terça-feira, 24 de junho de 2014

Olhos de ver



"É preciso acordar um pouco criança para ler poesia com olhos de ver. 
Acreditar que as estrelas fazem ciranda mesmo quando nos sentimos um zé-ninguém.
É preciso não precisar de nada, não esperar alguém - nem notícia, novidade ou carta 
- para ler poesia bem."

Esse trecho de texto de Monica Montone sobre o livro de Astrid Cabral, Infância em franjas, fez brotar em mim outra ideia - ou uma ideia já plantada, amadurecendo em mim, como tantas: é preciso não precisar de nada, não esperar nada de ninguém, para se viver bem...
Tenho notado, nestes dias que eu pensava ensolarados, mas nublados vêm, que a gente tem mesmo é que se apegar ao que chamo de coisas "tolas", alimentos d'alma. Alegrar-se com as pequeninas e muitas vezes impercebíveis coisas que vem até nós, como que enviadas pelos céus para nos fazer bem. Pequenos alívios. Presentinhos que recebemos - e nem sempre vemos por estarmos com os olhos fechados de ver. Mas a vida, insistente, sabe bem do que precisamos, e nos afronta, cutuca e "manda ver". Quando estamos  " de bem com a  vida", vendo "passarinhos verdes" ( porque verdes? Não podem ser azuis, amarelos, furta cor?), tudo nos parece belo, tudo nos parece leve, e nos deixamos levar. Lei da atração, diriam alguns. Mas se os pássaros perdem a cor, se as nuvens vem, quando estamos nem tão bem com a vida, essa que nos apronta tanto,  fechamos os olhos para o que nos melhora, o que nos faz bem, tantas coisas. Fechamos os olhos para os pequenos sóis. E lá vem de novo  ela, a vida, teimosa de ser, traz de novo tudo de bom, esperando que se veja. 
Para isso devem existir os momentos de distração. Aqueles minutinhos que nos deixamos olhar o lado bom das coisas ( ah, sempre tem, pense bem!). Que nos deixamos envolver pela vida, abundante que é. Que nos deixamos afastar dos intitulados problemas e lembrar que a vida é uma grande aventura, pré concebida por nós. Que se levarmos tudo a "ferro e fogo", "olho por olho" e tantas outras definições duras de se viver, a vida perde a graça. Fica dura. Vira desventura. Vira passar de horas, dias, anos, vidas até. Porque não existe apenas essa vida, nem esse amor, nem nós como somos hoje, que nos modificamos  - ou, pelo menos, temos a chance disso - todos os dias. Que aprendemos - ou deveríamos aprender - com as tantas lições dos dias. Que acrescentamos em nós o vivenciar de cada um deles. Que temos que aprender a conviver com nossos pensamentos, e filtrar cada um deles com o coração para que não virem atos mal pensados, palavras mal ditas, ideias pre concebidas. E que, se deixarmos, hão de roubar da gente esses pequenos momentos de distração, de sossego da alma, de leveza dos dias,  que só se consegue com olhos de ver...  Porque a poesia da vida está ai para ser vista, vivida, sentida, notada,  amada...nos fazer rir. Ou até chorar, mas de emoção...
Verdade seja dita: é preciso não precisar de nada, não esperar nada nem ninguém
 para se viver bem...

Um comentário:

  1. Sempre com as palavras certas para adentrar o coração.
    Um beijo

    Stela

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