sábado, 14 de junho de 2014

Avesso




"Tem dia que a gente põe virgula, tem dia que colocamos reticências, tem dia que colocamos ponto final e tem dia que temos a necessidade de virar a página." 
Ana Jácomo

Penso em nós - ou pelo menos em mim - como seres em constante evolução. Ou não. Evolução que vem de cada escolha - caminho, palavra, ação, pensamento -  a cada segundo da vida.Uma escolha, grande ou pequena. Tomamos uma decisão agora, nesse minuto, ou numa noite mal dormida, onde os conselheiros nem sempre são anjos, e no outro fazemos o avesso. Bom se fosse o avesso do avesso. Ou um avesso bem feito, costura do bem. Sabemos os caminhos certos, mas, por vezes, pegamos atalhos. Ou, por medo, raiva ou até curiosidade, o caminho errado. Nossa eterna companheira, a tal intuição, cutuca por dentro, cansa de avisar: vá por lá!  Mas quem disse que a gente escuta?
E porque ainda temos dúvidas? E porque erramos? Pode ser porque nos achamos perfeitos. E , ingenuamente, queremos uma vida como tal , sem nem levar em consideração que não estamos sozinhos no mundo. Ou, bem ao contrário, muito imperfeitos, errados, coisas que nos incutiram desde tenro erro, desde o primeiro não, o primeiro tapa na mão. Ou porque achamos que para sermos felizes precisamos do outro, da sua aprovação, da provação. E a vida segue em compasso de eterna espera, de eternas reticências, simples três pontinhos que nos levam a infinita espera de que a felicidade venha bater a nossa porta, flores na mão - sem saber que ela mora dentro, e só cresce, floresce, sai, se a gente quiser,, se a gente deixar...
O dia em que a gente se assumir como ponto de partida, início de tudo, letra maiúscula antes de qualquer frase, antes de qualquer vírgula, quem sabe uma única frase dará por certo, um único ato com começo, meio e fim, seremos mais completos. Quem sabe, com sorte, uma bela exclamação. Pior coisa é parar num duvidoso ponto de interrogação, a espera de continuação ou resposta. Ou nos reticentes pontos infinitos, ou infinitas casas depois da vírgula.
Eu detesto dúvidas. Detesto em minha vida as tão perdidas reticências, três pontos que não param nunca, a não ser que seja para poetizar. E não falo dessas dúvidas simples, de ser verde ou azul, mas as doídas, intimas. Para elas, gosto tão somente do branco ou preto. O preto no branco. Cores, todas, só lá fora, a me alegrar. Se não for assim, preto no branco, melhor mesmo é virar a página. Ou virar-se o avesso. 

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