domingo, 24 de agosto de 2014

Nua



Cá estou eu, em pleno domingo a noite, conversando com as tantas joyces que sou. Brindamos com um bom vinho, ao som encantador de Amelie Poulain,  com uma alegria interna só nossa, imperceptível, não visível a olhos frios, em comemoração à vida que temos levado. Em comemoração às escolhas feitas, aos passos dados. Comemorando, talvez,  não a tão sonhada vida, tão esperançosa vida, quase fantasiosa vida, mas a vida real, nua, pele, sangue, pé no chão, que se leva da melhor forma possível com o que nos vem, com o que se tem...
Entre um gole e outro, lembro de um trecho de Clarice Lispector no livro Um sopro de vida:
"Ângela diz, como milhares de pessoas dizem (e com razão): 'minha vida é um verdadeiro romance, se eu escrevesse contando ninguém acreditaria'. E é verdade. A vida de cada pessoa é passível de um aprofundamento doloroso e a vida de cada pessoa é 'inacreditável'. O que devem fazer essas pessoas? O que Ângela faz: escrever sem nenhum compromisso. Às vezes uma só linha basta para salvar o próprio coração."
Escrever me cura. Escrever me traz respostas, como quem deita confortável no próprio divã e abre o coração.  Um diálogo sincero, honesto, entre as tantas que sou. "Às vezes uma só linha basta para salvar o próprio coração", diz ela. Às vezes, um só momento meu, eu comigo mesma, me acalma o coração de tal forma como se ele me confortasse - e não eu a ele. Como se ele me desse mais uma das tantas e tantas "altas" que já tive nessa caminhada da vida que escolhi para mim. Sim, lá no final veremos que nós é que escolhemos cada passo, cada ínfimo  pensamento, cada íntima ação. Nós é que escolhemos que lado nosso queremos alimentar. Se o que, no íntimo, na conversa quieta com nossa alma, queremos ser, ou no outro, que se deixa levar por convenções, regras de boa conduta, convenções de toda ordem,  já tradicionalmente traçadas, caminhos por onde nos deixamos levar. E eu me pergunto: quero ser eu mesma ou o que esperam de mim?E em meus mais íntimos diálogos, mesmo que muitas vezes eu mesma me surpreenda com as escolhas feitas, sigo feliz. Do meu jeito, talvez torto ( quem sabe mais criativo?). Não uma felicidade plena, constante, mas a verdadeira felicidade de se ver crescendo, amadurecendo, maturando escolhas, aproveitando o que a vida tem de bom para me dar. E sabendo reciclar o que não é mais meu - se é que um dia já foi.Cá estou eu, em pleno domingo a noite, calando os meus tantos eus com respostas talvez não certeiras, talvez não terminadas em exclamação ou ponto final, mas respostas sinceras, mesmo que cheias de etcéteras, de três pontinhos, ou seja lá o que for. Porque nem eu sei onde isso vai dar. Porque nem eu sei onde eu vou dar. Porque nem eu sei onde vai dar meu coração...mas sigo, confiante em mim. E isso me basta. E que  isso nos baste. 

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