmente me define. 
O que sou é o que me faz unica...como você!



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Rumo




E eis que hoje, voltando para casa por caminhos conhecidos - mas sempre admiráveis - e  conversas que não me levaram a lugar nenhum, a não ser ao acesso rápido ao mundo das tristezas, lembrei-me da frase atribuída a Chico Xavier ( sim, atribuída, já que deve ter vindo através de um espírito amigo):
"Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”. 
Tomei caminhos por pura paixão, feito marujo de primeira viagem sem destino, seguindo o  capitão. Paixão de alegres olhos azuis e paixão pelo desconhecido, pela aventura., pelo novo depois de anos de mesmice do nada em minha vida. E me deixei levar, feito balanço gostoso do mar quando se boia. E engraçado que, desde pequena, aprendi a ver os perigos do mar mesmo antes de colocar uma ponta de pé na água. Minha falecida vó ensinava a molhar punhos e nuca antes de se jogar. Outra, a me benzer antes de mergulhar. Com a  permanente convivência, aprendi a ver onde tem repuxo só observando o mar ao longe e como isso se desenhava dentro dele, para onde ele levava as águas mais distraídas - e as pessoas também. Com minha mãe aprendi a ver tempestade bem antes dela chegar, e observar toda a sua força e beleza quando já em lugar protegido. Aprendi a respeitar o que é 
mais forte e maior que eu.

E eis que, muitos  anos depois, entrei num barco e me deixei levar. E hoje, vendo o que faltou do sonho e sobrou de realidade, agradeço a Deus pelas tantas saídas que me tem mostrado para que a maré não me leve mar a dentro. Será uma dura viagem, muitas vezes solitária, muitas vezes ao desconhecido, sendo eu minha própria capitã. Serei capitã e marujo de mim mesma,  tomando decisões, pegando novas rotas, acertando novos rumos de navegação. E , quem sabe, olhando o céu em busca de respostas.

Chico  - ou seja lá quem for - tem razão. Não dá para voltar atrás e pegar um novo rumo, um novo começo. E de nada adianta carregar meu navio de tristezas, de mágoas, se o capitão se lançou ao mar. O jeito agora é tomar conta da nova paisagem, conhecer bem os novos mares  e dar o melhor de mim para "chegar lá". Um "lá" que pode não ser nem de perto o que imaginei, mas terra firme.

Então, me animo, lembrando do pirata Walshingam, no filme Elisabeth,  falando tão poeticamente sobre a emoção da descoberta de novas terras, d e um novo mundo:

"Pode imaginar o que é atravessar o oceano...durante semanas não se vê nada além do horizonte perfeito  e vazio. Você vive no domínio do medo. Medo de tempestades. Medo de doença a bordo. Medo da imensidão. Então, direciona esse medo lá para o fundo do seu ser. Estuda os mapas. Observa a sua bússola. Reza por um bom vento.  E tem esperança. A pura, nua, frágil esperança. De inicio, não é mais que uma bruma no horizonte. E você fica observando...observando...Depois é uma mancha, uma sombra n’água distante. Por um dia. Por mais outro dia. A névoa lentamente se espalha ao longo do horizonte, tomando forma, até que, no terceiro dia, você se permite acreditar...atreve-se a sussurrar a palavra: terra. Terra. Vida. Ressurreição. A verdadeira aventura saindo do vasto desconhecido, da imensidão,  para a nova vida."

Esperança...a pura, nua, frágil esperança. Isso me move. Mesmo sem piratas, mesmo sem ser rainha de nada, mas já em novas terras, dando o melhor de mim... 

domingo, 24 de agosto de 2014

Nua



Cá estou eu, em pleno domingo a noite, conversando com as tantas joyces que sou. Brindamos com um bom vinho, ao som encantador de Amelie Poulain,  com uma alegria interna só nossa, imperceptível, não visível a olhos frios, em comemoração à vida que temos levado. Em comemoração às escolhas feitas, aos passos dados. Comemorando, talvez,  não a tão sonhada vida, tão esperançosa vida, quase fantasiosa vida, mas a vida real, nua, pele, sangue, pé no chão, que se leva da melhor forma possível com o que nos vem, com o que se tem...
Entre um gole e outro, lembro de um trecho de Clarice Lispector no livro Um sopro de vida:
"Ângela diz, como milhares de pessoas dizem (e com razão): 'minha vida é um verdadeiro romance, se eu escrevesse contando ninguém acreditaria'. E é verdade. A vida de cada pessoa é passível de um aprofundamento doloroso e a vida de cada pessoa é 'inacreditável'. O que devem fazer essas pessoas? O que Ângela faz: escrever sem nenhum compromisso. Às vezes uma só linha basta para salvar o próprio coração."
Escrever me cura. Escrever me traz respostas, como quem deita confortável no próprio divã e abre o coração.  Um diálogo sincero, honesto, entre as tantas que sou. "Às vezes uma só linha basta para salvar o próprio coração", diz ela. Às vezes, um só momento meu, eu comigo mesma, me acalma o coração de tal forma como se ele me confortasse - e não eu a ele. Como se ele me desse mais uma das tantas e tantas "altas" que já tive nessa caminhada da vida que escolhi para mim. Sim, lá no final veremos que nós é que escolhemos cada passo, cada ínfimo  pensamento, cada íntima ação. Nós é que escolhemos que lado nosso queremos alimentar. Se o que, no íntimo, na conversa quieta com nossa alma, queremos ser, ou no outro, que se deixa levar por convenções, regras de boa conduta, convenções de toda ordem,  já tradicionalmente traçadas, caminhos por onde nos deixamos levar. E eu me pergunto: quero ser eu mesma ou o que esperam de mim?E em meus mais íntimos diálogos, mesmo que muitas vezes eu mesma me surpreenda com as escolhas feitas, sigo feliz. Do meu jeito, talvez torto ( quem sabe mais criativo?). Não uma felicidade plena, constante, mas a verdadeira felicidade de se ver crescendo, amadurecendo, maturando escolhas, aproveitando o que a vida tem de bom para me dar. E sabendo reciclar o que não é mais meu - se é que um dia já foi.Cá estou eu, em pleno domingo a noite, calando os meus tantos eus com respostas talvez não certeiras, talvez não terminadas em exclamação ou ponto final, mas respostas sinceras, mesmo que cheias de etcéteras, de três pontinhos, ou seja lá o que for. Porque nem eu sei onde isso vai dar. Porque nem eu sei onde eu vou dar. Porque nem eu sei onde vai dar meu coração...mas sigo, confiante em mim. E isso me basta. E que  isso nos baste. 

domingo, 17 de agosto de 2014

Mais minha




O que mais me encanta em um bom filme, muito além da história que conta , da profundeza dos personagens e das lindas imagens que mostra, são os textos. Palavras bem colocadas me encantam...faladas, escritas, gravadas em mim...

E hoje foi a vez de rever "Elizabeth, the golden age", sobre o incio do reinado da rainha Elizabeth, da Inglaterra, em plena luta contra a tirania  do imperialismo espanhol, em nome de uma da tantas  e tantas guerras "santas" que de santas nada tem...
E, como não poderia deixar de ser, foi de lá que tirei esse texto sobre coragem:
"As forças que moldam o nosso mundo são maiores que todos nós. Quando a tempestade irrompe, cada um age conforme a sua natureza. Alguns ficam mudos de pavor. Alguns fogem. Alguns se escondem. E alguns abrem as asas como águias e alçam voos. " 
Parei para pensar , ainda assistindo ao filme, que tipo de "rainha" eu seria. Que tipo de "rainha" eu sou. Não nascemos de um jeito para morrer da mesma forma. Isso seria involuir ou, pelo menos desprezar a  máxima da vida que é crescer - e não só de tamanho, e não só para os lados...E se me pego pensando no apelido que minha mãe me dava, de "calmante" pela minha capacidade, ainda uma menina, de acalmar meu pai, de distrair o olhar dele ara coisa melhores, mais amenas...Os das vezes que, ainda mocinha, apartei brigas, segurei palavras, limitei atos que, se feitos, pegariam um caminho sem volta. Depois passei por um longo período de intolerância com tudo que achava não certo para mim. Relutava em conversar, pegava outro caminho se aquele se achasse , aos meus olhos de "mulher do mundo", ou rainha do meu, desinteressante. E hoje vejo que a tolerância e a compreensão  verdadeiras das coisas teriam me levado por , talvez ( na vida sempre há muitos deles) , belos caminhos. Quando a gente vive momentos que, volta  e meia, mesmo passados bons anos, povoam, vez por outra, nossa mente já atolada de lembranças, gaveta cheia, é sinal nítido que eles fizeram diferença em nós. 

E hoje, bem ou mal, sinto-me muito bem com minha nova roupagem. Fica mais leve a cada ano. Fico mais leve a cada ano. Um peso inversamente proporcional a leveza  que vejo na balança e ao numero de velas que tento soprar uma vez ao ano. Coisas de importância  - geralmente as não tocáveis - ganham importância. E outras, tantas e tantas que eu levava a sério, hoje me educo. Leveza, isso que tenho procurado, mesmo que eu mesma ainda não saiba por completo. E isso tem feito eu suar de leveza na fala, nos gestos, das delicadezas que dou ao meu mundo. Na comida que ponho em meu prato. Na roupa que visto, cada vez mais minha. Nos meus gestos, cada vez menores em atos, e cada vez maiores em valor. Nesse amor que sinto que se transforma cada dia um pouquinho mais e  deixa de ser posse e razão para ser mais liberdade e emoção.  E nos momentos de tempestades - e tenho atravessado tantos -  o susto ainda me pega. O medo também, mas acho que ele me salva de mim mesma, me salva dos erros do passado. A tempestade me assusta, mas não me intimida. Estudo a situação, monto a estratégia de sobrevivência  e  respiro fundo. E tento sair do lugar. talvez ainda longe da destreza e força das águias, mas já  de asas prontas para voar. Se não para longe, feito fuga, para o mais perto que  dê  para chegar. No meu tempo, no meu lugar, de onde, vendo de longe, a tempestade tem outra cara, menos assustadora, mais minha...

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Madura



Tem gente que morre de medo de envelhecer. Eu morro de medo de morrer ser ter sido. Os anos passam e continuo me olhando no espelho e achando o que me sirva, o que me faça bem e me lembre que minha beleza não é só essa que o espelho mostra. Vejo minhas rugas como marcas do tempo, sim, mas da vida que levei. E não é a pele que me diz se vivi ou não: é o coração...
E não é assim na natureza? A fruta boa é a madura. O bom vinho, o mais curtido, toneis de carvalho. Colho de mim o meu melhor, bebo de mim meu  melhor doce, meu sabor mais profundo, minha melhor cor. Meu melhor gosto, sem me preocupar do que acham de mim. Não quero que achem nada de mim, coisa muito vaga. Quero deles só certezas. Dou meu melhor conversar, meu melhor ver a vida, viver a vida,  sem os arroubos da juventude. Viver a vida sem pressa. Talvez isso seja a tal maturidade. Talvez seja isso nossa profundeza. Saber o que se quer ...e , ainda mais importante, o que não se quer da vida. Nem de nós, nem do outro. É aceitar os desvios do caminho, posto que não somos videntes e nem a vida evidente, e fazer de cada novo caminho, renascimento. Aceitar nosso erros e recomeçar tantas e tantas vezes for preciso, sem medo do que pensam ou dizem - não sou dada a alimentar línguas alheias. 
Não, não sou adepta de máscaras, nem de plásticas, nem de grossas maquiagens: é como ser sem estar sendo. Não me vejo ali, não sou eu. Não me visto feito menina, não me comporto como adolescente, e muito menos "velhamente". Meu tempo é outro. Meu tempo é hoje. Meu tempo é só meu. E vai muito além das horas que passam, dos tique taques marcados, dos dias riscados, dos anos mal contados, do viver por viver...
Maturidade é se aceitar como se é, sim, mas provocando reformar internas aqui e acolá. Como bela colcha, cada cor, cada ponto, cada escolha, um caminho, cada dia um pedaço, e em cada pedaço , o melhor de nós! E se algo deu errado, um ponto falhado, desmanchar sem medo de recomeçar! 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Maduro



Está certo...você já ouviu falar disso. Leu, até gostou, mas pensou entre seus botões: essa conversa não é comigo:  
...o amor tem que ser laço, não nó... 

O laço é coisa bonita, enfeite do bem. Abraça o presente, embeleza a vida, traz surpresas para lá de boas. E fica aquele tum-tum-tum entre o que se espera e o que nos vem. E se a gente não souber desatá-lo bem, cheios de expectativas enormes e até fora, por vezes, do mundo real, não imaginária ou sonhado, vira nó. Se a gente vivê-lo na euforia, abrir o embrulho sem nem pensar, apenas com a emoção, o que parecia enfeite vira coisa difícil de desatar. Afoga o presente, amassa o pacote, rasga a cara, amassa a presença. Sufoca. Pode até matar o amor de laço. 
Amor de laço é calmo. Vem com o tempo, amor de vivência. Meu amor vive o outro e , sábio, nada espera. Não tem o calor,  por vezes sufocante e embriagador, da paixão, que queima o papel do presente antes mesmo de vivê-lo inteiramente. Antes mesmo de conhecer o que ele tem por dentro. Que rasga e escancara antes mesmo de sabê-lo seu, ou não. 

Amor de laço primeiro se enlaça com quem presenteia, vira abraço demorado, terno, eterno no minuto em que cabe. Foge da escala do tempo, pára o relógio das horas. Troca o olhar devassador pelo olhar terno. Não despe, mas veste sua melhor roupagem. Faz do caminho do que se pensa ao que se tem bela caminhada sem pressa, mãos dadas entre quem dá e quem recebe. 
Mas, quem disse que fazer laço é fácil? 
Nó é travesso e atravessado: só puxar, trava o traço. Enforca e é enforcado. Queima o descuidado. Laço é delicado, manso, desenha no espaço. Feito dança, tem compasso, fala mansa, olhos de ver. Amor de alma, mas não de amante, efervescente. Gosto de bolo com leite. Calor de aconchego. Colo manso.
Meu bem querer...mas só vem com o tempo, quando se sabe o que se quer viver... 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Crescer





Tentar ver leveza quando tudo pesa
Tentar ver beleza quando tudo quebra

Melhorar tudo com uma reza...
E que assim seja 
Amém♥

Postei outro dia esse poema "de rompante", como quem alivia o peito. Quando a gente se sente dentro de uma tempestade, melhor não lutar. melhor permanecer - ou pelo menos tentar - calmo. Equilibrar razão e emoção. Equilibra-se, para não sair no rumor da chuva, levada pelo vento, e ao parar, nem saber onde se está. Feito guarda chuva, aos cambalhotes. 
Deve ser para isso que o tempo passa. Deve ser para isso que se amadurece feito fruta, no ponto que dá o seu melhor doce, a sua melhor maciez, a sua melhor resposta à semente que a criou. O tempo passa - ele no ritmo dele e eu no meu -  e a gente "cresce" por dentro. Ameniza os fatos. Adoça as amarguras, como quem adoça o chá amargo, vira cura. Sabedoria de quem sabe o que quer a um ponto que tem até medo de falar e os outros acharem estranho. E ao mesmo tempo não se preocupa com os outros, tantos eus que tem, tanta gente interna, já, a opinar. Sabedoria de saber a quem escutar - se o cérebro ou o coração. Ou os dois, em comunhão?
Sabedoria deve ser isso, andar descanso onde só se sentia pedra.  Molhar o pé na água morna dos dias. Sentir sob eles a relva macia. E esperar, sim, mas esperar querendo muito ainda da vida. Esperar vivendo um dia de cada vez, uma vida como única, mas fazendo parte de um universo tão imenso que nem me cabe questionar. Sabedoria com sabor de café com leite, bolo de fubá mimoso, nata cremosa para arrematar. Saber saborear as pequenas conquistas, tão ínfimas aos olhos, mas tão enormes ao coração em paz. 
Ver leveza quando tudo pesa.


Ver beleza quando tudo quebra

Melhorar tudo com uma reza...
E que assim seja



quarta-feira, 25 de junho de 2014

Divagando





Um passo atrás do outro, um dia de cada vez, uma coisa depois da outra...
Assim segue a vida, em compasso descompassado, ela trazendo tarefas , 
eu, guerreira , tentando resolver...
Só quem voa sem nem olhar para trás é o tempo...


Interessante quando a gente mesma se sente inspirada com o que escreveu. Quando o que se escreveu nos cala, faz pensar.  A sabedoria do tempo pretérito, nem sempre bem vivido, traz a máxima da não pressa. E até brinco com ela. Contra o fast food, comida caseira e conversa na mesa. Contra a conversa teclada e abreviada, quem sabe cartas de amor ? (Sonho com elas, longas, escritas a mão...). Do Amor Líquido de Baumann, fico com o namoro no sofá, o abraço demorado, o pegar na mão. Não tenho mais a preocupação juvenil do tudo para agora. Da rapidinha que deixa a desejar. Do beijo esfolado. Do ter que ser, sem nem querer. Tento aprender com o meu "novo" ritmo o passar das horas, para que elas não apenas passem, mas sejam bem vividas.  Sejam bem lembradas. Sejam equilibradas entre a razão e a paixão. Meço as palavras como quem costura uma roupa, uma colcha de ninar. Releio cada mensagem antes de mandar. Repenso cada palavra antes de dizer ( ou pelo menos, tento). Refaço caminhos que acho mais avantajados e não mais precisos. Como se o meu mundo fosse acabar amanhã e eu tivesse pleno entendimento disso, plena aceitação de que em tão pouco tempo não se faz milagres. Que o único milagre rápido e certeiro é um sorriso. Ou um beijo do amado. Ou o olhar profundo e animador. 
Um passo após o outro, como quem aprendeu agora a caminhar, passos ainda vacilantes. Um dia de cada vez, até porque nem Deus tem domínio sobre o amanhã, tamanho nosso livre arbítrio. Uma coisa de cada vez, como que aguçando o olhar de ver. Reparando - de olhar e de refazer os erros -  nas coisa ditas, ouvidas, lidas, pensadas, traçadas. Volto aos tempos de menina e me sinto mais forte, mais crédula de mim. Junto a ela essa experiencia boa que ela mesmo me ensinou que só no devagar das coisas a gente vive...Só no devagar das coisas se divaga...

terça-feira, 24 de junho de 2014

Olhos de ver



"É preciso acordar um pouco criança para ler poesia com olhos de ver. 
Acreditar que as estrelas fazem ciranda mesmo quando nos sentimos um zé-ninguém.
É preciso não precisar de nada, não esperar alguém - nem notícia, novidade ou carta 
- para ler poesia bem."

Esse trecho de texto de Monica Montone sobre o livro de Astrid Cabral, Infância em franjas, fez brotar em mim outra ideia - ou uma ideia já plantada, amadurecendo em mim, como tantas: é preciso não precisar de nada, não esperar nada de ninguém, para se viver bem...
Tenho notado, nestes dias que eu pensava ensolarados, mas nublados vêm, que a gente tem mesmo é que se apegar ao que chamo de coisas "tolas", alimentos d'alma. Alegrar-se com as pequeninas e muitas vezes impercebíveis coisas que vem até nós, como que enviadas pelos céus para nos fazer bem. Pequenos alívios. Presentinhos que recebemos - e nem sempre vemos por estarmos com os olhos fechados de ver. Mas a vida, insistente, sabe bem do que precisamos, e nos afronta, cutuca e "manda ver". Quando estamos  " de bem com a  vida", vendo "passarinhos verdes" ( porque verdes? Não podem ser azuis, amarelos, furta cor?), tudo nos parece belo, tudo nos parece leve, e nos deixamos levar. Lei da atração, diriam alguns. Mas se os pássaros perdem a cor, se as nuvens vem, quando estamos nem tão bem com a vida, essa que nos apronta tanto,  fechamos os olhos para o que nos melhora, o que nos faz bem, tantas coisas. Fechamos os olhos para os pequenos sóis. E lá vem de novo  ela, a vida, teimosa de ser, traz de novo tudo de bom, esperando que se veja. 
Para isso devem existir os momentos de distração. Aqueles minutinhos que nos deixamos olhar o lado bom das coisas ( ah, sempre tem, pense bem!). Que nos deixamos envolver pela vida, abundante que é. Que nos deixamos afastar dos intitulados problemas e lembrar que a vida é uma grande aventura, pré concebida por nós. Que se levarmos tudo a "ferro e fogo", "olho por olho" e tantas outras definições duras de se viver, a vida perde a graça. Fica dura. Vira desventura. Vira passar de horas, dias, anos, vidas até. Porque não existe apenas essa vida, nem esse amor, nem nós como somos hoje, que nos modificamos  - ou, pelo menos, temos a chance disso - todos os dias. Que aprendemos - ou deveríamos aprender - com as tantas lições dos dias. Que acrescentamos em nós o vivenciar de cada um deles. Que temos que aprender a conviver com nossos pensamentos, e filtrar cada um deles com o coração para que não virem atos mal pensados, palavras mal ditas, ideias pre concebidas. E que, se deixarmos, hão de roubar da gente esses pequenos momentos de distração, de sossego da alma, de leveza dos dias,  que só se consegue com olhos de ver...  Porque a poesia da vida está ai para ser vista, vivida, sentida, notada,  amada...nos fazer rir. Ou até chorar, mas de emoção...
Verdade seja dita: é preciso não precisar de nada, não esperar nada nem ninguém
 para se viver bem...

sábado, 14 de junho de 2014

Avesso




"Tem dia que a gente põe virgula, tem dia que colocamos reticências, tem dia que colocamos ponto final e tem dia que temos a necessidade de virar a página." 
Ana Jácomo

Penso em nós - ou pelo menos em mim - como seres em constante evolução. Ou não. Evolução que vem de cada escolha - caminho, palavra, ação, pensamento -  a cada segundo da vida.Uma escolha, grande ou pequena. Tomamos uma decisão agora, nesse minuto, ou numa noite mal dormida, onde os conselheiros nem sempre são anjos, e no outro fazemos o avesso. Bom se fosse o avesso do avesso. Ou um avesso bem feito, costura do bem. Sabemos os caminhos certos, mas, por vezes, pegamos atalhos. Ou, por medo, raiva ou até curiosidade, o caminho errado. Nossa eterna companheira, a tal intuição, cutuca por dentro, cansa de avisar: vá por lá!  Mas quem disse que a gente escuta?
E porque ainda temos dúvidas? E porque erramos? Pode ser porque nos achamos perfeitos. E , ingenuamente, queremos uma vida como tal , sem nem levar em consideração que não estamos sozinhos no mundo. Ou, bem ao contrário, muito imperfeitos, errados, coisas que nos incutiram desde tenro erro, desde o primeiro não, o primeiro tapa na mão. Ou porque achamos que para sermos felizes precisamos do outro, da sua aprovação, da provação. E a vida segue em compasso de eterna espera, de eternas reticências, simples três pontinhos que nos levam a infinita espera de que a felicidade venha bater a nossa porta, flores na mão - sem saber que ela mora dentro, e só cresce, floresce, sai, se a gente quiser,, se a gente deixar...
O dia em que a gente se assumir como ponto de partida, início de tudo, letra maiúscula antes de qualquer frase, antes de qualquer vírgula, quem sabe uma única frase dará por certo, um único ato com começo, meio e fim, seremos mais completos. Quem sabe, com sorte, uma bela exclamação. Pior coisa é parar num duvidoso ponto de interrogação, a espera de continuação ou resposta. Ou nos reticentes pontos infinitos, ou infinitas casas depois da vírgula.
Eu detesto dúvidas. Detesto em minha vida as tão perdidas reticências, três pontos que não param nunca, a não ser que seja para poetizar. E não falo dessas dúvidas simples, de ser verde ou azul, mas as doídas, intimas. Para elas, gosto tão somente do branco ou preto. O preto no branco. Cores, todas, só lá fora, a me alegrar. Se não for assim, preto no branco, melhor mesmo é virar a página. Ou virar-se o avesso. 

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Beijo meu




Fim de semana chegando, o namorado falando das coisas que quer fazer, tudo agendadinho...me peguei dando aquele sorrisinho de quem concorda só por fora e por dentro se pergunta: e eu? 
Mulher tem essa mania de fazer as coisas dos outros e com os outros e se esquecer de si mesma, não?  Temos uma dificuldade quase nativa , materna, talvez, de dizer não, de achar que vai magoar se discordar...Está certo, estar com quem se ama é bom demais da conta...Mas se a gente se amasse um pouquinho mais, não ia fazer nada mal, não?

Tenho tentado deixar uma horinha que seja, uns minutos quaisquer do dia, para fazer o que gosto, o que quero...Escutar com louvor aquele canto de pássaro desconhecido. Ler um bom texto, já deitada na cama quentinha. Tomar uma xícara de chá na pausa entre a tarde corrida e a noite que nem se sabe ainda. Escutar uma música que seja até o fim, sem ninguém palpitar. Um bom banho demorado, sem ninguém nem nada para nos apressar ( quem tem filho ainda pequeno, sabe...namorado que gosta de atenção, também), quem sabe com tempo para se hidratar? Se olhar no espelho e ver o que precisa - ou quer - melhorar, por fora e por dentro...Um novo penteado, quem sabe uma nova pintura? Nem escrever, minha cura e alegria, eu tenho dado jeito...

Sexta- feira...tarde cheia de compromissos e eu aqui, pensando. Me pego no "flagrante delito" de estar olhando para fora, o sol me chamando,  pensando...o que quero para mim?  Não, nem pense em coisas grandes, que saem em páginas de revistas, nem em comentários de colunas sociais. Quero sossego, um sossego só meu, de coisas tão intimamente minhas, que nem se vai achar graça nisso. Mexer na horta, ler um bom texto, ver um filme que eu queira...voltar a cena que emocionou! Ou arrumar o cabelo? Ou bagunçá-lo, achando nele nova forma. Tanto faz...o que conta é ser - melhor falar estar? -  feliz. Nem que seja um minutinho. Um átimo de mim. Eu e eu, as muitas eus que sou, em conversa para lá de íntima. De convidado, só o sol. Ou a lua. Quem sabe uma paisagem infinita. Ou uma nova flor ou uma nova estrela que nasceu. E se dar uns selinhos por dentro , desses que a gente gosta e ninguém nota...
(risos)

"Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. 
Seguiria sempre em frente
e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas..."
Mário Quintana

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Por nada





Se me fosse dado um só dom, apenas um, escolheria a limpeza de pensamentos, esses nem sempre bons companheiros, que ocupam minha mente como posseiros. Espaçosos e sem escrúpulos, sem nenhuma cerimônia, entram sem bater e sem pedir licença, acampam em mim. Muitos trazem uma sujeira difícil, por vezes pura lama, lodo até...E é nessas horas que mais preciso de mim: só eu serei capaz de fazer faxina, dessas de dia de sol, colocar tudo para fora para tomar um ar. 

Muitas vezes, basta ler um texto, uma frase, um poema, uma música, fazer uma prece, uma pausa...ou simplesmente olhar para fora de mim que a limpeza se faz, devagar, sem que nem se perceba...Só quando me vejo sorrindo - por fora e por dentro - de novo, é que sinto o "cheiro de limpeza" no ar...e no lugar do lodo, flor...
Decididamente preciso voltar a escrever, me colher, semear...
Escrever, para mim -  e para tanta e tanta gente - é uma espécie de cura. Ou pelo menos tratamento, nem sempre indolor. Nem sempre querido, nem sempre amado, mas que nos abraça e dá colo no final. Ou, como pensei, uma faxina interna. Um diálogo conosco mesmo - os tantos nós que somos. Nós  e esse tanto nosso que, por vezes, queremos esconder. Mas, esconder de quem, se a nem sempre desejada consciência nos deixa nus?

Se me fosse dado um só dom, escolheria a limpeza do que penso e não quero, do que penso e me atrasa, do que penso e me entristece. Do lixo que se acumula em mim. Nessas horas, só meu olhar de menina sobre o mundo me enobrece, me alegra. Faz ver que tudo vale a pena, como já disse o poeta, se minha alma não é pequena e cabe nela todo o encantamento do mundo...Ver cor onde só se vê cinza, ver o sol por detrás das nuvens espessas, ver graça no banal dos dias. Quem sabe se esconde ai a tal felicidade?


"Ser feliz por nada talvez seja isso".
Martha Medeiros