domingo, 25 de outubro de 2015

Limpinha



Faz muito tempo que não escrevo. E escrever, para mim, tem um tom não de exposição, de acréscimo mas,sim, retirada, de faxina. Mas uma faxina que precisa de um certo amadurecimento de ideia - como se precisasse a tal ideia ter a terra fértil, remexida, ser semeada e cuidada, cultivada, antes de brotar - ops, postar. E ando num tal acúmulo de sujeira interna tamanha que dá até medo começar a  remexer. Sabe como é? Já diz o ditado : "quando mais mexe, mais ..."
E é no meio de uma outra faxina - essa, da casa, que nem é minha - que me veio este texto, esperando desde cedo o tempo necessário para "brotar", um brotar que pede silêncio, nem sempre presente, ou nem sempre palpável, possível. Todo dia levantamos, lavamos o rosto, escovamos os dentes , tomamos banho, e até fazemos outras "faxinas" ainda mais necessárias ao nosso bem estar. Isso sem contar os inúmeros shampoos, os cremes, as pomadas e tudo o mais. Depois vem as roupas limpas  e bem passadas, uma boa maquiagem, uma barba bem feita, um perfume. Tudo em sua mais perfeita ordem antes de sair de casa. Uma boa aparência parece ser o primeiro passo para a gente ser feliz, não?
A casa também não fica atrás. Arrumamos as camas, lavamos as louças, varremos o chão, passamos o pano, tiramos o pó, varremos até as calçadas - isso quando não se trata de uma daquelas faxinas de levantar tudo, por os tapetes lá fora e tudo o mais. Tudo tem que ficar da melhor forma.Uma casa limpa e bem arrumada parece ser um cenário perfeito para que a vida ser mais gentil, não?
Pois é. Mas deixamos tanta sujeira dentro...As palavras que saem atravessadas, rasgando a garganta. Os palavrões que deixam um rastro amargo da boca até a alma ( e nem se leva mais tapa na boca!). Os pensamentos insistentes - geralmente os ruins - criando mofo por dentro. As mágoas e rancores que em nós fazem morada ( e a quem damos cama, comida e roupa lavada...). As raivas contidas, as  tristezas trancadas, as frustrações proteladas e feridas abertas pronta apara sangrar a qualquer momento.
E se a gente fosse tão vigilante por dentro como se é por fora? A cada dia, antes mesmo de tocar a vida, limpar-se por dentro.Literalmente, lavar a alma. Jogar fora o que não nos cabe, nem nos presta, lavar a boca, como diziam os antigos, para que cada palavra saísse limpa, boa,  renovada. Dissolver cada mágoa tantas e tantas vezes até que o veneno virasse remédio. Que as tristezas se dissolvessem com as risadas, as iras com as acalmadas, a cólera com as cócegas. Que no mínimo pensamento ruim,  a mente já desse uma boa "lavada". Que se passasse a ferro cada palavra amassada andes dela " sair por ai". 
Pois é...enquanto esfregava aqui  e acolá, colocava tudo no lugar, me peguei pensando: se a gente se cuida tanto por fora, porque não se faz o mesmo por dentro?

domingo, 14 de junho de 2015

Pão do dia




Vendo uma coisa, achei outra. Adoro esses novos programas que mostram casas pelo mundo, onde vemos em cada uma delas a forma de pensar e de viver de cada um, mas com pontos bem comuns a todas que gosto: vida. Vida que aparece desde o jardim com ervas, até a cozinha espaçosa, as cores ousadas, uma mistura boa  e única de viver de cada um, como um certo acervo de quem somos. 

E em cada programa, ou na maioria deles, aprendo algo que me fascina - eu, uma eterna fascinada por saberes, sejam eles eruditos ou simples e sábios. 
O fascínio de hoje foi o que traduziram como "massa matriz"( com certeza o nome verdadeiro deve ser bem mais poético...).  Pelo que entendi - e já havia ouvido falar disso -  acontece na Europa e nos seus descendentes, tantos no Brasil. Trata-se de pequeno pedaço da massa ainda crua de um pão que está sendo preparada , que é reservada para ser usada como principio do pão do outro dia, e do outro dia, e assim se segue. E destes pães recém feitos, ainda crus, resgata-se mais um pedaço da dita massa e assim sucessivamente. Fiquei pasma em saber que as tais massas vêm de mãe para filha , e de mãe para filha, e assim, sem parar, tem gente que sente na massa um pouco de seus ancestrais. Massa da avó, quem sabe da bisavó, que nem se conheceu, mas se sabe toda história?

Confesso. Vivo meio distanciada de minha família -  coisas que carrego desde o ventre de minha mãe ( história muito interessante...)   e tenho meus porquês , somada a essa liberdade que procuro desde sempre  que hoje vejo como certa fuga deles e um eterna procura de achados meus -  mas isso me encantou. Creem eles que o pão da bisavó - ou bem antes disso - esta presente ali, e, entre farinhas e fermentos, um pouco de sua história, de seu viver , de sua energia - ou muito. Como um vaso que se guarda há anos, uma peça que não se desfaz dela por ter um pouco de nossa vida contida ali, de uma forma ou de outra. 
Senti uma certa tristeza. Não trago em mim nenhuma receita de família. Não aprendi - ainda ( e isso me traz certo alívio)  - nem o famoso pão de panela de minha mãe, aos moldes de Saint Exupéry nas partilhas de pão e de conversa com o Pequeno Príncipe em meio ao deserto de noites estreladas. Nem aproveitei as tantas horas de cozinha em que minha vó tirava do forno e das horas perfumados pratos. Mas isso é coisa da gente que só aprende a dar valor para muitas coisas quando já estamos a vidas de distância. Bom pensar que ainda dá tempo, não de catar a tal massa matriz e  refazer os dias, mas de tomar consciência da importância do passar do tempo em nós...Como meu querido Chico Xavier já  bem disse, não posso mudar o começo, o passado mal vivido,  mas posso fazer um novo fim...que pode ser um novo começo. E segue a vida...com o pão de saber de cada dia...

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. 
Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.” 
Antoine de Saint -Exupéry

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Pra fora!


Aprendi com Cristina  Cairo, no livro A Linguagem do Corpo. Dor de garganta, inflamada ou só arranhando, amídalas inchadas, rouquidão, problemas nas cordas vocais - simples ou sérios -  tem uma só causa: coisas entaladas. Palavras não ditas, não colocadas para fora, reverberando até "lá" e não podendo sair...Ou porque não podemos falar. Ou por medo de deixar sair, sem magoar o outro e a gente mesma. Ou por medo de piorar as coisas...melhor piorar a gente mesma, certo? 
Errado! Ponha para fora! Feito o lixo que fede no canto da área de serviço porque " não é o dia". Fede e fere. Quase uma automutilação. Não é hora de falar? Ou não dá para falar por uma questão ou outra - e cada um sabe da sua? Ponha para fora, literal ou imaginariamente. Fale com as paredes - ou com o espelho. Expresse toda  a sua mágoa e indignação, como se fosse no teatro. Xingue. Berre. Dramatize. Enfrente esse fantasma do outro!

Não quer dar uma de louca - ou de louco? Escreva. Ponha no papel, Não se preocupe com a letra, nem com as ideias. Risque, rabisque, mas não pare! Não perca o pensamento! É como se você estivesse falando com a pessoa - e ninguém passa a  limpo o que diz, certo? Isto feito, rasgue, pique! Ou queime. Não releia, a não ser que queira fazer desse  um momento dramático o bastante. Mas não se dê esse exagero: o outro nem vale tanto a pena...

Não consegue melhorar? Ou não quer sair do prumo? Use azul - um lenço, um laço, uma blusa de gola...azul. Mas tem que cobrir o pescoço, entende? Mais discretamente - às vezes a pessoa está ali, sempre ao seu lado - mentalize a cor azul ao deitar. Imagine essa benção azul penetrando no lugar, fazendo uma bela assepsia...Imagine que ela pé uma mão abençoada tirando sua dor - e seu problema - delicadamente. Ou , se tiver como, use uma lâmpada azul ou coloque um plástico ou vasilha azul sob a lâmpada da cabeceira e direcione...

O ditado popular fala em engolir sapos. Por vezes pequenos; em outras enormes, asquerosos, grudentos, raspando para passar na "goela". Principalmente aqueles que , um dia, imaginávamos príncipes  - e por que não dizer também princesas ?- , sejam eles companheiros/s, sócios/as ou até filhos/as, pai, mãe, irmã, irmão, cunhado/a, sogra/sogro, sei lá. Por vezes a outra pessoa nem sabe, nem sente. E a gente fica esperando que ela se "refaça", entenda o que se passa, quando, muitas vezes, a  gente está "passando" sozinho/a. Ás vezes a discussão é monologo sentimental interno, é sei la...e o outro parece "não estar nem ai". Então, ponha para fora. A dor passa mais rápido. E a gente fica bem mais leve sem tantos sapos,..e cabem ai mais sorrisos, não? E mais amor pela gente mesma...

sábado, 11 de abril de 2015

Verdade



Vendo ao meu redor formas de melhorar,  de algum jeito, a vida de alguém ( e não necessariamente alguém que você conhece - ou conhece, mas não intimamente, o que faz muita diferença), que pode ser uma prece de coração, uma simples conversa, um bom encaminhamento, um bom conselho  - dizem que se damos aos outros, estamos precisando dele - sinto que ai se esconde um grande tesouro. Um tesouro que se abre até mais para mim que para o outro.  Seria esse o tal amor ao próximo, incondicional? 

Coisas que a gente atrai porque precisa. Porque precisa mais que o outro. Porque precisa aprender com a vida. Como uma forma de desviar o olhar do próprio umbigo e olhar para o lado. Olhar para a frente - ainda mais para quem tem um olhar para trás que nada traz. 
Isso me fez voltar ao tempo. Um tempo que fui chamada a ajudar a uma pessoa em estado crítico no hospital, pai de uma amiga. Fora internado na mesma cidade onde eu morava e trabalhava - e longe da cidade dele, da casa dele, da família. Meu "trabalho" seria apenas de visitá-lo quando possível, eu já numa vida do tipo atribulada. Conversando e  observando, via os pratos de comida do hospital voltarem intactos para a cozinha. Descobri, por minha conta, que ele só conseguia engolir coisas moles e doces. A mastigação precária, o engolir doía, o sal ardia. E foi essa a primeira vez  - e última, diga-se de passagem - que me aventurei no mundo dos pudins, das sobremesas a base de gelatina, dos mousses. E como saiam bonitos,com aquele ar de "pudim de propaganda"! E como saiam saudáveis! E como saiam saborosos! Com certeza, mão de Deus. Ou de um anjo incumbido de me ajudar a não fazer tanto fiasco....

O tempo passou e ainda lembro disso com muito carinho. E me faz pensar em duas coisas: Uma é que, sim, podemos. Conseguimos. Somos capazes das maiores proezas se tivermos boa vontade, esse "gás" que nos impulsiona o corpo e a alma ( seria melhor dizer a alma e o corpo...). Apesar de que me parece, sem demagogia, ser muito mais fácil fazer pelo outro que por mim mesma...Outra é que a verdadeira alegria vem dai, desde desprendimento, dessas oportunidades de se ter o olhar mais aberto, mais amplo, até um ponto onde o "eu" fica totalmente desfocado. Saem dai nossas melhores fotos, nossas melhores lembranças, nosso verdadeiro crescer...