quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Máscara




"A vida pede leveza e o coração exige respeito não do outro, 

mas de você consigo mesmo."

Cecília Sfalsi

Acho que ando precisando ler mais vezes essa frase...mais e mais até reaprender ( ou aprender?) a me respeitar. Não a pessoa que sonho ser, mas a pessoa que realmente sou - e nem sempre gosto ou mostro. 
A gente cuida tanto para não magoar o outro, não chatear ninguém, cuida tanto para parecer uma pessoa centrada, correta, eficaz, sempre alegre, sempre de bem com a vida - nem que seja para agradar aos outros - que esquece de agradar a si mesma. Esquece que a vida não é um conto de fadas, não é um romance barato, nem um perfeito filme clássico. Não somos Cinderela, que de dia limpa  a casa e de noite acha um príncipe. Nem Bela Adormecida que fica a espera do tal beijo que tire o encanto ( queremos, mais, é um beijo que nos encante, não?). Por vezes, eu mais pareci a Chapeuzinho Vermelho que, na melhor das intenções, quase (quase?) caiu na lábia de um velho lobo...
A vida mais parece um filme de Woody Allen , muitas vezes sem nexo, outras tantas ridícula, em que, para se parecer vencedora, temos que esconder um lado nosso, o real, o verdadeiro. E se olhássemos de longe, quem sabe daríamos boas gargalhadas de nós mesmas? Ou sentiríamos vergonha? Os anos passam e queremos ser, ainda, aquelas meninas educadas, sentadinhas ao lado das mães, à espera que a vida nos chame para brincar - sim, mas sem sujar o vestido! Ou a moça recatada que espera, pacientemente, que um moço qualquer  atravesse o salão e nos tire para dançar...E quantas e quantas vezes nossa vontade era sujar o vestido de terra,  ou limpar nele as mãos sujas de chocolate, ou entrar com ele no mar? E quantas e quantas vezes a vontade era de atravessar o salão e "se oferecer"? 
Queremos ser perfeitas, incansáveis, filhas inesquecíveis, mães exemplares , ótimas companheiras, excelentes amigas ou inseparáveis  irmãs...mas esquecemos que somos mulheres de carne e osso. Esquecemos que temos sentimentos, que somos sentimentos , que somos sensíveis ( ainda mais em certos dias, não?), ao mesmo tempo que se queria tão somente respeito. Mas se nós não nos respeitamos, não respeitamos nossas horas de silêncio, não respeitamos nossas horas de tristeza, de mágoas, de raiva, até , como queremos ser respeitadas? Se não respeitamos o que realmente somos, como pedir o respeito que não temos?
Leveza. Hoje eu só queria leveza. Ver a vida de forma mais mansa, amar sem tanto mergulho, fazer as coisas com amor, sim, mas sem tanta precisão. Sem tantos ter que e mais por simplesmente querer. Armar-me mais. Amar-me mais e de verdade. Defender meus princípios, minha ideias reais, ser quem eu realmente sou - até aquela parte que escondo de mim mesma para não caie no desagrado,  não cair no desalinho. Amar-me egoísticamente, egocentricamentre, vez por outra.  Ser eu mesma, sem me preocupar com o que vai pensar o mundo. Quando, para não demonstrar fraqueza ou ser deselegante, usamos a famosa frase de Clarice:

 "Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada"
Clarice Lispector

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Roubo



Poucas coisas me ensinam mais  - e me marcam mais  - que filmes. Amo as imagens, sim, as histórias bem contadas, sim, mas amo, acima de tudo, os diálogos bem feitos, bem arquitetados, feito armadilhas onde caio com gosto...me jogo.
E não foi diferente quando assisti, pela infinitésima vez, O caçador de pipas, baseado no livro de Khaled Hosseini. Para muitos, um filme triste. Para mim, toda a poesia do lado triste da vida, tendo ele também seu lado alegre. O lado B, de bom,  que falo tanto...Gosto quando um filme me faz chorar, sim, mas mais de emoção do bonito, do emotivamente forte, do bem pensado, do bem feito, que da tragédia em si. Mas um diálogo entre pai e  filho me marcou - e marca! - muito. O pai, integro; o filho com a integridade ainda nascente, semente ainda fraca até então:
 "Existe apenas um pecado, um só. E esse pecado é roubar. Qualquer outro é simplesmente a variação do roubo. Quando você mata um homem, está roubando uma vida. Está roubando da esposa, o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando mente, está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, está roubando o direito à justiça [...]" 
Nesse processo pelo qual passo - ou melhor, da qual saio, não ilesa -, onde, descobri, em conta gotas, que a mentira fazia parte do meu dia a dia,  idealizado perfeito, me pareceu perfeito. Sem tirar nem por. Mentir é roubo de sonhos. Roubamos o tempo dos outros quando os fazemos perder tempo ao nosso lado, quando falamos - ou fazemos - coisas de pouco valor. Ou fazemos o outro de pouco...Roubamos a felicidade do outro quando os enganamos. Roubamos um pedaço da alma do outro quando não somos fieis a ele ou a nós mesmos. E, principalmente, roubamos muito de nós mesmos quando não somos fiéis ao que somos, quando deixamos de o ser para agradar ou , pior ainda, não desagradar ao outro...é aquela máxima aprendida desde tentar idade: agradar para ser agradável...não para ser feliz...
Somos roubados da vontade de viver, quando notamos o cofre da alma vazio. Somos roubados de nossa capacidade de confiar até em nós mesmos. E, acima de tudo, somos roubados da confiança em amar de novo, até a nós mesmos. 


          Mas quando acho que meu pensamento vai longe, louco, feito as pipas que tem seus fios cortados, vem o amor e diz: " por   você, faria isso mil vezes!". E eu, otimista incorrigível, me apego a essa última frase feito porto...e esqueço os tantos e tantos ladrões de mim que passaram em minha vida...e que me deixei levar!