domingo, 14 de junho de 2015

Pão do dia




Vendo uma coisa, achei outra. Adoro esses novos programas que mostram casas pelo mundo, onde vemos em cada uma delas a forma de pensar e de viver de cada um, mas com pontos bem comuns a todas que gosto: vida. Vida que aparece desde o jardim com ervas, até a cozinha espaçosa, as cores ousadas, uma mistura boa  e única de viver de cada um, como um certo acervo de quem somos. 

E em cada programa, ou na maioria deles, aprendo algo que me fascina - eu, uma eterna fascinada por saberes, sejam eles eruditos ou simples e sábios. 
O fascínio de hoje foi o que traduziram como "massa matriz"( com certeza o nome verdadeiro deve ser bem mais poético...).  Pelo que entendi - e já havia ouvido falar disso -  acontece na Europa e nos seus descendentes, tantos no Brasil. Trata-se de pequeno pedaço da massa ainda crua de um pão que está sendo preparada , que é reservada para ser usada como principio do pão do outro dia, e do outro dia, e assim se segue. E destes pães recém feitos, ainda crus, resgata-se mais um pedaço da dita massa e assim sucessivamente. Fiquei pasma em saber que as tais massas vêm de mãe para filha , e de mãe para filha, e assim, sem parar, tem gente que sente na massa um pouco de seus ancestrais. Massa da avó, quem sabe da bisavó, que nem se conheceu, mas se sabe toda história?

Confesso. Vivo meio distanciada de minha família -  coisas que carrego desde o ventre de minha mãe ( história muito interessante...)   e tenho meus porquês , somada a essa liberdade que procuro desde sempre  que hoje vejo como certa fuga deles e um eterna procura de achados meus -  mas isso me encantou. Creem eles que o pão da bisavó - ou bem antes disso - esta presente ali, e, entre farinhas e fermentos, um pouco de sua história, de seu viver , de sua energia - ou muito. Como um vaso que se guarda há anos, uma peça que não se desfaz dela por ter um pouco de nossa vida contida ali, de uma forma ou de outra. 
Senti uma certa tristeza. Não trago em mim nenhuma receita de família. Não aprendi - ainda ( e isso me traz certo alívio)  - nem o famoso pão de panela de minha mãe, aos moldes de Saint Exupéry nas partilhas de pão e de conversa com o Pequeno Príncipe em meio ao deserto de noites estreladas. Nem aproveitei as tantas horas de cozinha em que minha vó tirava do forno e das horas perfumados pratos. Mas isso é coisa da gente que só aprende a dar valor para muitas coisas quando já estamos a vidas de distância. Bom pensar que ainda dá tempo, não de catar a tal massa matriz e  refazer os dias, mas de tomar consciência da importância do passar do tempo em nós...Como meu querido Chico Xavier já  bem disse, não posso mudar o começo, o passado mal vivido,  mas posso fazer um novo fim...que pode ser um novo começo. E segue a vida...com o pão de saber de cada dia...

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. 
Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.” 
Antoine de Saint -Exupéry

Nenhum comentário:

Postar um comentário