quarta-feira, 23 de abril de 2014

Por nada





Se me fosse dado um só dom, apenas um, escolheria a limpeza de pensamentos, esses nem sempre bons companheiros, que ocupam minha mente como posseiros. Espaçosos e sem escrúpulos, sem nenhuma cerimônia, entram sem bater e sem pedir licença, acampam em mim. Muitos trazem uma sujeira difícil, por vezes pura lama, lodo até...E é nessas horas que mais preciso de mim: só eu serei capaz de fazer faxina, dessas de dia de sol, colocar tudo para fora para tomar um ar. 

Muitas vezes, basta ler um texto, uma frase, um poema, uma música, fazer uma prece, uma pausa...ou simplesmente olhar para fora de mim que a limpeza se faz, devagar, sem que nem se perceba...Só quando me vejo sorrindo - por fora e por dentro - de novo, é que sinto o "cheiro de limpeza" no ar...e no lugar do lodo, flor...
Decididamente preciso voltar a escrever, me colher, semear...
Escrever, para mim -  e para tanta e tanta gente - é uma espécie de cura. Ou pelo menos tratamento, nem sempre indolor. Nem sempre querido, nem sempre amado, mas que nos abraça e dá colo no final. Ou, como pensei, uma faxina interna. Um diálogo conosco mesmo - os tantos nós que somos. Nós  e esse tanto nosso que, por vezes, queremos esconder. Mas, esconder de quem, se a nem sempre desejada consciência nos deixa nus?

Se me fosse dado um só dom, escolheria a limpeza do que penso e não quero, do que penso e me atrasa, do que penso e me entristece. Do lixo que se acumula em mim. Nessas horas, só meu olhar de menina sobre o mundo me enobrece, me alegra. Faz ver que tudo vale a pena, como já disse o poeta, se minha alma não é pequena e cabe nela todo o encantamento do mundo...Ver cor onde só se vê cinza, ver o sol por detrás das nuvens espessas, ver graça no banal dos dias. Quem sabe se esconde ai a tal felicidade?


"Ser feliz por nada talvez seja isso".
Martha Medeiros

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