quinta-feira, 24 de julho de 2014

Madura



Tem gente que morre de medo de envelhecer. Eu morro de medo de morrer ser ter sido. Os anos passam e continuo me olhando no espelho e achando o que me sirva, o que me faça bem e me lembre que minha beleza não é só essa que o espelho mostra. Vejo minhas rugas como marcas do tempo, sim, mas da vida que levei. E não é a pele que me diz se vivi ou não: é o coração...
E não é assim na natureza? A fruta boa é a madura. O bom vinho, o mais curtido, toneis de carvalho. Colho de mim o meu melhor, bebo de mim meu  melhor doce, meu sabor mais profundo, minha melhor cor. Meu melhor gosto, sem me preocupar do que acham de mim. Não quero que achem nada de mim, coisa muito vaga. Quero deles só certezas. Dou meu melhor conversar, meu melhor ver a vida, viver a vida,  sem os arroubos da juventude. Viver a vida sem pressa. Talvez isso seja a tal maturidade. Talvez seja isso nossa profundeza. Saber o que se quer ...e , ainda mais importante, o que não se quer da vida. Nem de nós, nem do outro. É aceitar os desvios do caminho, posto que não somos videntes e nem a vida evidente, e fazer de cada novo caminho, renascimento. Aceitar nosso erros e recomeçar tantas e tantas vezes for preciso, sem medo do que pensam ou dizem - não sou dada a alimentar línguas alheias. 
Não, não sou adepta de máscaras, nem de plásticas, nem de grossas maquiagens: é como ser sem estar sendo. Não me vejo ali, não sou eu. Não me visto feito menina, não me comporto como adolescente, e muito menos "velhamente". Meu tempo é outro. Meu tempo é hoje. Meu tempo é só meu. E vai muito além das horas que passam, dos tique taques marcados, dos dias riscados, dos anos mal contados, do viver por viver...
Maturidade é se aceitar como se é, sim, mas provocando reformar internas aqui e acolá. Como bela colcha, cada cor, cada ponto, cada escolha, um caminho, cada dia um pedaço, e em cada pedaço , o melhor de nós! E se algo deu errado, um ponto falhado, desmanchar sem medo de recomeçar! 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Maduro



Está certo...você já ouviu falar disso. Leu, até gostou, mas pensou entre seus botões: essa conversa não é comigo:  
...o amor tem que ser laço, não nó... 

O laço é coisa bonita, enfeite do bem. Abraça o presente, embeleza a vida, traz surpresas para lá de boas. E fica aquele tum-tum-tum entre o que se espera e o que nos vem. E se a gente não souber desatá-lo bem, cheios de expectativas enormes e até fora, por vezes, do mundo real, não imaginária ou sonhado, vira nó. Se a gente vivê-lo na euforia, abrir o embrulho sem nem pensar, apenas com a emoção, o que parecia enfeite vira coisa difícil de desatar. Afoga o presente, amassa o pacote, rasga a cara, amassa a presença. Sufoca. Pode até matar o amor de laço. 
Amor de laço é calmo. Vem com o tempo, amor de vivência. Meu amor vive o outro e , sábio, nada espera. Não tem o calor,  por vezes sufocante e embriagador, da paixão, que queima o papel do presente antes mesmo de vivê-lo inteiramente. Antes mesmo de conhecer o que ele tem por dentro. Que rasga e escancara antes mesmo de sabê-lo seu, ou não. 

Amor de laço primeiro se enlaça com quem presenteia, vira abraço demorado, terno, eterno no minuto em que cabe. Foge da escala do tempo, pára o relógio das horas. Troca o olhar devassador pelo olhar terno. Não despe, mas veste sua melhor roupagem. Faz do caminho do que se pensa ao que se tem bela caminhada sem pressa, mãos dadas entre quem dá e quem recebe. 
Mas, quem disse que fazer laço é fácil? 
Nó é travesso e atravessado: só puxar, trava o traço. Enforca e é enforcado. Queima o descuidado. Laço é delicado, manso, desenha no espaço. Feito dança, tem compasso, fala mansa, olhos de ver. Amor de alma, mas não de amante, efervescente. Gosto de bolo com leite. Calor de aconchego. Colo manso.
Meu bem querer...mas só vem com o tempo, quando se sabe o que se quer viver... 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Crescer





Tentar ver leveza quando tudo pesa
Tentar ver beleza quando tudo quebra

Melhorar tudo com uma reza...
E que assim seja 
Amém♥

Postei outro dia esse poema "de rompante", como quem alivia o peito. Quando a gente se sente dentro de uma tempestade, melhor não lutar. melhor permanecer - ou pelo menos tentar - calmo. Equilibrar razão e emoção. Equilibra-se, para não sair no rumor da chuva, levada pelo vento, e ao parar, nem saber onde se está. Feito guarda chuva, aos cambalhotes. 
Deve ser para isso que o tempo passa. Deve ser para isso que se amadurece feito fruta, no ponto que dá o seu melhor doce, a sua melhor maciez, a sua melhor resposta à semente que a criou. O tempo passa - ele no ritmo dele e eu no meu -  e a gente "cresce" por dentro. Ameniza os fatos. Adoça as amarguras, como quem adoça o chá amargo, vira cura. Sabedoria de quem sabe o que quer a um ponto que tem até medo de falar e os outros acharem estranho. E ao mesmo tempo não se preocupa com os outros, tantos eus que tem, tanta gente interna, já, a opinar. Sabedoria de saber a quem escutar - se o cérebro ou o coração. Ou os dois, em comunhão?
Sabedoria deve ser isso, andar descanso onde só se sentia pedra.  Molhar o pé na água morna dos dias. Sentir sob eles a relva macia. E esperar, sim, mas esperar querendo muito ainda da vida. Esperar vivendo um dia de cada vez, uma vida como única, mas fazendo parte de um universo tão imenso que nem me cabe questionar. Sabedoria com sabor de café com leite, bolo de fubá mimoso, nata cremosa para arrematar. Saber saborear as pequenas conquistas, tão ínfimas aos olhos, mas tão enormes ao coração em paz. 
Ver leveza quando tudo pesa.


Ver beleza quando tudo quebra

Melhorar tudo com uma reza...
E que assim seja