terça-feira, 4 de novembro de 2014

Roubo



Poucas coisas me ensinam mais  - e me marcam mais  - que filmes. Amo as imagens, sim, as histórias bem contadas, sim, mas amo, acima de tudo, os diálogos bem feitos, bem arquitetados, feito armadilhas onde caio com gosto...me jogo.
E não foi diferente quando assisti, pela infinitésima vez, O caçador de pipas, baseado no livro de Khaled Hosseini. Para muitos, um filme triste. Para mim, toda a poesia do lado triste da vida, tendo ele também seu lado alegre. O lado B, de bom,  que falo tanto...Gosto quando um filme me faz chorar, sim, mas mais de emoção do bonito, do emotivamente forte, do bem pensado, do bem feito, que da tragédia em si. Mas um diálogo entre pai e  filho me marcou - e marca! - muito. O pai, integro; o filho com a integridade ainda nascente, semente ainda fraca até então:
 "Existe apenas um pecado, um só. E esse pecado é roubar. Qualquer outro é simplesmente a variação do roubo. Quando você mata um homem, está roubando uma vida. Está roubando da esposa, o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando mente, está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, está roubando o direito à justiça [...]" 
Nesse processo pelo qual passo - ou melhor, da qual saio, não ilesa -, onde, descobri, em conta gotas, que a mentira fazia parte do meu dia a dia,  idealizado perfeito, me pareceu perfeito. Sem tirar nem por. Mentir é roubo de sonhos. Roubamos o tempo dos outros quando os fazemos perder tempo ao nosso lado, quando falamos - ou fazemos - coisas de pouco valor. Ou fazemos o outro de pouco...Roubamos a felicidade do outro quando os enganamos. Roubamos um pedaço da alma do outro quando não somos fieis a ele ou a nós mesmos. E, principalmente, roubamos muito de nós mesmos quando não somos fiéis ao que somos, quando deixamos de o ser para agradar ou , pior ainda, não desagradar ao outro...é aquela máxima aprendida desde tentar idade: agradar para ser agradável...não para ser feliz...
Somos roubados da vontade de viver, quando notamos o cofre da alma vazio. Somos roubados de nossa capacidade de confiar até em nós mesmos. E, acima de tudo, somos roubados da confiança em amar de novo, até a nós mesmos. 


          Mas quando acho que meu pensamento vai longe, louco, feito as pipas que tem seus fios cortados, vem o amor e diz: " por   você, faria isso mil vezes!". E eu, otimista incorrigível, me apego a essa última frase feito porto...e esqueço os tantos e tantos ladrões de mim que passaram em minha vida...e que me deixei levar! 



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